Situação financeira da Juventus preocupa, com gastos com salários chegando a 71% das receitas

Relatório financeiro da KPMG mostra que a Juve está ameaçada de descumprir Fair Play Financeiro e precisa reverter a tendência de prejuízo na temporada

Graças ao seu apoio, as colunas das cinco grandes ligas da Europa estão de volta, e quinta é dia da Fuoriclasse, com informações e análises sobre o futebol italiano. Faça parte do nosso financiamento coletivo no Apoia.se e nos ajude a bater mais metas.

Um relatório financeiro de oito campeões europeus preparado pela KPMG mostrou que a situação financeira da Juventus é preocupante. Há pontos críticos nos gastos do clube, especialmente em termos de salários, que colocam a equipe de Turim no prejuízo na última temporada. A situação não é irreversível e ainda está sob controle, mas é preciso ter cuidado, especialmente porque o time está descumprindo uma regra do Fair Play Financeiro. O relatório é um indicativo e não é usado pela Uefa, que se baseia nos balanços dos clubes. De qualquer forma, é um sinal de alerta.

[foo_related_posts]

A Juventus conseguiu aumentar suas receitas, com uma estimativa de € 464 milhões na temporada 2018/19, 16% a mais do que em 2017/18. Parte desse crescimento veio dos ganhos comerciais, que cresceram em 30% desde a chegada de Cristiano Ronaldo a Turim, além da renegociação do contrato com a Adidas, fornecedora do material esportivo, que rende € 51 milhões por temporada. Houve ainda um aumento das receitas de direitos de TV para € 206 milhões em 2018/19.

Tudo isso seria uma boa notícia para o time italiano. Porém, mesmo assim, há um déficit de € 40 milhões, incluindo os impostos. No ano anterior, o clube já tinha fechado no vermelho, em € 19,2 milhões. O principal fator para isso é o aumento considerável de gastos com salários dos jogadores. Segundo o relatório da KPMG, o clube gasta 71% da sua receita com sua folha salarial. Algo que passa do limite estabelecido pela Uefa, de 70%. Especificamente, os salários do clube chegam a um total de € 327 milhões.

Até mesmo o Barcelona, sempre suspeito de violar esta regra com sua enorme folha salarial, está, segundo o relatório, dentro do limite: gasta 69% dos seus rendimentos com salários – embora valha apontar que, de acordo com outro relatório, da Deloitte, o time catalão é o que mais arrecadou dinheiro no mundo em 2018/19, com € 840,5 milhões.

O Barça gasta € 575,8 milhões em salários, incluindo atletas e funcionários. Até por isso, o clube sofre para conseguir contratar jogadores, já que não pode aumentar sua folha salarial – ao contrário, precisa é diminuir.

O aumento da folha salarial na Juventus tem a ver com as contratações não só de Cristiano Ronaldo, de longe o maior salário do clube, mas também de outros como Emre Can (que até já saiu, por empréstimo, ao Borussia Dortmund), Aaron Ramsey (ambos contratados sem custos, ao final de contrato, e portanto, em um leilão de salários) e também Matthijs de Ligt, zagueiro bastante concorrido que chegou do Ajax depois de ótima temporada.

Em novembro, em uma reunião de diretores da Juventus, os acionistas mostraram uma situação financeira no limite. O clube foi apresentado “em uma situação de tensão, porque não tem capital suficiente para suprir suas necessidades financeiras nos próximos 12 meses”.

A Juve emitiu títulos no valor de € 175 milhões em fevereiro de 2019, além de recentemente, em novembro, ter aumentado esse número para € 300 milhões, de forma a manter o fluxo de caixa. Esse dinheiro vem dos acionistas do clube, o que, segundo a RMC Sport, está dentro das regras do Fair Play Financeiro. Será preciso, porém, que os resultados anuais sejam melhores do que os atuais.

Desde a temporada 2016/17, o clube gastou € 811,93 milhões, sendo € 263,2 milhões apenas na janela de transferências de 2018. Também por isso, conseguiu aumentar as receitas comerciais, como apresentadas anteriormente. Ainda assim, se considerarmos o balanço de transferências nas últimas quatro temporadas, tem um déficit de € 178 milhões.

Segundo o relatório da KPMG, a Juventus tem seus € 464 milhões de receitas divididos da seguinte forma: 40% vêm de receitas comerciais; 15%, de receitas relacionadas aos dias de jogos (o que inclui bilheteria, mas não somente); e outros 45% vindos de direitos de TV. Tudo relacionado à temporada 2018/19, que tem dados já consolidados.

Entre os clubes que mais gastam suas receitas com salários, estão, pela ordem: Juventus (71%), Barcelona (69%), Manchester City (59%), Benfica (58%), PSG (58%), Bayern de Munique (54%), Galatasaray (49%) e Ajax (46%).

O Barcelona precisou reduzir drasticamente a sua folha salarial em relação ao relatório anterior, que apontava que os catalães gastavam 81% das suas receitas com salários. As mudanças permitiram ao clube baixar essa porcentagem, mas os problemas de planejamento fizeram com que o elenco ficasse curto. Em números absolutos, o Barça é ainda quem mais gasta com folha salarial.

De acordo com o relatório da KPMG, a Juventus é o único dos oito clubes campeões avaliados que registrou prejuízo. Pior ainda, o montante aumentou de uma temporada para outra, e o relatório aponta como causa justamente o aumento dos custos salariais. Especialmente por causa de Cristiano Ronaldo. Com tudo isso, o clube registrou déficit de € 40 milhões.

Entre todos os campeões, quem foi melhor nesse aspecto foi o Ajax, com superávit de € 52 milhões. O Bayern de Munique é o segundo colocado na lista, com € 43 milhões de lucro. O Manchester City teve superávit de € 11 milhões, e PSG e Benfica lucraram € 29 milhões cada. O Barcelona é quem mais se aproxima da Juventus. Apresenta lucro, mas só de € 5 milhões, mesmo valor do Galatasaray.

O Fair Play Financeiro é normalmente associado a times como Paris Saint-Germain e Manchester City, que gastaram muito nos últimos anos – o PSG chegou a praticamente zombar do sistema ao contratar Kylian Mbappé por empréstimo com compra vinculada se não fosse rebaixado por € 180 milhões. Uma clara forma de driblar o sistema para que a operação não entrasse na mesma temporada da contratação de Neymar, que custou o valor recorde de € 222 milhões.

Por tudo isso, é difícil imaginar que a Uefa será rigorosa com a Juventus, caso o clube não consiga diminuir a sua folha salarial ou aumentar suas receitas para que a porcentagem atual não continue sendo uma infração. Além disso, pensando nos acionistas, é preciso que a operação bianconera comece a ser positiva. Apresentar perdas a cada ano será prejudicial para um clube com capital na bolsa de valores.

O Fair Play Financeiro é um mecanismo importante, que já mostrou resultados, como indicou o relatório da Uefa sobre o assunto. Só que também fica claro que a entidade precisa melhorar os seus processos de fiscalização e controle se quiser que sua criação não seja taxada de algo que só serve para punir os times menos badalados do continente.

A Juventus tem que passar pelo escrutínio detalhado das suas contas e, se não conseguir reverter a tendência de prejuízo, pode acabar sendo punida. Mas é preciso que a entidade faça uma fiscalização precisa em todos os clubes. Inclusive Barcelona, Real Madrid, Manchester City, PSG e todos os demais que estão sempre no limite e, algumas vezes, de forma bastante suspeita.