Sete gols memoráveis da Seleção que recontam a história contra a Argentina na Copa América

Se a Argentina conquistou boa parte de suas glórias no antigo Campeonato Sul-Americano batendo o Brasil, a situação se inverteu na fase moderna da Copa América. Desde 1975, o retrospecto favorável aos brasileiros é considerável. A Canarinho ganhou seis jogos e perdeu apenas três contra os rivais, além de avançar nas duas disputas por pênaltis. Também faturou as duas finais e despachou os vizinhos em outras duas ocasiões nas quartas de final. Uma história vitoriosa e marcada por grandes gols, que povoam o imaginário do clássico. Para relembrar este passado, recontamos um pouco do contexto e das impressões sobre sete tentos emblemáticos da Seleção, além de um pênalti defendido. Para ilustrar o recorte, foram escolhidos apenas gols com vídeos disponíveis. Confira:

Adriano, 2004

“Capricha, Adriano”. A frase era uma súplica em uma final que já parecia perdida, quando os argentinos se contentavam em fazer firulas à beira do campo. Tanto Marcelo Bielsa quanto Carlos Alberto Parreira vinham com times basicamente jovens, embora os argentinos parecessem mais consolidados. A campanha da Canarinho teve várias provações, sobretudo na decisão. O empate por 2 a 2, arrancado nos últimos suspiros, massacrou a confiança dos albicelestes e permitiu a consagração nos pênaltis. É o momento que mantém o Imperador como um personagem lembrado sempre com muito carinho na seleção brasileira.

“Agradeço a Deus, a minha família e aos meus companheiros. É uma coisa inexplicável. A gente nunca deixou de lutar. Não desistimos em nenhum momento. Claro que pensamos no pior, quando eles fizeram o gol no finzinho. Eles nos subestimaram e nós nos superamos. No lance do gol, a bola estava perdida, o Luis Fabiano me ajudou porque atrapalhou o zagueiro. Consegui dominar e fazer”, contou, na época, à Folha de S. Paulo.

Bebeto, 1989

Ainda não seria o jogo que coroou a conquista do Brasil na Copa América de 1989, encerrando o jejum de 40 anos da Seleção no torneio. Porém, o gol de Bebeto é o que realmente ocupa o imaginário quando se fala daquela conquista. O baiano viveu uma noite infernal no Maracanã, atormentando a defesa da Argentina, em uma de suas melhores exibições ao lado de Romário. Abriu o placar no triunfo por 2 a 0, pela segunda rodada do quadrangular final, com aquela que seria sua assinatura: o voleio, nunca tão bem executado. Romário fechou a contagem. Diante do Uruguai, na rodada final, os anfitriões ergueram a taça no Maraca.

“Um golaço, um golaço, todo mundo lembra desse gol. Foi a marca registrada. O Maradona veio trocar camisa comigo, porque ele disse que nunca tinha visto um gol tão bonito como aquele que eu fiz contra ele no Maracanã”, relembrou Bebeto, ao Jornal Nacional, em 2011.

Júlio Baptista, 2007

A conquista da Copa América de 2007, novamente, permitia ao Brasil desbancar uma Argentina favorita. Aquela decisão, contudo, rendeu uma história bem diferente. Não seria um épico como o de três anos antes. O triunfo por 3 a 0 viu um baile do time de Dunga, com direito a heróis pouco usuais. Júlio Baptista foi o responsável por abrir o placar contra o time de Riquelme, Verón, Zanetti, Cambiasso, Messi e Tevez. La Bestia recebeu na esquerda e acertou um tirambaço que mal deixou Pato Abbondanzieri se mover. Caminho aberto à glória, em resultado que ainda teve um gol contra de Roberto Ayala e outro de Daniel Alves.

“As pessoas ficaram menosprezando o Brasil, dizendo que tínhamos um time inferior, e isso deu força para a gente. Não devemos nada para nenhuma seleção do mundo”, declarou o atacante, na época, à Folha de S. Paulo.

Túlio, 1995

O Brasil ostentava a faixa do tetra, mas viajou à Copa América com um time bastante renovado. Os medalhões da Copa povoavam principalmente o setor defensivo, enquanto a equipe era rejuvenescida mais à frente. Nas quartas de final, pegava uma Argentina de respeito, mas que não soube aproveitar sua vantagem. Balbo abriu o placar, mas Edmundo empatou. E, depois que Batistuta fez o segundo, Túlio resolveu a nove minutos do fim. Apesar do claro domínio com o braço, a arbitragem deixou passar e o gol determinou o empate por 2 a 2. Nos pênaltis, os brasileiros avançaram, antes da derrota para o Uruguai na final.

“No meu gol, dominei a bola no peito. Foi um gol importante, em que eu dominei no peito, a defesa parou no lance. E eu, como bom goleador que sou, concluí para a rede”, declarou Túlio logo após o jogo, ao Jornal dos Sports, com um sorriso cínico. Depois, diria que “se o gol de Maradona em 1986 foi com a mão de Deus, o meu foi com a da Virgem Maria”.

Tita, 1979

A fase de grupos da Copa América de 1979 guardava confrontos de peso entre Brasil e Argentina. Enquanto a Albiceleste vinha do título Mundial de 1978, a Canarinho preparava a geração de 1982. Naquela noite no Maracanã, cruzaram-se em campo craques como Zico, Maradona, Carpegiani e Passarella. Zico abriu o placar e Coscia empatou. O herói seria Tita, em sua primeira partida oficial com a amarelinha. Roubou a bola, tabelou com Zico e, ao sair de frente para o goleiro Vidallé, deu um requintado chute por cobertura, de difícil execução. Golaço, que valeu a vitória por 2 a 1. A Seleção passou de fase, mas caiu ante o Paraguai nas semifinais.

“Quem quiser levar em consideração que ontem foi a sua estreia na seleção, cuja camisa não costuma pesar pouco, vai reconhecer que Tita fez rigorosamente o que faz no Flamengo. Um jogo de empenho, luta, inteligência, senso coletivo e técnica aceitável. Além do gol da vitória”, avaliou o Jornal do Brasil, no dia seguinte.

Branco, 1991

Aqui, a única derrota da lista. Brasil e Argentina faziam em Santiago o primeiro jogo oficial desde as oitavas de final da Copa de 1990. O duelo pelo quadrangular final da Copa América não era a “decisão”, mas teve enorme peso ao título da Albiceleste. Darío Franco, duas vezes, e Gabriel Batistuta marcaram os gols dos argentinos no triunfo por 3 a 2. O melhor momento da Seleção veio aos cinco minutos, logo após Franco inaugurar o marcador, quando Branco empatou o duelo com uma cobrança de falta violenta. Paulo Roberto Falcão comandava o Brasil, com time cheio de novatos.

“Branco lutou, correu, discutiu com o juiz, marcou um belo gol de falta e participou de outro. Só não foi bem na parte defensiva”, analisou o Jornal dos Sports, do dia seguinte.

https://www.youtube.com/watch?v=OYzQaQzzLLM

Nelinho, 1975

Na primeira Copa América itinerante, Brasil e Argentina se pegaram na fase de grupos. A Seleção contava com um elenco baseado nos clubes mineiros e atuou no Mineirão. A classificação foi facilitada no primeiro embate entre os times, diante de uma Albiceleste treinada por César Luis Menotti, mas composta majoritariamente por jogadores do interior – cinco deles, futuros campeões do mundo. Depois que Julio Asad abriu o placar, Nelinho se encarregou de empatar. Um de seus golaços de falta, deixando atônito o goleiro Hugo Gatti. No final, o lateral garantiu a virada por 2 a 1 cobrando pênalti. A Seleção pararia nas semifinais daquela edição.

“Nelinho foi um dos melhores do time. Talento muito acima da média da equipe. Perfeito nos gols de falta e de pênalti”, avaliou o Jornal dos Sports, do dia seguinte.

Dida, 1999

Não, Dida não marcou um gol nas quartas de final da Copa América de 1999. Mas é como se fosse. A Argentina abriu o placar com Sorín. Antes do intervalo, Rivaldo empatou com um golaço de falta e Ronaldo virou no início do segundo tempo, contando com a colaboração de Germán Burgos. Se não eram os times mais estrelados para a época, ao menos Brasil e Argentina contavam com vários craques. Nenhum capaz de brilhar como Dida. A Albiceleste teve um pênalti favorável aos 33 da etapa final. Após os três erros de Martín Palermo contra a Colômbia, Roberto Ayala pegou a bola, mas parou em uma defesa magistral do arqueiro, esperando e se esticando. O Brasil seria campeão daquela edição.

“Na hora do pênalti, olho para o adversário e imagino o que ele pode fazer. Graças a Deus, hoje imaginei a coisa certa”, contou o goleiro, na época, à Folha.