Elton John é parte indispensável da história do Watford, que se tornou um clube de relevo na Inglaterra muito graças ao seu famoso presidente. Durante a primeira passagem do músico pelo comando da agremiação, na virada dos anos 1970 para os 1980, os Hornets saltaram do acesso na quarta divisão ao vice-campeonato na elite – disputando ainda a Copa da Uefa e uma final de Copa da Inglaterra neste caminho. No entanto, não é apenas a torcida em Vicarage Road que agradece a sorte de ter sido abraçada pelo Rocket Man. Segundo as próprias palavras de Sir Elton, o clube possui uma importância ainda maior em sua vida.

Lançada nesta semana, sua autobiografia oficial “Me” traz o Watford como assunto essencial. Torcedor fanático do clube desde a infância, quando frequentava o estádio ao lado do pai, Elton John começou a se envolver no dia a dia dos Hornets depois de se tornar famoso, em meados da década de 1970. Realizou um show para arrecadar fundos à agremiação, antes de passar a integrar a diretoria. Já em maio de 1976, virou acionista majoritário, também assumindo a cadeira presidencial. No ano seguinte, iniciaria a parceria com Graham Taylor, o treinador que impulsionou a modesta equipe a conquistar três acessos em cinco anos.

Conforme sua autobiografia, Elton John era criticado por amigos ao mergulhar desta maneira no Watford. Mesmo sendo igualmente fanático pelo Celtic, Rod Stewart ironizou a compra dos Hornets: “O que diabos você sabe sobre futebol? Se você soubesse alguma coisa, não torceria tanto para isso”. Ainda assim, Stewart era outro frequentador assíduo de Vicarage Road naqueles tempos, e certamente admitiu o erro em suas palavras ao ver a empreitada fantástica do Rocket Man. Por mais que fizesse seus investimentos no time, Elton John não cometia loucuras como presidente. Criou uma relação de irmão com Graham Taylor e, ao lado do treinador, conseguiu montar uma equipe extremamente competitiva.

Independentemente da agenda cheia com as turnês, Sir Elton John costumava aparecer nos treinamentos e nos jogos do Watford. Todos os anos, realizava uma grande festa em sua casa para os funcionários do clube, de jogadores a trabalhadores braçais. Apesar de suas extravagâncias, o músico prezava pela identidade dos Hornets como um time de bairro e fomentava um clima acolhedor em Vicarage Road. Os portões do estádio se abriam a gincanas para crianças da região e a shows de talentos protagonizados pelos próprios atletas. Era um clima ímpar, sobretudo diante do hooliganismo que assolava o futebol inglês no período.

E aquele ambiente também servia como uma válvula de escape a Sir Elton John. Enquanto lidava com vários problemas pessoais, inclusive com drogas, o vício pelo futebol se tornou algo positivo ao astro. “Sou incrivelmente orgulhoso por aquilo que conquistamos juntos, mas devo muito mais ao Watford do que o Watford deve a mim. Se eu não tivesse um clube de futebol, só Deus sabe o que teria acontecido comigo. Não estou exagerando quando digo que acho que o Watford pode ter salvado a minha vida”, enfatizou Elton John, nas páginas do livro.

“Eu fui presidente durante o pior período da minha vida: anos de vício e infelicidade, relacionamentos fracassados, maus negócios, processos judiciais, tumultos que não acabavam. Diante de tudo isso, o Watford era uma fonte constante de felicidade para mim. Por razões óbvias, há momentos nos anos 1980 que não tenho mais lembranças – mas todos os jogos do Watford que eu vi estão eternamente gravados na minha memória”, complementou o músico.

Mesmo com a façanha do Watford em terminar na segunda colocação do Campeonato Inglês em 1982/83, logo em sua temporada de estreia na primeira divisão, o momento mais marcante aconteceu na decisão da Copa da Inglaterra de 1984, contra o Everton. A final era tratada como o evento mais importante do calendário futebolístico no país e uma febre de bola tomou Watford, com as ruas totalmente adornadas pelos símbolos do clube. Com um terno bem alinhado e a gravata nas cores do time, Sir Elton deu uma volta olímpica antes da partida em Wembley e chorou durante a cerimônia de abertura. E não foi o vice que impediu uma enorme festa com milhares de pessoas nas ruas, para celebrar a campanha dos Hornets. No palco, o presidente comandou a festa.

Em sua autobiografia, Elton John também descreveu ainda outros momentos memoráveis, como a partida que realmente colocou o Watford na mira da imprensa: “Na noite em que nós eliminamos o Manchester United da Copa da Liga em Old Trafford, quando ainda estávamos na terceira divisão, os jornais que normalmente não se importavam com o Watford estavam chamando o clube de ‘Rocket Men de Elton John’ na manhã seguinte”.

O presidente também leva com carinho os elogios que seu time recebeu de Brian Clough: “Na noite de novembro de 1982, quando pegávamos o Nottingham Forest fora de casa na Milk Cup, eles venceram por 7 a 3, mas pensei que era um dos melhores jogos de futebol que vi na vida. O lendário Brian Clough concordou comigo, antes de virar a Graham e dizer a ele que nunca permitiria que o seu presidente se sentasse na linha lateral, como eu fiz”.

Elton John permaneceu à frente do Watford até 1990. Sem mais a parceria com Graham Taylor, vendeu suas ações e se tornou presidente honorário. O retorno ao comando aconteceu em 1997, quando novamente o técnico estava em Vicarage Road. O clube conquistou dois acessos e reapareceu na Premier League brevemente. Porém, a segunda passagem de ambos seria mais curta e se encerraria na virada do século. Mesmo deixando de investir na agremiação, o astro voltou a fazer dois show em Vicarage Road para arrecadar fundos.

Os anos se passam e a ligação umbilical de Elton John com o Watford permanece. Em 2014, ele compareceu a Vicarage Road para receber uma grande homenagem: um dos setores do estádio foi rebatizado com seu nome. Segundo suas próprias palavras, “um dos dias mais felizes de sua vida”. O presidente de honra não comparece tão frequentemente às arquibancadas, mas acompanha a equipe avidamente. Inclusive, até recomenda novas contratações à atual diretoria – e olhando para as divisões inferiores do futebol inglês. Já na final da última Copa da Inglaterra, o capitão Troy Deeney entrou em campo acompanhado pelos filhos do músico. A paixão pelos Hornets está enraizada em Sir Elton e se transmite por gerações. Agir apaixonadamente também é uma retribuição.