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Zico, 60 anos: A passagem do camisa 10 pelo futebol europeu

Zico completa 60 anos de idade recebendo as devidas homenagens. Um craque que não se contentou em encantar apenas a maior torcida do país. O sucesso com a camisa da seleção brasileira pode não ter se consumado, o que não impediu que o camisa 10 do Flamengo conquistasse o carinho de torcedores de outros clubes. E também de outros países, em especial no Japão, onde foi, além de jogador e técnico, um embaixador do futebol.

Apesar do talento incontestável, a ida de Zico à Europa continua sendo um dos períodos mais controversos de sua carreira. Depois de 16 anos no Flamengo, tendo conquistado todos os títulos possíveis no clube e com duas Copas do Mundo no currículo, o camisa 10 foi se aventurar na Udinese. Uma passagem marcada pelas disparidades entre a primeira e a segunda temporada, mas que está longe de ser o fracasso retumbante apontado por muitos.

Ou Zico ou Áustria

zico esulta

Não à toa, Zico chegou cercado de expectativas a Udine. Era o segundo dos meio-campistas da seleção brasileira na Copa de 1982 a desembarcar na Itália. Juventus, Napoli e Roma também estavam entre os clubes interessados no rubro-negro, mas a Udinese levou a melhor na negociação. Os friulani não pouparam esforços para buscar o brasileiro e pagaram um valor recorde até então no país: seis milhões de liras (ou, em dólares, quatro milhões).

O Flamengo tentou evitar o negócio, buscando apoio de empresas ao ofertar um novo contrato a Zico. As cifras colocadas no cheque pelos italianos, no entanto, acabaram pesando. “Querem que eu fique com todo o peso pela venda do maior ídolo da história do Flamengo. Mas foi Zico quem me propôs sair, ele tem o dever de vir a público dizer isso”, declarou o então presidente do Fla, Antônio Augusto Dunshee de Abranches.

Era tanto dinheiro que o negócio chegou a ser anulado pela federação italiana, alegando que a Udinese não havia comprovado suas condições financeiras. A ida de Zico a outro clube europeu chegou a ser cogitada, com o Real Madrid encabeçando as especulações. Só depois da pressão política feita pela torcida – o slogan levantado era “Zico ou Áustria”, em referência ao domínio do Império Austríaco sobre a região durante o Século XIX – é que a transferência foi liberada, com o intermédio do presidente italiano, Sandro Pertini.

Embora Zico tenha sido acolhido pelos torcedores, o negócio também gerou críticas em Udine. Maior empresa de eletrodomésticos da Europa e acionista majoritária da Udinese, a Zanussi Spa havia demitido 4,5 mil funcionários dias antes da conclusão da transferência. A situação conflitante culminou com protestos de associações de trabalhadores, mas nada que impedisse a ida do jogador à Itália.

O auge em Udine


Como era de se esperar, Zico foi recebido como um rei pela torcida. E não demorou a justificar os milhões investidos em seu futebol. Logo na estreia no Campeonato Italiano, o meia conduziu a goleada por 5 a 0 sobre o Genoa, balançando as redes duas vezes e dando passes para mais dois tentos. Na rodada seguinte, os friulani se mantinham na ponta graças a mais uma atuação notável do Galinho: 3 a 1 sobre o Catania, com outros dois gols e uma assistência.

Ainda que Zico continuasse destoando, o bom início da equipe treinada por Enzo Ferrari não se manteve. Dona do terceiro melhor ataque da Serie A (47 gols marcados em 30 rodadas), a Udinese descompensava com a terceira pior defesa (40 gols sofridos) e encerrou a campanha na nona colocação, a duas vitórias da zona de classificação para a Copa da Uefa. Já na Copa da Itália, a sorte não foi diferente, com o time eliminado nas quartas de final pelo Verona.

Contudo, a irregularidade do clube não atrapalhou o sucesso de Zico em sua temporada de estreia. O brasileiro foi o vice-artilheiro da Serie A, anotando 19 gols em 24 partidas – e poderiam ser mais, não fosse uma lesão sofrida durante o segundo turno. Oito das 11 vitórias do clube no torneio contaram com ao menos um gol do camisa 10, que deixou sua marca em confrontos com os quatro primeiros colocados do campeonato naquele ano – Juventus, Roma, Fiorentina e Internazionale.

A adaptação rápida ao futebol europeu acabou reconhecida. Zico foi eleito o melhor jogador do mundo em 1983 pela revista World Soccer. O brasileiro recebeu 28% dos votos dos leitores, à frente de Michel Platini, Paulo Roberto Falcão, Diego Maradona e Karl-Heinz Rummenigge. O francês, inclusive, ganharia naquele ano a Bola de Ouro da revista France Football (na época, só europeus participavam do prêmio), registrando o quádruplo da pontuação de Kenny Dalglish, segundo colocado.

E a queda

zico-udinese

O rendimento de Zico, porém, caiu vertiginosamente em sua segunda temporada na Itália. Nem mesmo a chegada do técnico brasileiro Luís Vinício ajudou o Galinho a repetir o impacto alcançado nos meses anteriores. O meia anotou apenas três gols no certame e por pouco não amargou o rebaixamento, com a Udinese ficando apenas duas posições acima da zona da degola.

A baixa de Zico na temporada 1984/85, porém, é explicada pelas sucessivas lesões sofridas. Problemas musculares o deixaram quase quatro meses afastado dos gramados, permitindo que ele fizesse apenas 15 jogos na Serie A. Para piorar, a Itália vivia o inverno mais rigoroso em 100 anos. Em ranking elaborado pela revista Guerin Sportivo, o meia foi apenas o 15º melhor estrangeiro naquela temporada.

Além disso, sua situação fora dos gramados também era complicada. Zico foi acusado de sonegação de impostos e constituição ilícita de capital no exterior, tendo dois terços de seu salário suspenso e pagando 600 mil liras à justiça italiana. A própria transferência do jogador à Udinese teria sido fraudulenta, com um contrato subfaturado. Zico só seria absolvido do caso em 1988.

Diante de tantos problemas, a volta ao Flamengo em 1985 foi um alívio para o camisa 10, que ainda tinha seu nome ligado à Juventus e ao Torino. Os rubro-negros pagariam US$ 2,5 milhões aos italianos, além de comprometerem a renda de dez amistosos na Europa. Já o jogador teve que abrir mão de um bom dinheiro, recebendo um salário cinco vezes menor no Rio de Janeiro.

Apesar dos altos e baixos, Zico continuou sendo venerado pela torcida da Udinese. Em 2009, o veterano recebeu o título de cidadão honorário de Udine. E o aniversário de 60 anos do Galinho também não passou em branco, homenageado pelo clube com um programa especial (veja o segundo vídeo abaixo). Uma passagem que pode não ter rendido títulos aos friulani, mas deu aos torcedores um ídolo de proporções incomparáveis.

Confira os 22 gols de Zico na Serie A:

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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