Um problema há muitos anos destacado no futebol brasileiro, o de excesso de partidas, começou a ganhar cada vez mais foco de discussão também no futebol europeu. Aqui e ali, figuras do esporte reclamam do calendário cheio e da falta de descanso apropriado aos jogadores. Agora, uma pesquisa realizada pela FIFPro, sindicato que representa jogadores profissionais de todo o mundo, compilou dados mostrando a extensão desse problema e trazendo recomendações do que poderia ser feito para mitigar os efeitos da sobrecarga física e mental sobre os atletas – na Europa, é claro.

Com os donos do esporte lutando por mais exposição a seus torneios, escreve a FIFPro, jogadores de alto nível estão tendo períodos de descanso cada vez menores, e a organização destaca que Lasse Schöne, do Ajax, por exemplo, teve menos de duas semanas de férias entre a disputa da Copa do Mundo de 2018 com a Dinamarca e o início da pré-temporada com o clube holandês.

O relatório, chamado “No Limite: Carga de Trabalho do Jogador no Futebol Masculino Profissional de Elite”, em tradução livre, sublinha ainda as diferenças significativas em número de jogos disputados que podem existir entre dois profissionais diferentes de grandes ligas. Para ilustrar o ponto, Heung-Min Son, do Tottenham, jogou 78 jogos nos últimos 12 meses, contando partidas por clube e seleção sul-coreana. Marcus Thuram, que fez a última temporada pelo Guingamp, da Ligue 1, teve um total de 42 partidas.

O caso de Heung-Min Son levanta uma discussão também sobre a carga física acarretada dos jogos por seleções. Além dos inúmeros jogos que fez, o sul-coreano teve que viajar mais de 110 mil quilômetros nos últimos 12 meses para representar a seleção de seu país. Ainda na Inglaterra, Sadio Mané, do Liverpool, disputou a final da Copa Africana de Nações em 19 de julho e deverá se reapresentar aos Reds em 5 de agosto, totalizando apenas 17 dias de descanso – e o técnico ainda estuda utilizá-lo no jogo de abertura da Premier League, em 9 de agosto, quando o clube enfrenta o Norwich.

O relatório compilou dados de calendário, viagem e tempo de recuperação de uma amostra de 16 jogadores de Europa, Ásia, Américas e África e levou em consideração também dados de ciência médica sobre desempenho e saúde. A pesquisa cita ainda um estudo feito com 500 jogadores profissionais sobre o calendário do futebol.

Uma das pesquisas adicionais que serviram para reforçar o relatório da FIFPro analisou dados de 130 mil jogos ao longo de um intervalo de 14 anos e alega que a taxa de lesões musculares no futebol profissional é maior em partidas jogadas com menos de cinco dias de intervalo em relação ao jogo anterior.

Diante dessas informações, a FIFPro apresenta uma série de recomendações:

  • Descanso obrigatório de quatro semanas entre as temporadas, com a recomendação médica estendendo esse período a até seis semanas.
  • Duas semanas de descanso obrigatório no meio da temporada, no inverno europeu.
  • Limite do número de jogos consecutivos disputados com intervalo de menos de cinco dias de recuperação entre eles.
  • Considerar a implementação de um limite individual de partidas por ano para cada jogador.
  • Desenvolvimento de um sistema preventivo de alerta sobre a carga de partidas de um jogador, possibilitando planejamento prévio para evitar problemas físicos.
  • Período de descanso mínimo para jogadores que viajam longas distâncias com suas seleções (63% dos jogadores de seleção dizem que viagens de longa distância afetam seu desempenho).

É difícil imaginar que o relatório da FIFPro traga mudanças efetivas em pouco tempo, mas os números apresentados e mesmo as proposições feitas podem ser um importante passo para acelerar a discussão.

A FIFPro, assim como fizeram figuras importantes do futebol no passado, como Jürgen Klopp e Pep Guardiola, defende que um equilíbrio maior de descanso para os jogadores irá ter um impacto positivo no esporte, não só prevenindo lesões, mas também aumentando o desempenho dos atletas. Por outro lado, a manutenção das coisas como elas são hoje, segundo a organização, levará, a longo prazo, a uma situação insustentável também nesses dois pontos.