Durante um bom tempo, a torcida do Tottenham queria ver Moussa Sissoko pelas costas. O meio-campista francês desembarcou em White Hart Lane após uma excelente Eurocopa com a seleção francesa, mas já trazendo consigo uma bagagem de confusões. Forçou a saída do Newcastle, declarou amores ao Real Madrid, deu um perdido no Everton. E, por mais que se tornasse uma opção à faixa central, seu futebol quase nunca correspondeu à marra. Não à toa, em suas duas primeiras temporadas, não se firmou entre os titulares. Foi mais um substituto ocasional e uma peça de rotação às copas – uma noção que se transformou nos últimos meses. O acaso pode ter ajudado o camisa 17, tomando a posição também por problemas dos outros. Contudo, ele agarrou a chance e anda jogando muito bem com os Spurs. Tão imprescindível quanto se viu nesta terça, quando o volante mudou o espírito do Tottenham na Champions, apesar da derrota por 1 a 0 contra o Ajax.

O estilo de Sissoko depende muito de sua força física. E, principalmente, depende de sua vontade para se impor. Nem sempre o meio-campista parecia disposto a tanto, sem demonstrar a sua capacidade em Londres. Dava a impressão de estar até mesmo acomodado, entre o status que alcançou na Euro e a ideia de ser um astro internacional – o que, mesmo questionável, costumava deixar implícito nas entrevistas. O tempo no banco certamente serviu para colocar o volante em seu lugar. Da mesma maneira, a ausência na Copa do Mundo também não lhe caiu bem. Sissoko ficou com os pés no chão e, mais maduro, percebeu o tamanho da oportunidade que tinha no Tottenham. Faz por merecer o reconhecimento em 2018/19, a ponto de retornar às convocações dos Bleus nos últimos meses.

Diante de tantas incertezas ao Tottenham, entre lesões e quedas de rendimento, Sissoko se tornou um porto seguro nesta temporada. Apesar de uma contusão na coxa logo durante as primeiras rodadas da Premier League, ganhou a titularidade assim que se recuperou. Raros foram os jogos em que o camisa 17 não esteve presente. É o sexto jogador do elenco com mais minutos disputados desde agosto. Contribui com regularidade, vigor físico na faixa central e combatividade. É uma arma a mais, por seus avanços e suas contribuições ofensivas. Aquela postura pouco comprometida de antes desapareceu. Agora, a torcida dos Spurs dificilmente vislumbra o time de Mauricio Pochettino sem o francês.

O receio de perdê-lo é tamanho também pelo elenco enxuto. De qualquer maneira, o impacto se sentiu nesta Champions. Na volta contra o Manchester City, Sissoko se lesionou ao final do primeiro tempo. Obrigou Pochettino a mudar o esquema tático, diante da ausência de um substituto que atuasse em sua função. A pressão dos celestes no segunda etapa, dominando o meio-campo, já indicava a falta do francês. E o efeito contrário aconteceu nesta terça-feira, ante do Ajax. Ainda sem as condições ideais, o camisa 17 começou no banco. Sofria ao ver de longe a atuação desencontrada de seu time, engolido pelos holandeses. Pois os ingleses só ganharam novo ímpeto após a incursão do cabeça de área.

Antes mesmo de Jan Vertonghen se lesionar, Pochettino já indicava a entrada de Sissoko no primeiro tempo. Algo que se concretizou diante do acidente, mas não negou a alteração acertada. O francês consertou o meio-campo do Tottenham, que deixou de ser empurrado para trás. O time não perdia mais tantas disputas na intermediária e começou a avançar. Pode-se até discutir a falta de qualidade dos Spurs na criação, limitados aos cruzamentos, em parco repertório que escancarava também as saudades de Son Heung-min. Ainda assim, não se nega que o volante cumpriu sua parte. O respiro dos londrinos foi possível graças a ele. E é por conta disso que o time viajará à Holanda com esperanças de classificação, considerando a diferença mínima no marcador.

Aos 29 anos, os sonhos mirabolantes de Sissoko no Real Madrid não deverão se cumprir. O Tottenham oferece uma grande possibilidade de ser reconhecido na Europa, de mirar grandes feitos e de elevar um clube tradicional de patamar. Demorou um pouco, mas o volante parece ter assimilado isso. E, apresentando o futebol que o destacou em outros momentos, ajuda a sustentar os sonhos dos Spurs nesta Champions. Em condições físicas ainda melhores, o jogo em Amsterdã novamente passará por seu esforço na faixa central.