Diego Simeone chegou ao Vicente Calderón em 2011. Na verdade, voltou àquela que foi sua antiga casa. O meio-campista que fez fama como jogador raçudo (e, para muitos, violento), embora também muitíssimo técnico. Não fosse assim, não teria sido um dos protagonistas na conquista de La Liga 1995/96 ou levado a peso de ouro à Internazionale logo depois. Seu retorno à Madri 15 anos depois foi marcado pela paixão dos torcedores pelo antigo ídolo. Mas Simeone era uma aposta, e não um messias. Difícil acreditar que algum colchonero já imaginasse as façanhas que o comandante seria capaz de acumular em dois anos e meio à frente do Atleti.

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Afinal, Simeone ainda precisava se provar como técnico da Europa. Já tinha feito o seu nome na Argentina, conquistando o Torneio Apertura de 2006 pelo Estudiantes e o Clausura de 2008 pelo River Plate. No entanto, em sua única aventura do outro lado do Atlântico até então, havia permanecido por apenas 18 partidas à frente do Catania. Chegava mais ao Calderón por sua identificação com o clube e pelas ideias novas que poderia dar. A liderança que demonstrava desde os tempos de jogador era a credencial que tinha para poder botar ordem na casa. Poucos imaginavam a verdadeira revolução que aconteceria a partir de então.

Os rojiblancos já estavam saturados de treinadores de equipes medianas que ganhavam uma chance para o time. Não iam além de objetivos medianos, é claro. Seus antecessores foram Gregorio Manzano, Quique Sánchez Flores, Abel Resino e Javier Aguirre, todos credenciados por boas campanhas por clubes pequenos. Entre 2005 e 2006, o Atlético até tentou investir em Carlos Bianchi, mas não deu liga. Simeone não tinha o currículo do seu compatriota, mas uma ligação com os colchoneros que poderia ajudar. Como tinha sido com Luis Aragonés, mito no Calderón e último treinador com algum sucesso, reconquistando o retorno à primeira divisão.

Simeone assumiu o Atlético quando o time estava na décima colocação de La Liga 2011/12, eliminado na Copa do Rei e classificado para os mata-matas da Liga Europa. Fez o time entrar na zona de classificação para as copas europeias no Espanhol e emendou uma campanha espetacular no torneio continental, ficando com a taça. Uma pequena mostra do que o argentino era capaz. Continuou em 2012/13, com a já aplaudível campanha em La Liga, terminando em terceiro. Mais impressionante foi a forma como o Atleti atropelou o Chelsea na Supercopa. E mais marcante, a conquista da Copa do Rei, quebrando o jejum contra o Real Madrid dentro do Bernabéu, na prorrogação.

Nada tão espetacular quanto o que faz em 2013/14. Levou o Atlético a uma das melhores campanhas da história do primeiro turno de La Liga, conquistando 50 pontos. Não foi tão avassalador na segunda metade, mas manteve o ritmo forte para conseguir o título. Mais do que isso, levou os colchoneros à decisão da Liga dos Campeões pela primeira vez em 40 anos, deixando vários favoritos pelo caminho.

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Dos 11 titulares no heroico empate contra o Barcelona, nove foram relacionados por Simeone em sua estreia no Atlético de Madrid, o empate por 0 a 0 contra o Málaga. Seis estavam no time titular, Arda Turan entrou no segundo tempo, Koke e Miranda começaram no banco. Só Diego Costa e David Villa chegaram depois. Peças importantes, tanto quanto alguns que foram embora, como Falcao García, Eduardo Salvio e Álvaro Domínguez. As mudanças no elenco do time que foi eliminado pelo Albacete na Copado Rei para o que conquistou La Liga foram pontuais. Não há como negar os méritos do técnico.

Simeone é um grande motivador: a mudança de postura do time no Camp Nou, abatido no fim do primeiro tempo e arrasador no começo do segundo, se deve a isso. Também domina o plano de jogo: montou uma equipe eficiente para atacar e sólida para defender. Sabe reconhecer o talento de seus jogadores e tirar o melhor deles: Koke, Arda Turan, Adrián e Diego Costa, por exemplo, transformaram seus estilos com o treinador. E, tanto quanto qualquer jogador, consegue incendiar a torcida, chamá-la ao jogo.

O argentino não é um mero professor de terno à beira do gramado. É um ídolo. Que, embora hoje trabalhe mais com a cabeça e com as palavras do que com os pés, segue se sentindo como mais um em seu exército, consegue se integrar ao time e ao ambiente. Um diferencial que poucos treinadores do mundo têm. E que é fundamental para ser um dos melhores do mundo, o melhor desta temporada.