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Serie A feminina é encerrada e técnica da Itália acusa clubes de usarem modalidade “apenas como imagem”

O fim antecipado da Serie A feminina deixou a técnica da seleção italiana, Milena Bertolini, bastante irritada. Na segunda-feira, 8, foi anunciado que ao contrário do masculino, o Campeonato Italiano feminino da temporada 2019/20 foi encerrado antecipadamente sem campeão e com as posições para competições europeias definidas como estavam antes da paralisação. Os jogos restantes foram simplesmente cancelados. A treinadora criticou os clubes por usarem o futebol feminino apenas para manter uma boa imagem.

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Os líderes do futebol italiano decidiram por encerrar a Serie A feminina com a tabela congelada, o que, assim, impede que a Juventus conquiste o título, mesmo em primeiro lugar com 44 pontos. A Fiorentina fica com a vaga na Champions League, mesmo empatada em pontos com o Milan, com 35. Para definir quem iria para a competição europeia, foi usado o controverso algoritmo.

Tudo isso em uma semana que o futebol italiano masculino será retomado, depois de ser permitido que os clubes voltassem a treinar. Mas treinar só para os homens. Só Juventus e Milan liberaram também as jogadoras para retomarem os treinamentos com vista de retomar também a temporada.

Isso acabou sendo inútil com o encerramento antecipado da temporada, algo que reforça o que algumas torcidas organizadas acusam de que o futebol só está sendo retomado como produto de TV, pelo dinheiro, não pelo esporte. E olha que o futebol feminino está sendo transmitido na TV italiana de forma como nunca foi antes, com diversos jogos passando na Sky, uma das principais emissoras esportivas do país.

Há um ano, no dia 9 de junho, a Itália surpreendia a Austrália na Copa do Mundo Feminina, na França. O time fez uma campanha histórica, que igualou a melhor posição da seleção italiana na história ao chegar nas quartas de final. O time da técnica Milena Bertolini acabou derrotado pela Holanda, que iria até a final para ser derrotada pelos Estados Unidos na final. A técnica tinha preparado uma surpresa em uma ligação por vídeo com as jogadoras que estiverem na Copa, mas o clima de alegria mudou.

“Para alguns clubes, o futebol feminino é apenas uma imagem”, criticou a técnica Bertolini em entrevista ao Corriere dela Sera. “Estou triste, decepcionada, furiosa. Eu preparei uma surpresa para as garotas, uma reunião pelo Zoom às 13h, o horário do início do nosso primeiro jogo na França, para memórias, anedotas e umas perguntas sobre a Copa do Mundo, quem mais acertasse, ganharia”, disse a treinadora.

“Todas elas estavam motivadas, mas havia muita amargura. Havia rostos tristes, especialmente daqueles que sofreram mais pela temporada ter sido cancelada. As jogadoras da Juventus, que não venceram o scudetto, as jogadoras do Milan, que viram a Fiorentina ir para a Champions League ao invés delas”, declarou ainda a treinadora. “E pensar que Juve e Milan foram os únicos dois clubes que permitiram o retorno ao treinamento depois do lockdown… É um paradoxo”.

A boa campanha da Itália na Copa, com um desempenho bastante promissor em campo, fez com que Bertolini fosse uma voz importante que pedia a profissionalização do futebol italiano desde o fim da participação italiana na Copa. Ela citava as ligas concorrentes, como a Espanha, Inglaterra e a própria Holanda. Para ela, os eventos recentes, com o cancelamento da temporada, ameaçam jogar fora todo o bom trabalho feito até aqui.

“Aquele time veio de duas temporadas de trabalho duro. Infelizmente, certos interesses fizeram com que o bem geral fosse perdido de vista. Na Itália, não há uma visão ampla do futebol feminino: você não pode deixar as jogadoras fora do centro de treinamento por seis meses”, criticou ainda Bertolini.

“Os outros países estão se movendo mais rápido que nós. Eles não estão esperando por nós. Se nós não colocarmos as garotas em igualdade de condições, o futebol italiano arrisca perde-las. A Itália ainda está atrasada em nível cultural e não faz mais sentido implorar por coisas que temos direito”, continuou a técnica da seleção italiana. “O futebol feminino merece ser profissional. Ponto”.

O ministro do esporte da Itália, Vincenzo Spadafora, afirmou que uma das mudanças estruturais que pretendia fazer neste verão europeu seria a profissionalização completa do futebol feminino italiano. Hoje, apenas algumas jogadoras são profissionais, alguns clubes. A ideia de profissionalizar completamente é algo que deve ser feito antes da próxima temporada.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.
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