“Foi uma loucura. Estávamos atrás no placar até o intervalo, e eu queria entrar porque precisávamos de dois gols. Depois do terceiro e do quarto, eu parrei para olhar no telão, e fiquei surpreso porque parecia que tinha se passado mais tempo. Guardiola não precisou me falar nada, eu sabia o que precisava fazer. Eu só pensava em chutar e nem queria imaginar o que iria acontecer depois”.

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Na entrevista logo após o jogo, Robert Lewandowski deixou claro que nem ele tinha entendido direito o que havia acabado de realizar. A façanha que 75 mil testemunhas presenciaram na Allianz Arena, além de outras milhares ao redor do mundo pela tela da TV. Cinco gols em uma partida é um feito raro que, vá lá, a gente vê uma ou outra vez na mesma temporada. Mas não em um jogo tão importante. Não para um cara que saiu do banco de reservas justamente para virar o placar. Não em menos de nove minutos.

No caso dos jornalistas que estavam relatando o jogo, era até difícil emendar a descrição de um gol ao outro. E depois, a complicação era lembrar qual foi qual para descrever na matéria sobre a partida. Imagine então como estava a cabeça de Lewandowski, a milhão, virando a chavinha entre a euforia da comemoração e a frieza para balançar as redes outra vez no minuto seguinte? Imagine então como estava a cabeça dos defensores do Wolfsburg, que mal podiam se recompor e logo se rendiam outra vez ao polonês?

É o tal apagão de nove minutos. Quando se espera a clemência dos adversários, a ira se repete. E se repete, cinco vezes. Mas, por outro lado, também é um clarão de nove minutos. A lucidez do artilheiro é impressionante. Continuou concentrado na sua tarefa, esbanjou competência. Esteve sempre no lugar correto para ser ele o responsável sobre os cinco golpes fatais no Wolfsburg. Detalhes que tornam ainda mais inacreditável o feito, e que destrinchamos nas linhas a seguir:

Germany Soccer Bundesliga

– Algo sem precedentes nas principais ligas

O Campeonato Inglês começou a ser disputado em 1888. O Italiano adotou o formato de liga em 1929, mesmo ano em que surgiu o Espanhol. Já o Alemão contabiliza as suas marcas a partir do início da Bundesliga, em 1963. Somados os quatro campeonatos, são 352 edições completas. E o total de partidas disputadas passa das dezenas de milhares. Mesmo assim, nunca ninguém havia anotado cinco gols em tão pouco tempo quanto Lewandowski. Quem mais se aproximou foi Ladislao Kubala, pelo Barcelona, em 1952. Em intervalo de 19 minutos, fez cinco de seus sete gols na vitória sobre o Sporting Gijón por 9 a 0. E, mesmo assim, depois dos 25 do segundo tempo, quando os visitantes já estavam entregues. Nem Archie Thompson, autor de 13 gols no famoso Austrália 31×0 Samoa Americana, conseguiu ser tão ligeiro.

– E também sem precedentes para um substituto

Levando em conta as quatro grandes ligas outra vez, nunca um jogador que veio do banco de reservas conseguiu marcar cinco gols em um mesmo jogo. Nem mesmo Ole Gunnar Solskjaer, a famosa carta na manga de Alex Ferguson no Manchester United. O norueguês até possui um esboço da façanha, ao entrar durante o segundo tempo de uma goleada sobre o Nottingham Forest. Em campo a partir dos 27 minutos, transformou o 4 a 1 em 8 a 1 com quatro gols anotados depois dos 35. Menos que Lewandowski e em mais tempo.

– Um raio que caiu três vezes na Alemanha

O recorde de tempo de Lewandowski, aliás, é triplo. Ninguém marcou cinco gols mais rápido que ele na Bundesliga. O mais próximo tinha sido Dieter Hoeness, do Bayern, com 21 minutos para estufar as redes do Eintracht Braunschweig em 1983/84. Mas o polonês foi além. Os cinco minutos e 41 segundos entre o primeiro e o quarto gol marcam o “pôquer” mais veloz da história da liga. Assim como os três primeiros, feitos em três minutos e 21 segundos, também configuram o “hat-trick” mais rápido. E já tinham se passado 24 anos da última vez que um jogador do Campeonato Alemão anotara cinco gols em um mesmo jogo: Michael Tönnies, em 1991, nos 6 a 2 do Duisburg contra o Karlsruher de Oliver Kahn.

– O peso do jogo

O Wolfsburg não era qualquer adversário. Vice-campeão alemão e então terceiro colocado na tabela. Mais do que isso, o time que goleou o Bayern por 4 a 1 no encontro anterior pela Bundesliga, além de ter derrotado os bávaros na Supercopa da Alemanha deste ano. Lewandowski não bateu em cachorro morto, por mais que a defesa dos Lobos mostrasse o contrário. Gerd Müller, por exemplo, fez cinco gols em seis oportunidades pelo clube. Mas sempre contra times que ocupavam da oitava posição para baixo na liga ou de países mais fracos, caso do Omonia Nicósia na Champions 1972/73. Para o polonês, só será difícil igualar outra marca do velho artilheiro: Müller chegou a registrar dois jogos com cinco gols em menos de três meses. Trucidou o Hertha Berlim na última rodada de 1975/76 e repetiu a dose nos 9 a 0 contra o Tennis Borussia Berlim na quinta rodada da campanha seguinte.

ALEMANHA: Gerd Müller, (1965-1979), 555 jogos, 365 gols. Clubes: Bayern de Munique

– O momento do jogo

Lewandowski entrou em campo pressionado. Afinal, o Bayern perdia em casa para um adversário traumático. E, não fosse o capricho da trave no chutaço de Guilavogui, corria o risco de estar com dois gols de desvantagem. O herói entrou em campo para virar e golear. Situação diferente da maioria absoluta dos jogadores que, antes dele, fizeram cinco ou mais gols em um mesmo jogo da Bundesliga. Entre os 16 antecessores, apenas um buscou uma virada. E em episódio bastante atípico. Líder na 12ª rodada da temporada 1982/1983, o Borussia Dortmund recebeu o nono colocado Arminia Bielefeld e começou perdendo. Em três minutos, Manfred Burgsmüller já empatava. Ele fez cinco gols naquele dia, com os aurinegros goleando por 11 a 1. Foram nove gols só no segundo tempo – e, mesmo assim, sem a agilidade de Lewa.

– Lewandowski nunca tinha feito cinco gols

A missão não é simples. Cristiano Ronaldo, por exemplo, só marcou cinco gols em um mesmo jogo duas vezes, enquanto Messi tem apenas aquele 7 a 1 sobre o Bayer Leverkusen. Para Lewandowski, aos 27 anos, a marca é inédita. Ainda que o centroavante tenha registrado antes, em quantidade e em tempo, outras atuações que se aproximam desta. Em 2012, o polonês marcou quatro gols nas semifinais da Champions contra o Real Madrid. Em toda a história da competição continental, somente Ferenc Puskás havia atingido a marca em fases tão agudas: também fez quatro, na decisão de 1960. Além disso, no último mês de junho, Lewa conseguira um hat-trick relâmpago com a seleção polonesa. Entre os 44 e os 48 do segundo tempo, anotou três gols contra a Geórgia. Mas conseguiu ser ainda mais rápido desta vez.

– Participação letal

Lewandowski precisou receber a bola apenas oito vezes para anotar os cinco gols. Foram sete finalizações para completar a marca – sendo que, no terceiro, ele teve que tentar três vezes no mesmo lance, acertando antes a trave e parando em defesa de Benaglio. Não fosse isso, seu aproveitamento seria de 100%. Para efeito de comparação, Cristiano Ronaldo precisou de só seis chutes nos 6 a 0 sobre o Espanyol, mas recebeu a bola 37 vezes até fazer seu quinto gol. Contra o Granada, o camisa 7 arrematou 13 vezes e participou de 68 lances para inflar a goleada por 9 a 1. Já Messi, nos 7 a 1 sobre o Leverkusen, teve sete chutes e 107 recepções antes de completar o seu show. Números que mostram como a precisão nas finalizações, em geral, tem que ser alta para se fazer tantos gols. Mas Lewa, ao contrário dos dois craques, cumpriu o serviço de centroavante ao colocar a bola nas redes com bem menos toques.

Extra: isso sem contar a beleza

Ok, em três gols, Lewandowski teve mais o trabalho de se posicionar bem e não desperdiçar a chance. Mas ele foi além do papel de matador. No segundo, executou uma finalização cirúrgica de fora da área para vencer Benaglio. Já no quinto, emendou um voleio perfeito. Por si só, este último gol já bastaria para ganha as manchetes. Mas aconteceu na sequência de outros quatro, em menos de nove minutos. Guardiola teve todas as razões para ficar espantado. Vale rever: