Um dos grandes treinadores do futebol mundial, Diego Simeone é uma figura emblemática como um dos muitos bons técnicos argentinos no território europeu. Jogador histórico da seleção argentina, Simeone brilhou como jogador no futebol europeu em clubes como Atlético de Madrid, Internazionale e Lazio.

Como treinador, começou na Argentina em diversos times importantes, Racing, Estudiantes, River Plate, San Lorenzo, e teve uma experiência no Catania. Chegou ao Atlético de Madrid em 2011 e desde então mudou o patamar do clube. Em uma entrevista ao jornal argentino La Nación, o treinador falou sobre os problemas da Argentina como time, o Atlético de Madrid, sobre ser treinador, a identidade e também sobre futebol feminino.

Atlético de Madrid não é mais o primo pobre

“Não, já não somos. Hoje temos um estádio extraordinário, no próximo ano vamos inaugurar um centro de treinamento à altura do que o clube merece. Recentemente, agora o clube está paralelo ao crescimento da equipe. O crescimento da equipe foi muito rápido e o clube não conseguia acompanhar. Mas agora, com uma gestão muito boa, há um estádio, grandes instalações, podemos comprar os Lemar, os João Félix”, afirmou o treinador do clube de Madri.

“Nós queremos construir os jogadores desde os 21 e 22 anos, desde Giménez e Koke, para que anos depois sejam os Grizmann e os Oblak. Porque quando chegou Oblak não era esta, não era o melhor goleiro do mundo. Quando chegou Griezmann, não era um atacante, era um ponta pela esquerda, e quando o colocava no ataque, me diziam: ‘Tire-o porque esse rapaz veio jogar aberto’. Como vai jogar por fora, eu lhes dizia, se é pequeno, rápido, faz boas diagonais, cabeceia, tem chute de média distância, rompe linhas… Como vai jogar por fora!”, explicou ainda Simeone.

Argentinos individualistas

“Nós, os argentinos, estamos cheios de qualidades, mas não sabemos jogar em equipe. Procure no mundo e encontrará artistas, cientistas e atletas de destaque. Você pode procurar na área que preferir e sempre encontrará argentinos que brilham. Então, obviamente, o que sempre nos custou e está nos custando muito mais nesta última década é montar equipes de trabalho”, analisou o treinador e ex-jogador.

“Nós não conseguimos ver nada nos demais, olhamos apenas para dentro. Somos assim. Eu sou argentino e possivelmente sou assim também. Não me excluo. Eu tento, dentro do meu grupo de trabalho, ser o mais aberto e dar lugar a todos, mais além do que finalmente eu mesmo decida. Sempre tento que sejamos um grupo de trabalho, e assim vamos juntos 13 anos”, continuou o comandante do Atlético de Madrid.

“E o que vemos no futebol é um reflexo da nossa sociedade. Na Europa há anos me perguntam, e não conseguem explicar, porque não somos uma potência. Se referem ao país. E a explicação é essa: porque individualmente somos talentosos, criativos, fortes, valentes, mas não vemos o do lado como um irmão”, explicou Simeone.

“O Atlético tem um estilo, o Real Madrid não”

“Temos um estilo muito definido, que pudemos desenvolver em alguns lugares mais fortemente. No Estudiantes se desenvolveu muito bem, pelas características dos jogadores e também pela história do clube, que se aproximava do nosso sentimento pelo jogo. E neste Atlético de Madrid também”, explicou o treinador.

“Considero que a essência da equipe é reconhecida por todos, desde pequenos, um empregado do clube ou um cargo maior, todos sabem que verão uma equipe forte, intensa. É preciso moldar essa essência e cuidar dela, e a essência não tem nada a ver com o jogo. Inclusive, com jogadores melhores tampouco devemos mudar a essência e nem as formas, mas sim potencializar a propostas com esses jogadores”, disse ainda o argentino.

“Quando nós, treinadores, chegamos a um clube, precisamos entender sua história. Se não entendemos, estamos destinados a ter um tempo pior do que melhor. Se eu não sinto a essência, não vou. Desde o momento que aceito ir, o mais saudável e mais nobre do treinador é se perguntar: ‘Qual é a história deste clube?’. E ir moldando o seu estilo de jogo à história do clube, sem deixar de ser você mesmo, desde o começo”, disse Simeone.

“O Ajax tem uma escola definida. O Barcelona tem, Juventus também. E o Atlético de Madrid também. O Real Madrid não. Porque muda na base do talento suas formas diferentes de se apresentar. E há equipes que estão nascendo, como o Manchester City de Guardiola, que não tem história, mas está se desenvolvendo lentamente, no que Guardiola está marcando como seu caminho. E, talvez, em 10 anos digamos: ‘O City joga de determinada maneira’. Teremos que ver se depois de Guardiola virá alguém que irá mudar o que ele está propondo”, analisou.

“Mas claro que é importante administrar a história do clube, os torcedores precisam ver o que é familiar a eles, e para os jogadores é mais fácil se aproximar do que o clube lhes pede quando o clube tem a sua história definida”.

É possível ensinar a ganhar? “Não, preparemos para ganhar. Bom, não sei se a palavra é ganhar. Nos preparamos para competir. Tentamos ir formando jogadores. Hoje temos uma mudança geracional importante no Atlético de Madrid e preparamos os Giménez, os Saúl, os Koke, os Tomas, todos esses rapazes que foram construindo conosco a imprescindível mudança geracional. Espero que eles possam seguir transmitindo o que os companheiros, como líderes, passaram a eles. Agora, eles vão ter que assumir a liderança. Já não se trata apenas de acompanhar, e sim terão que conduzir. E isso se prepara”, contou Simeone.

“Através das formas de treinar, que não se negocia. Porque evidentemente o que te aproxima de poder competir bem é a tua forma de treinar. Que isso não seja um passo no treinamento, mas que tenha o desejo de crescer no treinamento desde o técnico, o tático e o físico. A insistência do treinador, que não é o espaço para relaxamento, aborrecimento dos jogadores, mas com o tempo os faz crescer. Mecanizar as formas de treinar te gera um automatismo que, depois caminha sozinho”, contou o treinador.

Como foi jogador, foi perguntado a Simeone quem o aborreceu. “Bilardo foi um treinador intenso, que não permitia um espaço de relaxamento. A partir desse perfil de treinadores, tentamos gerar essa competição interna para os jogadores. Se você competir bem internamente, estará melhor preparado para competir fora”, disse Simeone.

“Eu gosto de ter essa conexão com os jovens que querem aprender. Eu gosto dos rebeldes, os que são mais difíceis de negociar, porque é um desafio mudar a cabeça deles para que cresçam na vida. Porque no campo você se comporta como na vida: o egoísta e o generoso são o mesmo dentro e fora de campo. Se você está crescendo no trabalho, amadurecendo, sua vida vai acompanhar da mesma maneira”, continuou o treinador.

“Há jogadores que com o tempo se aproximam e te dizem: ‘Obrigado, porque não apenas foi uma ajuda futebolística, mas também influenciou em como viver a vida’. Sendo comprometido, dando tudo, respeitando o outro, porque esses são os valores que te sustentam. Para isso o condutor deve ser genuíno e deve entender que nem sempre terá razão”, afirmou Simeone.

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Futebol feminino

O Atlético de Madrid é uma potência no futebol feminino da Espanha, sendo o atual campeão e o time a ser batido. A Espanha fez uma boa Copa, que acabou eliminado apenas pelos Estados Unidos, e a Argentina teve um papel digno no Mundial, mesmo em condições ainda muito distantes do profissionalismo que existe em outras ligas no mundo, como na Inglaterra, Suécia ou Alemanha.

“É maravilhoso. Está em um crescimento enorme, fantástico, maravilhoso. Dá às mulheres a chance de desenvolver um jogo que levou muito tempo a poderem se posicionar”, disse Simeone. “Jogam bárbaro. Vejo técnica, qualidade. A única diferença que há é a força física, e essa diferença terá sempre. Mas da qualidade e técnica, vejo detalhes maravilhosos e, com o tempo, nos acostumaremos a Copas fantásticas. Têm talento, têm criatividade. Ao se aproximar das melhores versões dos Estados Unidos, Holanda ou Suécia, por exemplo, quando uma garota domina a bola e você não olha no rosto, não sabe se é mulher ou homem”.

VAR

“Eu gosto. Aos poucos vamos nos adaptando, e se bem tem que ser ajudado, não tenho dúvidas que isso melhorará o dia em que os árbitros que forem coerentes com seus pares e não os manejarem. Os que estão no VAR precisam ser ex-árbitro, não podem ser pares dos que estão dirigindo no campo. Porque pode gerar a suspeita de ‘eu não te exponho, você não me expõe’. Com gente que já não é árbitro seria melhor, porque se erra, eu tiro e ponho outro, há muitos árbitros”, afirmou Simeone.

“O VAR ajuda? Ajuda. Prejudica mais os grandes ou os pequenos? Os grandes, porque antes ir ao campo do Real Madrid, do Barcelona ou do Atlético de Madrid e se caía um rival dentro da tua área, não acontecia nada; agora, ao menos, estão obrigando a ir revisar. E se não marcam o pênalti, bom, todos nos damos conta que não quiseram marcar. Nós vamos todos dizer que o árbitro viu, o VAR viu, e todos vimos que foi pênalti”.

Saída de Griezmann

Simeone citou na entrevista as homenagens do Atlético a Diego Godín, que era capitão do time e foi para a Internazionale, e Fernando Torres, que foi para o Japão. Foi perguntado sobre Griezmann, que não foi citado por ele. “Sua contribuição foi significativa esportivamente. Os outros, de outro modo, incendiaram o coração dos torcedores do Atlético. Os números de Antoine são tremendos: em cinco anos se colocou entre os cinco maiores goleadores da história do clube”, disse o treinador.

Quando ele veio falar comigo sobre a sua saída, eu já desconfiava. Acredito que ele buscou o momento mais adequado na sua busca por seguir melhorando, é jovem, tem talento, é um garoto extraordinário e que gosto muito. E a melhor maneira de manter este afeto é o respeito”, afirmou Simeone. “Entendo que os outros também têm necessidades. Enquanto outros têm necessidades que não alteram a minha, é ótimo. Se o que fica altera a minha, talvez não terminemos como amigos”.