O calendário do futebol inglês era bem maluco naquela época. O Tottenham tinha três jogos previstos para o feriado da Páscoa de 1963: de cada lado de um confronto, em casa, contra o Fulham, no sábado, estavam partidas contra o Liverpool, em Anfield, na sexta-feira, e White Hart Lane, na segunda. Foram marcados 16 gols nos dois duelos entre Spurs e Reds, uma ode à paixão dos treinadores de ambos pelo futebol, de dois Bills, um Nicholson e um Shankly, que tanto contribuíram para a história vencedora de seus clubes.

Quando se enfrentaram naquela Páscoa, um ano depois, ambos brigavam pelo título do Campeonato Inglês. O Liverpool, com jogos a menos na tabela, apenas matematicamente, mas o Tottenham tinha chances reais, disputando cabeça a cabeça com Everton e Leicester. O primeiro jogo foi em Anfield, onde os Spurs não venciam desde 1912. A quebra do jejum colocaria o time no topo da tabela, e Terry Dyson e Cliff Jones abriram 2 a 0 no intervalo. Mas os Reds marcaram cinco vezes no segundo tempo e entraram no feriado com uma vitória por 5 a 2.

Três dias depois, em White Hart Lane, a história foi bem diferente. Jimmy Greaves abriu o placar, Roger Hunt empatou, mas os donos da casa abriram 4 a 1. Hunt descontou para 4 a 2 antes de Greaves, duas vezes, chegando a quatro gols na partida, e Frank Saul fecharem o placar em 7 a 2.  Jones, autor de dois tentos naquele jogo, conta a anedota: “Greaves foi sensacional. Depois do jogo, Bill Shanky foi visto perambulando pelo estacionamento, em completo torpor, quando foi abordado por um dos repórteres dizendo ‘Bill, 7 a 2, alguma lesão?’, ‘sem lesões, rapaz, apenas um coração partido’.”

Carreiras interrompidas pela guerra

Shankly chutando uma bola (Foto: Getty Images)

Shankly e Nicholson, seis anos mais novo, nasceram na década de 20, ambos em famílias de classe trabalhadora. Nicholson em Scarborough, nordeste da Inglaterra, em uma casa com cinco filhos e quatro filhas, cujo pai trabalhava de garçom durante o inverno, e motorista de táxi – na verdade, carruagem a cavalo que carregava pessoas pela cidade. Desenvolveu uma personalidade estoica, que esperava pouco da vida e, como um jornalista notou, acreditava que “sorrir era perda de tempo”.

Os pais de Shankly tiveram dez filhos, em Ayrshire, oeste da Escócia. Uma pequena cidade de minas de carvão, embora o pai, John, fosse carteiro e alfaiate. Ambos conheceram as dificuldades de crescer em uma família de poucos recursos, durante as dificuldades do pós-Guerra, e valorizavam, acima de tudo, o trabalho duro e a determinação em seus atletas.

Jogadores dessa geração tiveram um grande empecilho para o desenvolvimento de suas carreiras. Quando estavam próximos de atingir seus auges, por volta dos 20 ou 25 anos, precisaram trocar seus clubes pelo Exército da Rainha e combater na Segunda Guerra Mundial.

Os dois eram “half-backs”, jogadores que atuavam na segunda linha do time, à frente dos zagueiros, pelo meio do campo ou pelos lados – no futuro, esses virariam laterais. Shankly começou mais cedo. Despontou na temporada 1932/33 pelo Carlisle United e foi contratado pelo Preston North End, que estava na segunda divisão. Ajudou o time a subir e ganhou o coração da torcida por ser um jogador raçudo e comprometido.

Às vésperas da eclosão da guerra, o Preston North End estava no auge, com duas decisões consecutivas da Copa da Inglaterra. Perdeu a primeira para o Sunderland, ganhou a segunda do Huddersfield. Em fevereiro de 1938, marcou seu primeiro gol pelo clube, em um empate por 2 a 2 contra o… Liverpool. No ano seguinte, defendeu a Escócia contra a Inglaterra no Hampden Park pela primeira vez.

Shankly tinha 26 anos quando decidiu se alistar à Força Área Real para ajudar as tropas. Não colocava nada no ar, nem mirava metralhadoras nos alvos, apenas fazia trabalhos braçais, reparos ou limpezas. Continuava jogando futebol o máximo que conseguia, defendendo o Preston North End em ligas regionais, com muito sucesso, até o Exército assumir Deepdale, estádio do Preston, em 1941.

Ficou livre para jogar em outros clubes até o fim do conflito, quando já estava com idade avançada. Não era óbvio que o Preston North End manteria seu contrato, mas ele ganhou um voto de confiança. Jogou até 1949, somando 297 partidas e 13 gols pelo clube.

No caso de Nicholson, a parada bélica foi ainda mais brutal. Ele havia estreado pelo Tottenham, seu único time com exceção do Northfleet, uma filial dos Spurs, em 1938, no começo da última temporada antes de o futebol organizado da Inglaterra ser interrompido. Embora jogos oficiais não pudessem acontecer, amistosos estavam liberados, e Nicholson fez 15 jogos por Newcastle, Darlington, Hartlepool, Middlesbrough, Sunderland e Fulham, segundo o livro Bill Nicholson: Football’s Perfectionist.

Foi recrutado para a Infantaria Leve de Durham. “Passei a maioria dos meus seis anos no Exército como um instrutor, primeiro de treinamento de infantaria, o que eu conhecia pouco, depois como educador físico em Brancepeth – a oito quilômetros de Durham”, contou, ao livro. Parte do seu trabalho era falar com muitos soldados ao mesmo tempo, de maneira confiante e didática, o que não difere demais do trabalho de técnico. “A experiência se provou inestimável porque um dos primeiros requisitos de ser treinador é conseguir transmitir suas ideias”, explicou.

Depois da guerra, Nicholson retomou sua carreira pelo Tottenham e foi bem-sucedido, com 341 jogos no total e dois títulos ingleses. Também disputou sua única partida com a camisa da seleção inglesa, contra Portugal, no Goodison Park, em 1951. Marcou com o primeiro toque na bola.

“Push and run”, “Pass and move”

Nicholson com Mackay (Foto: Getty Images)

Chegaram quase juntos aos cargos que marcariam suas histórias. Nicholson assumiu o Tottenham pouco antes. Ex-jogador do clube, trabalhava na comissão técnica e como observador da seleção inglesa quando foi chamado para substituir Jimmy Anderson, em outubro de 1958. Um ano depois, Shankly treinava o Huddersfield quando recebeu a famosa pergunta do então presidente do Liverpool – “Quer treinar o melhor clube do mundo?” – e teceu a famosa resposta – “Por quê? Matt Busby está se aposentando?” – antes de aceitar a tarefa.

A situação dos clubes era bem diferente. O Tottenham havia sido campeão no começo da década e vinha de um segundo e um terceiro lugar com Anderson. Em 1958/59, havia começado mal, o que abriu espaço para a troca de comando. Precisava de reforços, mas não era terra arrasada. E Nicholson mandou muito no mercado: trouxe jogadores como Dave Mackay, Bill Brown, John White e Les Allen que se juntariam aos nomes que já estavam no clube, com Danny Blanchflower, Cliff Jones, Terry Dyson e Bobby Smith.

A missão de Shankly era bem mais difícil. O Liverpool estava há cinco temporadas na segunda divisão, e suas estruturas caíam aos pedaços. A primeira ordem do dia foi reformar e modernizar o centro de treinamentos de Melwood. Manteve a espinha dorsal da comissão técnica, que se reunia em uma pequena sala debaixo de uma das arquibancadas de Anfield, a “Bootroom” que, além de chuteiras, guardava a mística do sucesso dos Reds nas décadas seguintes.

Shankly não dava orientações muito difíceis para seus jogadores. Queria que eles passassem a bola e se mexessem para receber de volta. Passar a bola e se mexer. “Pass and move”, duas palavras que ficaram marcadas no vocabulário do Liverpool e, como muita coisa que Shankly instalou no clube, atravessaram as décadas até virarem música, em 1996.

O conceito é meio simples e, antes de Shankly chegar ao Liverpool, era aperfeiçoado por Arthur Rowe, um dos técnicos mais influentes da Inglaterra. Ele tirou o Tottenham da segunda divisão e foi imediatamente campeão da primeira, no começo da década de 1950. Treinou Alf Ramsey e pegou o fim da passagem de Vic Buckingham como jogador pelo White Hart Lane. Buckingham testemunhou de perto a transformação do time antes de treinar o Ajax e lançar Johan Cruyff.

Rowe também foi treinador de Bill Nicholson, que aplicou o conceito de toques rápidos e triangulações, batizado como “push and run”, durante os seus 15 anos como treinador do Tottenham. Qualquer obituário de Nicholson destaca a maneira bonita como o seu time jogava, corroborada pelos números. E pelos feitos. Em 1960/61, o Tottenham foi campeão inglês fazendo 115 gols, o único título da liga sob o comando de Nicholson, mas um muito especial. Porque foi acompanhado pela Copa da Inglaterra daquela temporada, completando a primeira dobradinha do futebol inglês no século 20.

Depois de ensinar os jogadores a passarem a bola e se mexerem, melhorar as instalações e modificar os métodos de treinamento, Shankly precisava de jogadores para colocar a bola dentro do gol adversário e vencer partidas de futebol. Muita insistência trouxe uma dupla da Escócia: o zagueiro colossal Ron Yeats e o atacante Ian St. John para fazer dupla com Roger Hunt.

Em um fim de semana de maio de 1962, Shankly comandou o Liverpool na derrota por 4 a 2 para o Swansea, mas ela pouco importou: era apenas a última rodada da segunda divisão da qual os Reds já eram campeões, retornando à elite inglesa após oito temporadas. O jogo foi em uma sexta-feira. No sábado, apaixonado por futebol como poucos, Shankly deve ter se sentado à frente da televisão para assistir à final da Copa da Inglaterra. Em Wembley, o Tottenham de Bill Nicholson derrotou o Burnley, por 3 a 1, e conquistou a Copa da Inglaterra pela segunda vez seguida. 

A Europa ao alcance dos dedos

Nicholson com seus troféus (Foto: Getty Images)

Em seu formato clássico, um clube tinha poucas oportunidades de conquistar a Copa dos Campeões. Precisava ter conquistado a liga nacional ou o próprio torneio europeu para conseguir uma vaga. O Liverpool teve três oportunidades no reinado de Shankly. O Tottenham, apenas uma com Nicholson. E ambos pararam nas semifinais.

A primeira tentativa foi do Tottenham em 1961/62, depois da temporada da Dobradinha.  Passou voando pelo Górnik Zabrze, fez 4 a 2 no Feyenoord e despachou o poderoso Dukla Praga, da Tchecoslováquia, time do Exército inflado pelo governo do país, com a base da seleção vice-campeã mundial e um certo Josef Masopust. A derrota por 1 a 0 fora de casa foi revertida com uma goleada por 4 a 1 em White Hart Lane.

O adversário das semifinais seria o atual campeão Benfica. A derrota por 3 a 1 no Estádio da Luz foi ampla o bastante para os portugueses passarem à decisão, apesar do 2 a 1 a favor do Tottenham em White Hart Lane. Na decisão em Amsterdã, os Encarnados derrotaram o Real Madrid por 5 a 3, com exibição fantástica de Eusébio.

O Liverpool de Shankly também chegou perto da final. Dois anos depois de subir à elite, conquistou o Campeonato Inglês pela primeira vez desde 1947. A primeira noite europeia de Anfield foi uma goleada por 6 a 1 sobre o KR, da Islândia, depois de 5 a 0 fora de casa. O Anderlecht foi eliminado na sequência, e o Colônia, nas quartas de final, da maneira mais peculiar possível. Após empates por 0 a 0 na Alemanha e na Inglaterra, foi disputado um jogo de desempate em Roterdã. Outra igualdade, por 2 a 2, e o classificado foi decidido no cara ou coroa.

A sorte do Liverpool terminou nas semifinais, quando enfrentou a Internazionale de Helenio Herrera, também o atual campeão naquela temporada. O jogo de ida em Anfield foi épico. Os Reds haviam acabado de conquistar a primeira Copa da Inglaterra da sua história, e Shankly orquestrou uma maneira de inflamar a torcida ao apito inicial, desfilando-a em campo. Foi 3 a 1 para o time da casa. Mas, no San Siro, a Inter mostrou sua força. Venceu por 3 a 0, e na final, conquistaria o bicampeonato ao derrotar o Benfica.

A glória dos dois treinadores viria em competições europeias secundárias. O Tottenham ganhou a Recopa, em 1963, goleando o Atlético de Madrid por 5 a 1 na decisão. Primeiro título europeu de um clube inglês. Nicholson ainda conquistaria a Copa da Uefa de 1972 para os Spurs, saindo vencedor da primeira final continental totalmente inglesa contra o Wolverhampton.

Shankly conquistou a Copa da Uefa de 1973. E precisou passar pelo Tottenham de Nicholson na semifinal, dez dias depois de um empate entre os dois pelo Campeonato Inglês que nos trouxe outra bela anedota, contada pelo então jornalista do Daily Express, Normal Giller. Ele e o colega Harry Miller, do Daily Mirror, cruzaram com Shankly na entrada de imprensa de Anfield, que havia acabado de ser reformado. Como bom anfitrião, o treinador do Liverpool ofereceu um tour aos repórteres:

“Aqui estamos, a uma hora da bola rolar para um dos jogos mais importantes da temporada do Liverpool, e o treinador deles está nos conduzindo em um tour da nova arquibancada. Ele nos mostrou a sala da diretoria (‘onde ficam os ricos’), a famosa boot rom (‘insisti que mantivessem igual à velha’), a lavanderia (‘temos a melhor equipe de lavagem do futebol’), a recepção (‘temos o melhor sistema de telefone do país’) e descemos aos vestiários (…) Passamos pelo do time da casa (‘o mais bem equipado do negócio) até onde os jogadores do Tottenham estavam se preparando. Shankly perguntou: ‘Bill Nick está aí? Diga que tenho pessoas importantes que precisam falar com ele’. Um assustado Bill Nicholson apareceu no corredor. ‘Lembra o que me disse no telefone semana passada, Bill, sobre repórteres incomodarem você em casa? Agora você pode reclamar com eles diretamente’. Ele saiu pelo corredor, com seu riso soando como uma gaita de fole quebrada. Pedimos nossas desculpas a Bill Nick, que viu o lado engraçado da história. ‘Este é Shankly. Nunca previsível’.”

O Liverpool ganhou a primeira partida daquela semifinal, em Anfield, por 1 a 0 e garantiu a vaga na final graças ao gol de Steve Heighway, em White Hart Lane, na derrota por 2 a 1. Seria campeão contra o Borussia Monchengladbach depois, conquistando seu primeiro título europeu.

A hora de ir embora

Shankly vendo um jogo entre os torcedores (Foto: Getty Images)

Ambos tiveram importâncias diferentes para os seus clubes. Shankly conquistou seis títulos relevantes pelo Liverpool, além da segunda divisão e três supercopas, o que pode ser considerado pouco pelo tempo de clube e, principalmente, em contraste com a máquina de troféus que os Reds se tornariam sob o comando do seu sucessor, Bob Paisley, nos anos seguintes.

Mas Shankly tirou o Liverpool do buraco. Restaurou o orgulho dos torcedores, investiu em infraestrutura e inseriu a filosofia de trabalho duro e espírito coletivo, em linha com seus ideais políticos, que permearia todas as décadas de sucesso dos Reds. E, acima de tudo, alguém que entendia o tamanho do clube e a paixão dos seus torcedores:

“Eu sou apenas uma das pessoas que frequenta a Kop. Eles pensam o mesmo que eu, e eu penso o mesmo que eles. É um tipo de casamento entre pessoas que gostam uma das outras. O Liverpool foi feito para mim, e eu fui feito para o Liverpool. Quero ser lembrado como um homem que era altruísta, que lutou e se preocupou para os outros pudessem dividir a glória e que construiu uma família de pessoas que poderiam levantar a cabeça e dizer: ‘Nós somos Liverpool’”.

Nicholson supervisionou o período mais vencedor do Tottenham. Conquistou o segundo – e último – Campeonato Inglês da história dos Spurs e três vezes a Copa da Inglaterra, incluindo a marcante Dobradinha. Ganhou o primeiro título europeu, a Recopa, e o segundo, na Copa da Uefa. E duas edições da Copa da Liga Inglesa. Também tinha a dimensão do que os torcedores esperavam:

“Qualquer jogador que vier para os Spurs, seja uma grande contratação ou alguém para trabalhar no gramado, precisa ser dedicado ao jogo e ao clube. Não pode nunca ficar satisfeito com seu último desempenho e precisa odiar perder. É melhor falhar mirando alto do que ter sucesso mirando baixo. E nós do Spurs colocamos nossa mira bem alta, tão alta que mesmo o fracasso terá ecos de glória. O Tottenham foi minha vida. Eu amo o clube. Sou um homem do Tottenham”.

Curiosamente, ambos também concluíram que a hora de se aposentar havia chegado ao mesmo tempo. A obsessão de Shankly era tão grande que os meses de férias deixavam-no depressivo. Ameaçou pendurar as chuteiras diversas vezes, até falar sério, logo depois do título da Copa da Inglaterra de 1974. Ele se arrependeria, eventualmente, mas o clube seguiu tão bem com Paisley que não houve volta. Nem em outro cargo, o que o deixou bem chateado até morrer, em 1981.

Nicholson, por outro lado, seguiu envolvido com o Tottenham, como consultor e posteriormente presidente, até morrer, em 2004. A sua decisão de pendurar a prancheta foi tomada alguns meses depois da de Shankly, no começo da temporada 1974/75. Ele havia ficado desiludido pelo estado do futebol: salários altos, jogadores-celebridades e o hooliganismo endêmico que afetava o futebol inglês. “A simples verdade é que eu estava esgotado. Eu renunciei porque senti que precisava de um longo descanso. Eu não tinha nada mais a oferecer”, escreveu, em sua autobiografia Glory, Glory, My Life with Spurs.

Já havia oferecido muito. Nicholson e Shankly batizaram eras, proporcionaram experiências únicas a seus torcedores e conduziram anos de sucesso dos clubes que se enfrentam neste sábado, pela final da Champions League, uma partida que certamente nenhum dos dois aceitaria perder.