O Watford faz uma boa temporada, dentro das suas possibilidades. Até surpreendente, considerando que não fez um mercado particularmente de destaque, nem contava com um treinador muito conhecido. Terminou a Premier League em 11º lugar, melhor campanha desde 1987, e chegou à final da Copa da Inglaterra pela segunda vez. O clube do coração de Elton John tem a chance de conquistar o primeiro título de sua história. Mas será muito, muito difícil.

Porque no outro lado está um time que marca época na Inglaterra. O Manchester City caminha para uma inédita Tríplice Coroa nacional, depois de conquistar a Copa da Liga e a Premier League, com 98 pontos, apenas dois a menos do que na temporada anterior.

O título do Watford seria uma grande zebra. Mas não é impossível. Ainda mais em jogo único, o futebol é capaz de pregar peças, como mostramos a seguir, com as sete maiores zebras “recentes” da Copa da Inglaterra – o conceito de recente se aplica para um recorte de 45 anos quando estamos tratando da competição mais antiga do mundo.

A final da Copa da Inglaterra entre Watford e Manchester City será realizada neste sábado, às 13h (Brasília), e transmitida exclusivamente pelo site e pelos aplicativos do DAZN. Aproveite o mês grátis oferecido pelo serviço de streaming, em parceria com a Trivela, para assistir a este jogaço, clicando aqui.

1973 – Sunderland 1 x 0 Leeds

Fazia mais de 40 anos que um time de fora da elite do futebol inglês não vencia a Copa da Inglaterra. Havia sido o West Brom, em 1931. Quatro clubes (Sheffield United, Burnley, Leicester e Preston North End) haviam tentado. E falhado. E era muito difícil imaginar que seria o Sunderland, que estava há três anos na segunda divisão e seria apenas sexto colocado naquela temporada. No outro lado, estava o poderoso Leeds de Don Revie, Billy Bremmer e Johnny Gilles, famoso por trucidar adversários mais fracos. Dois lances do jogo em Wembley entraram para a história. O gol do título, claro, marcado por Ian Porterfield, aos 32 minutos do primeiro tempo, e a dupla defesa de Jimmy Montgomery, primeiro negando Trevor Cherry, depois Peter Lorimer, à queima-roupa. Conseguiu apenas espalmar contra o próprio travessão, em defesa comparada à de Gordon Banks. “Acho que é parte do folclore do Sunderland e do futebol inglês”, afirmou Montgomery, ao Telegraph. “Não acho que tenha sido tão boa quanto a de Gordon Banks contra o Brasil. Eu nem pensei sobre o significado dela no momento, a bola saiu para uma cobrança de lateral e eu tive que lidar com a próxima situação. Eu me lembro de ter defendido a primeira jogada e sabia que tinha que levantar para parar a segunda. Não adianta fazer a primeira defesa se você deixar passar o segundo chute”. O Sunderland não conquistou um título desde então. A importância daquela tarde em Wembley foi tanta que a data (1-9-7-3) virou o código de segurança do centro de treinamentos dos Black Cats, pelo menos até o meia Jack Colback contar o segredo para todo mundo, cinco anos atrás.

1976 – Southampton 1 x 0 Manchester United

“Ele queria saber se eu tinha visto as cotações das casas de aposta. Eu disse: ‘Não. Quais são elas, Michael?’. Ele disse: ‘Seis ou sete para um. Somos totais zebras. Não temos chance nem no inferno’. E foi assim. Havia dois cavalos na corrida e você poderia ganhar seis ou sete para um apostando em um deles”, contou Lawrie McMenemy, treinador do Southampton em 1976, ao Guardian, sobre a ligação que recebeu do atacante Mick Channon, um dos jogadores do seu time que enfrentaria o Manchester United na final da Copa da Inglaterra, mais tarde naquele dia. A avaliação não era equivocada. O Southampton seria sexto colocado da segunda divisão naquela temporada e nunca havia sido campeão. O Manchester United estava se recuperando da sua passagem pela Segundona, animado pelos jovens comandados por Tommy Docherty. Seria terceiro colocado no Campeonato Inglês. Mas, em campo, na última final que contou com a presença da rainha Elizabeth, o Southampton levantou seu primeiro título, graças a um gol de Bobby Stokes, aos 38 minutos do segundo tempo, quebrando as casas de aposta e elevando McMenemy ao status de lenda.

1980 – West Ham 1 x 0 Arsenal

“Sete anos depois, eu comentava um jogo do Nottingham Forest contra o Crystal Palace, fora de casa, e estava de pé perto do túnel antes do pontapé inicial, com ninguém em volta. Clough colocou a cabeça para fora da porta e me viu. Veio até mim, aproximou-se e disse: ‘jovem, anos atrás eu disse algo antes de uma final da Copa da Inglaterra que eu não deveria ter dito. Peço desculpas’. Apertou minha mão e voltou ao vestiário”, relatou Trevor Brooking, à BBC. Clough havia dito à imprensa antes daquela decisão que o jogador do West Ham, na época com 32 anos, “flutuava como uma borboleta e picava também como uma”. Deve ter ficado muito contrariado quando Brooking marcou o gol do título do West Ham, então na segunda divisão, contra o Arsenal, equipe estabelecida no topo da tabela do Campeonato Inglês e em sua terceira final consecutiva. O placar poderia ter sido maior, não fosse uma falta, classificada como “cínica” por toda a imprensa inglesa, de Willie Young, do Arsenal, nos minutos finais, para barrar Paul Allen, jovem de 17 anos que havia driblado Graham Rix e se dirigia livre ao gol de Pat Jennings. Ainda não havia o conceito de “chance clara e manifesta de gol”, então Young continuou em campo. Mas não fez diferença.

1987 – Coventry City 3 x 2 Tottenham

O Coventry City era um time estabelecido da primeira divisão, mas sem grandes campanhas. A melhor, desde que havia subido em 1967, era um sexto lugar, três anos depois. Naquela mesma temporada, seria apenas décimo colocado. Nunca havia chegado a uma final de copa inglesa. O Tottenham, por outro lado, brigava na parte de cima da tabela e seria terceiro no Campeonato Inglês. Colecionava sete títulos da Copa da Inglaterra em sete finais. Os últimos dois haviam sido conquistados de maneira consecutiva, entre 1981 e 1982. Os Spurs contavam com Clive Allen, que marcou seu 49º gol da temporada ao abrir o placar em Wembley, aos 2 minutos, concretizando o que os analistas imaginavam. Mas Dave Bennett empatou na sequência. Antes do intervalo, a defesa do Coventry bateu cabeça e permitiu o tento de Gary Mabbutt. Keith Houchen igualou o marcador novamente, de peixinho. Na prorrogação, Mabbutt tentou cortar um cruzamento direita da direita de Lloyd McGrath e encobriu o próprio goleiro, o grande Ray Clemence, lenda do Liverpool. “Cada torcedor do Coventry que eu conheço quer uma foto beijando meu joelho esquerdo. Eu acho que este é o joelho mais beijado do mundo”, contou ao Telegraph. “Em 99% das vezes, a bola teria acertado meu joelho e saído em escanteio ou caído para Clemence. Mas acertou a parte de cima do meu joelho e, assim que tomou a curva, eu consegui vê-la encobrindo Ray e percebi que ele não defenderia”. Não defendeu. E o Coventry foi campeão.



1988 – Wimbledon 1 x 0 Liverpool

“Eu e Vinnie (Jonnes) decidimos que compraríamos flores para a Princesa Diana”. Você deve estar se perguntando por quê. A declaração é de Dennis Wise, ex-jogador de um time do Wimbledon que ficou conhecido como Crazy Gang, (Uma Gangue Muito Louca, em tradução da Sessão da Tarde) porque os seus integrantes gostavam de pregar peças inofensivas nos companheiros, como queimar suas roupas ou riscar seus carros. Quando o Wimbledon chegou à final da Copa da Inglaterra contra o Liverpool, Wise e seus comparsas não quiseram perder a oportunidade de fazer uma graça com a realeza. Mas… “Nós acordamos bem cedo e decidimos ir ao centro da cidade, o que foi meio idiota. Cortamos o cabelo e compramos algumas flores. Mas quando chegamos ao estádio, não pudemos entrar com as flores. Foi realmente muito triste. Foi tudo uma perda de tempo, mas era algo que queríamos fazer”, disse Wise, ao Independent. Qualquer tristeza por ter precisado jogar o buquê de flores no lixo desapareceu, depois da partida, quando o Wimbledon concretizou uma gigantesca zebra. O Liverpool era o clube dominante dos anos oitenta (e setenta) e buscava a Dobradinha porque era também o campeão inglês. Há sete temporadas era primeiro ou segundo da primeira divisão. O Wimbledon havia chegado à Football League, na época organizadora da primeira à quarta divisão, há meros 11 anos. Estava na segunda temporada na elite, com surpreendentes sexto e sétimo lugares. Um gol de cabeça de Lawrie Sanchez foi o único gol da partida porque o goleiro Dave Beasant defendeu o pênalti de John Aldridge e garantiu o caneco.

1995 – Everton 1 x 0 Manchester United

Historicamente, uma vitória do Everton sobre o Manchester United nunca seria uma zebra. Os dois clubes, inclusive, estavam empatados com nove títulos ingleses cada. Mas a situação de ambos era muito diferente na temporada 1994/95. Os Red Devils haviam florescido sob o comando de Alex Ferguson, e a perda do título inglês para o Blackburn significou apenas o fim do sonho do tricampeonato. O Everton, por outro lado, havia perdido o ímpeto dos anos oitenta, quando foi incrivelmente bem-sucedido, e quase foi rebaixado no campeonato anterior, salvando-se apenas na última rodada. A nova campanha havia começado pior do que nunca, com nenhuma vitória nas primeiras 12 rodadas. A chegada de Joe Royle melhorou o ambiente e a permanência na novata Premier League foi confirmada até com alguma folga (cinco pontos). Em paralelo, a campanha na Copa da Inglaterra foi fantástica, com apenas um gol sofrido, na semifinal, contra o Tottenham. Em Wembley, um gol solitário (e chorado) de Paul Rideout significou o quinto título de FA Cup do Everton e, até hoje, o seu último de grande importância.

2013 – Wigan 1 x 0 Manchester City

Se você leu na ordem, conseguirá entender a seguinte referência: “O Wigan conquistou a Copa da Inglaterra e pode ser considerado na companhia do Sunderland de 1973, do Southampton e 1976 e do Wimbledon de 1988”. Esse é o começo do relato do Guardian, logo depois de Ben Watson marcar contra o Manchester City, em Wembley. Logo depois mesmo, porque o único gol daquela final de FA Cup saiu nos acréscimos do segundo tempo. Em toda a história, a melhor campanha do Wigan na competição era chegar às quartas de final, em 1987, e, para não deixar nenhuma dúvida do tamanho da zebra, o clube fez questão de ser rebaixado da Premier League uma semana depois, tornando-se o primeiro a conquistar a Copa da Inglaterra e cair de divisão na mesma temporada. No outro lado do ringue, estava o já milionário Manchester City, caminhando para ser vice, e campeão no ano anterior. Não à toa, Roberto Mancini foi demitido pouco depois.

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