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Em 21 de dezembro de 2011, o Atlético de Madrid sofreu uma eliminação vexatória logo nos 16-avos de final da Copa do Rei. Os colchoneros enfrentavam o Albacete, então na terceira divisão. Após a derrota por 2 a 1 no Estádio Carlos Belmonte, o Atleti sequer conseguiu reverter a volta dentro do Vicente Calderón. Perdeu de novo, por 1 a 0, numa noite melancólica diante de 32 mil torcedores. Vários titulares estavam em campo, incluindo símbolos do clube – como Gabi, Godín, Miranda, Juanfran, Filipe Luís, Koke e Falcao García. A derrota foi a gota d’água para o técnico Gregorio Manzano, que também não empolgava em La Liga, com a décima colocação. Seu substituto a partir de janeiro de 2012? Diego Simeone.

Oito anos depois, soa como ironia que o momento de maior pressão a Simeone nesta jornada à frente do Atlético possua contornos parecidíssimos. Nesta quinta-feira, os colchoneros também caíram nos 16-avos de final da Copa do Rei. Também perderam para um adversário da terceira divisão. Com a mudança de regulamento no torneio, a Cultural Leonesa dependeu de apenas um jogo e celebrou a classificação em casa, na prorrogação, com a vitória por 2 a 1. E por mais que o Atleti superado pelo Albacete fosse muito mais forte, não se nega a decepção com o mistão que fracassou nesta semana. Sobretudo, porque ele pisou em alguns calos de Cholo, especialmente pelos investimentos que não se pagam e por um time que se tornou um arremedo de suas crenças.

Durante o ápice do Atlético de Madrid sob as ordens de Simeone, a virtude não se concentrava apenas em um jogador, apesar dos muitos destaques que passaram pelo Calderón e pelo Metropolitano. A filosofia de jogo se sobrepunha às individualidades, com uma ideia muito bem delineada e um plano que, se não era necessariamente o mais vistoso, se tornava muito competitivo. A defesa sólida e bem compactada servia de base. A partir dela, os colchoneros desenvolviam suas táticas, graças ao ataque vertical e potente. A fórmula rendeu conquistas e campanhas memoráveis. O clube faturou duas taças da Liga Europa, chegou a duas finais de Champions, levou La Liga após 18 anos de espera. E na Copa do Rei de 2012/13, a edição seguinte após a eliminação contra o Albacete, o Atleti não só levou o título em cima do Real Madrid, como ainda por cima encerrou o jejum de 14 anos sem vitórias no dérbi.

Não há dúvidas que Simeone elevou o patamar do Atlético de Madrid nestes oito anos. O clube ousou se colocar constantemente entre as duas potências de seu país, mesmo com um orçamento sensivelmente inferior. Mais do que isso, passou a encarar qualquer grande clube da Europa e registrou campanhas grandiosas nas competições continentais. Os colchoneros mudaram-se a uma nova casa, fizeram fortunas no mercado de transferências, afastaram-se definitivamente de uma realidade de rebaixamento vivida pouco antes. Mas uma hora as ideias parecem se esgotar. Apesar de outras oscilações, este é a maior introspecção encarada por Cholo desde sua chegada. A derrota para o Eibar na rodada passada do Espanhol e a carta de apoio publicada pelo presidente rojiblanco após a queda ante a Leonesa reforçam tal sensação.

Em teoria, o cenário não é tão drástico. O Atlético de Madrid continua vivo na Champions League e também ocupa a terceira colocação em La Liga. No entanto, não é preciso colocar uma lupa para notar os entraves. Os oito pontos de distância em relação a Real Madrid e Barcelona no Campeonato Espanhol são mais por incompetência dos concorrentes, já que ninguém parece disposto a engrenar na atual edição da competição. Os rojiblancos chegaram a atravessar uma sequência de 12 rodadas com apenas três vitórias e, desde que Simeone assumiu, esta é a pior pontuação após 20 partidas. Além disso, o sorteio da Champions guardou o Liverpool pelo caminho. E, diferentemente de outros tempos, a balança está bem mais desequilibrada aos espanhóis, ainda mais pela fase dos ingleses.

A Copa do Rei, justamente, parecia uma tábua de salvação ao Atlético de Madrid na temporada. O clube poderia reconquistar um título nacional, o que não acontece desde 2014, e apaziguar a pressão sobre um momento de clara transição no Metropolitano. Pelo contrário, o torneio expôs muito mais as dificuldades encaradas por Simeone e cobra mudanças com o carro andando. O mercado de transferências já anda repleto de especulações e as transações tendem a pintar na próxima semana. Da mesma maneira, pede-se mais regularidade de uma equipe que até virou o ano com bons resultados, mas está distante de convencer. Falta alma e falta liderança, algo impensável de se dizer sobre a equipe de Cholo.

Quando os três pontos pingavam na conta a cada semana, as teorias de Simeone se justificam totalmente. E, apesar do futebol minimalista praticado pelo Atlético de Madrid, não havia muitos motivos para reclamar da engrenagem bem azeitada para cumprir aquele plano sem margem de erro, mas com muita segurança. Neste momento, o Atleti não consegue rezar a mesma cartilha e também não realiza uma quebra para aproveitar outras virtudes de jogadores contratados recentemente. Parece num limbo, e o descompasso visto contra a Cultural Leonesa foi o pior dos reflexos. Mas não se nota o mesmo furor em todos os clássicos ou também a contundência que ocorria ante os demais oponentes da tabela.

Não dá para pintar um cenário de terra arrasada. Por mais que algumas contratações não tenham dado certo e outros jogadores sofram uma queda de rendimento, o Atlético de Madrid possui um elenco para ao menos terminar no G-4 do Campeonato Espanhol e repensar sua rota rumo à próxima temporada. Mais do que isso, há bons jovens à disposição, que podem florescer as mudanças. Mas Simeone precisa ceder um pouco mais e traçar outras alternativas de jogo, algo que tantas vezes foi seu ponto fraco com os colchoneros. E isso significa reestruturar a própria dinâmica da equipe, a partir de seus jogadores. O Atleti perfeito às ideias iniciais, contagiado por isso, não existe mais.

Pode até se dizer que o Atlético de Madrid paga as consequências do período em que não pôde contratar, o que retardou algumas transições no time. Também há entraves causados pela saída de protagonistas, assim como pelos constantes problemas de lesões enfrentados nos últimos meses. Mas é preciso assumir o que não deu certo e as ideias que faltaram para alguns jogadores melhorarem. O planejamento desta reformulação do elenco se mostra mal feito, algo sobre o qual o próprio Simeone tem direito de reclamar. Diferentes posições estão desguarnecidas, bem como o treinador precisa utilizar canteranos que não parecem prontos. De qualquer maneira, há certa inflexibilidade, o que fez antigas apostas saírem do Atleti sem tanto moral para se reencontrarem por outros cantos. Thomas Lemar corre o risco de ser o próximo exemplo.

No momento, sem um coletivo funcional, o Atlético se agarra a algumas individualidades, mas carece de lideranças. Jan Oblak é o único que verdadeiramente faz uma diferença tremenda no Metropolitano. Renan Lodi é uma grata surpresa, por sua imediata adaptação. E outros poucos rendem acima do esperado, como o zagueiro Felipe ou Ángel Correa. Mas sem o melhor (físico ou técnico) de nomes como Diego Costa, Koke, Saúl e Giménez, os colchoneros se aproximam de qualquer equipe média de La Liga. Não têm personalidade. A importância de Morata para conquistar pontos importantes nas últimas semanas parece sintomática quanto às limitações.

E talvez o melhor exemplo do que falte ao Atlético repensar seja João Félix. O prodígio chegou com um preço altíssimo e a pré-temporada arrebatadora criou expectativas irreais. É, sim, um jogador de muito talento e que poderá se firmar como um craque. Porém, vem sendo desgastado de uma forma desnecessária – seja pela cobrança, seja pelo encaixe desfavorável, seja pela exigência física. Dizer que ele não se adapta ao jogo do Atleti, pelo preço que foi pago, não cola. Até porque a equipe pode dar condições melhores a ele. O problema é quando existe um racha nos vestiários e muitos dos jogadores não concordam com a postura individualista do jovem. O vedetismo não se casa com o cholismo, e isso parece impensável olhando alguns anos para trás.

Muito se fala sobre Edinson Cavani. Bruno Guimarães era outra possibilidade. A adição de jogadores é um passo, sobretudo pelo talento e pela chance de chamarem a responsabilidade, bem como pela questionável montagem do plantel. Ambos solucionariam problemas. Mas, internamente, o Atlético de Madrid também parece viver a necessidade de encontrar algo que mexa com seu ambiente. Diego Simeone sempre foi mestre em tirar muito de seus homens de confiança, o que não vem ocorrendo mais. As premissas se mostram corroídas. Sobra previsibilidade nas partidas dos colchoneros. Cholo se vê em uma encruzilhada entre aquilo que acredita e o que precisa fazer para realmente mudar. Sem mais o talento de Antoine Griezmann na frente e a firmeza de Diego Godín atrás, o Atleti sofre para se sustentar.

Oito anos é muito tempo para um treinador de futebol. Oito anos é muito mais tempo pensando no futebol atual, de superexposição e pressão por todos os lados. E é clara a grandeza que o Atlético de Madrid atingiu em oito anos com Diego Simeone. Mas, neste momento, oito anos cobram uma capacidade de arejar as ideias. A transição não é simples, pela idolatria que Cholo possui e pela revolução que foi capaz de imaginar. Ainda assim, o rendimento baixo na temporada, não apenas pela eliminação na Copa do Rei, sugere algumas transformações. Difícil encontrar um treinador com a base e a representatividade de Simeone no mercado. Por isso mesmo, antes de procurar uma nova mente, o Atleti deve confiar um pouco mais nos planos do argentino que podem se realinhar.

A derrota para a Cultural Leonesa faz pensar, mas não é ela sozinha que gerará efeitos tão drásticos quanto em 2011. Gregorio Manzano não tinha esse pano de fundo para segurá-lo. Mas, paulatinamente, a proteção que existe sobre Simeone tende a se quebrar. A sensação de um treinador intocável não resiste mais. “Podemos ganhar de qualquer um e perder de qualquer um”, foi a frase do comandante uma semana atrás, após sucumbir ante o Eibar. E, mesmo que um triunfo sobre o Liverpool não seja de todo loucura, é essa roleta russa que faz perder as certezas antes inabaláveis no Metropolitano.