José Mujica é daquelas pessoas que precisavam existir mais. Não só na política, mas na vida. Porque muitas das lições que o agora ex-presidente e senador uruguaio deu durante os seus cinco anos de governo no Uruguai foram muito além da política nacional. Obviamente, o ex-preso político trouxe os ganhos para o país, que cresceu economicamente e aprovou diversas medidas liberais com o apoio da população. No entanto, a mensagem do velhinho que mora em um sítio e dirige um fusca transcende as questões do gabinete. Como ficou bastante claro em seu histórico discurso na ONU, em 2013.

E em um país no qual o futebol está tão profundamente enraizado, Mujica não passaria todos os seus anos alheio ao esporte. Pelo contrário, o presidente esteve muito próximo do esporte, sobretudo da seleção e da organização dos clubes. Não foi exatamente unanime na questão, muito por sua proximidade com Paco Casal, empresário que se tornou dono da maioria dos grandes jogadores do país a partir dos anos 1990 e influencia demais nos negócios locais. Porém, também na questão esportiva, Pepe marcou muito mais por sua mensagem.

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Em cinco anos, Mujica honrou os ídolos do futebol nacional, criticou a Fifa e a violência que toma conta dos estádios. Por vezes, até exagerou, como na defesa a Suárez após sua suspensão na Copa do Mundo. Não abandonou, sobretudo, a sua essência de quem frequentava as arquibancadas do Estádio Centenario com o pai durante a juventude. E também do estadista que parece muito mais interessado em seu povo do que na manutenção do poder e na riqueza econômica.

– Mujica quis combater a violência no futebol fugindo do óbvio

PARTIDOS A BENEFICO

Quando se discute as brigas em estádios, as soluções apontadas quase sempre apontam por um mesmo caminho. E de maneira bastante repressiva: aumentando o policiamento e realizando jogos com torcida única. Pois, do problema comum em vários cantos do mundo, Mujica tomou medidas bastante inovadoras. Em março de 2014, o presidente prometeu retirar a polícia das partidas envolvendo Nacional e Peñarol.

“Os uruguaios não podem seguir nessa irracionalidade, consolidando a estupidez humana. Devemos reagi imediatamente. Estou disposto a parar o futebol se necessário, até que se tomem medidas. Para começar, cortamos a proteção policial. Grades e polícia não são a solução. É hora de colocar fim à barbárie e castigar os que merecem, não os que amam o futebol. A segurança nos estádios não se faz com presença policial, mas com a maturidade da sociedade”, afirmou na época. “Eu me eduquei em um país muito diferente. Eu me lembro de quando meu pai me levava ao Centenario para desfrutar o espetáculo. As torcidas podiam conviver sem problemas. Agora é precisa separá-los como se fossem feras”.

A medida de Mujica durou apenas alguns dias, tendo mais importância por seu valor simbólico. No entanto, durante os últimos meses, o combate à violência no futebol uruguaio se deu com a cooperação entre clubes e organismos públicos. O Ministério do Interior passou a colaborar com a federação para barrar torcedores com antecedentes criminais. Além disso, justiça e polícia passaram a investigar os barrabravas de maneira mais incisiva.

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– Qual outro estadista chamou a Fifa de “corja de velhos filhos da puta”?

Durante a chegada da seleção uruguaia no aeroporto, após a eliminação na Copa de 2014, perguntaram a Mujica o que havia significado para ele o Mundial. Ele respondeu: “Que a Fifa é uma corja de velhos filhos da puta”. Publico isso? “Publica, por mim”.

Alguns acharam que o presidente exagerou no tom ao defender Luis Suárez, após seu incidente com Chiellini na Copa. Pode até ser. Mas suas críticas à Fifa foram muito mais válidas, e mais contundentes. “Poderiam ter sancionado, mas não essas sanções fascistas”, declarou. “O caso Suárez será uma vergonha eterna do futebol. Poderia se entender uma injustiça ou uma sanção, mas não uma monstruosa agressão. Não só a um homem, mas a um país, fundamentalmente pela forma. Estamos loucos, nenhuma entidade pode proibir alguém de entrar em um estádio ou em qualquer evento esportivo sem ter a assinatura de um juiz”.

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– A beleza do futebol não está no dinheiro, mas na arte

Mujica Lugano

“Há um talento natural no futebol. Mas quando vemos as cifras que se gastam, principalmente na Europa, então nos damos contas que nossas disponibilidades são ridículas. Real Madrid e Barcelona devem gastar mais com salários no ano do que o futebol uruguaio em toda a sua vida. Então, esse é um fenômeno que dá charme ao futebol: apesar do dinheiro, times com recursos escassos podem ter sucesso. Porque o futebol não é uma ciência, mas uma combinação de ciências que tem muito de arte”.

– Ele sabe como o futebol é imprescindível à cultura uruguaia

“Existe uma tradição futebolística que vem do mais profundo da história. Empurra, motiva e compromete quem põe a camisa celeste. Ajuda muito que um pequeno país, com escassa população, possa ter uma interessante presença internacional no futebol. Além do mais, devemos a tradição aos antigos. Tudo isso se compõe uma cultura que pesa de forma inquestionável e motiva as pessoas para levar o resto da vida”.

– Mujica exaltou os grandes ídolos da Celeste

Mujica Ghiggia

Em maio de 2010, Mujica participou da despedida da seleção antes da viagem ao Mundial da África do Sul, no qual voltou às semifinais após quatro décadas. Na cerimônia, o presidente entregou uma medalha em homenagem a Ghiggia, único campeão do mundo de 1950 ainda vivo e a bandeira do país ao capitão Diego Lugano. Além disso, também deu um recado simples, mas importante: “Que fique claro que vocês não vão a uma guerra, mas a uma festa esportiva”.

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– Deu uma lição de vida através do futebol

Durante a abertura do Quinto Encontro Latinoamericano de Futebol de Rua, em Montevidéu, Mujica falou: “Não se enganem jamais em conseguir a vitória fácil, porque toda vitória significa trabalho e suor. Não há nenhum triunfo virando a esquina. Joguem bola, mas, por favor, queiram e respeitem a vida que é o melhor capital que vocês têm. Não deixem que roubem suas ferramentas e nem que a transformem em uma droga. Trabalhem, mas… Sabem de uma coisa? A vida é charmosa. E na etapa em que vocês estão, não podem deixá-la escapar. É charmosa, não percam o tempo de sua juventude”.

– E, no fim das contas, Pepe também é torcedor

mujica simeone

“Eu precisaria ser torcedor do Huracán de Paso de La Arena, que foi o bairro onde nasci. Mas quando eu era pequeno o time não existia ainda, então fiquei com o Cerro”, afirmou. “O Huracán é um time que tem muitos méritos e está ligado à questão do bairro, que cresce muito. Vive gente trabalhadora por excelência, que ajudou no crescimento da cidade e adquire cada vez mais importância. O Huracán tem futuro”.

Apesar disso, Mujica deu um belo presente aos jogadores do time de seu bairro certa vez, em 2012. Enquanto a equipe treinava em um dia chuvoso, o presidente passou com seu fusca azul celeste em frente à sede do clube. Desceu, com uma tampa de privada debaixo do braço. E parou para conversar com os atletas, recebido sob aplausos. “Vocês tem que seguir em frente, trabalhar muito e ter objetivos claros. Há vezes em que o espírito humano pode mais que qualquer feito econômico, quando não temos garantias neste sentido”, disse Mujica, após cumprimentar um a um. Também prometeu participar do churrasco, se o Huracán conquistar o acesso à primeira divisão.