O Sheffield United pode não figurar entre os grandes clubes da Inglaterra, mas possui um lugar de respeito na história do futebol local. As Blades possuem 60 temporadas na primeira divisão e conquistaram a taça uma vez, na longínqua temporada de 1897/98, interrompendo anos dominantes do Aston Villa. Além disso, possuem quatro títulos da Copa da Inglaterra e estão localizados em uma cidade que é um dos berços do futebol. Por isso mesmo, incomodava ver a amargura dos tricolores nos últimos anos. Longe da Premier League desde 2007, passaram quatro das últimas cinco temporadas no quase. Buscavam a volta à Championship, com frequência caindo nos playoffs de acesso. Até que a comemoração veio nesta temporada, sem miséria: com quatro rodadas de antecipação, Bramall Lane celebrou o acesso. A segundona, ao menos, condiz um pouco mais com o passado riquíssimo.

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O Sheffield United sobrou na League One. De 42 partidas disputadas até o momento, perdeu apenas seis. E três delas nas primeiras quatro rodadas, quando o clube chegou a ocupar a última das 24 posições da terceira divisão. A partir de então, uma arrancada marcante: nas 25 partidas seguintes, só um revés, subindo à liderança. As Blades ainda deram alguma vacilada de janeiro, mas, desde então, o time não foi derrotado e nem largou a ponta. Os torcedores só esperavam a data exata da festa. Marcada no último sábado, com a vitória fora de casa sobre o Northampton Town.

Mesmo longe de seus domínios, a massa do Sheffield United não decepcionou. Cerca de seis mil fanáticos viajaram a Northampton e centenas de visitantes invadiram o campo para celebrar o acesso. Um deles, inclusive, se tornou viral nas redes sociais ao “roubar” a bandeirinha de escanteio e empunhá-la no meio da festa. Euforia com motivos, diante da estadia penosa na terceirona, o pior patamar dos tricolores desde a década de 1980. O reencontro com a torcida em Bramall Lane, contudo, só acontecerá na próxima segunda.

Um dos protagonistas do acesso é Chris Wilder. O técnico chegou ao clube em maio, após (coincidentemente) subir com o Northampton à League One. Que o início não tenha sido animador, ele logo fez a diferença. Ex-jogador das próprias Blades por seis anos, o comandante montou uma equipe ofensiva e empenhada, como bem demonstra à beira do campo. Uma das cenas mais marcantes do treinador aconteceu na rodada anterior ao acesso, durante a vitória sobre o Coventry City. Na comemoração de um dos gols, invadiu o campo e correu até os jogadores, dando um peixinho no gramado. Empolgada, a torcida cantou chamando-o de “um dos nossos”.

“Os rapazes sabem que eles jogam por um clube especial, diante de torcedores especiais. Queremos terminar com o máximo de pontos que conseguirmos e essa tem sido a mentalidade do grupo ao longo da competição. Queremos chegar a 100 pontos e daremos tudo por isso. Disse aos jogadores que esse tipo de temporada não acontece sempre. Eles precisam aproveitar. Os torcedores mostraram o que significa para eles. Todos merecem. Mas nosso trabalho ainda não está completo”, declarou Wilder, durante os festejos.

Já em campo, o principal destaque é Billy Sharp. Capitão e camisa 10, o centroavante está em sua terceira passagem pelo clube. Nasceu na cidade e é torcedor de infância das Blades, iniciando a carreira por lá. O jogador de 31 anos marcou 26 gols e esteve em campo em todos os 42 jogos. É o artilheiro não só da League One, mas o jogador com mais tentos entre as quatro divisões profissionais do Campeonato Inglês. Não à toa, acabou eleito à seleção da temporada da English Football League, que compreende os jogadores da segunda à quarta divisão. Rodado pelas divisões inferiores e com uma breve passagem pelo Southampton na Premier League, vive um dos melhores momentos da carreira. Simboliza a própria torcida de Sheffield.

A volta à elite ainda depende de uma longa caminhada do Sheffield United. De qualquer forma, o retorno à Championship já é um grande passo. Há a possibilidade de reviver o “Dérbi da Cidade de Aço”, contra o rival Sheffield Wednesday, que não acontece desde 2012. Para tanto, porém, os tricolores também precisam secar os rivais, na briga pelos playoffs de acesso na segundona. Se não subirem, a alegria dos tricolores estará completa.