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Os 50 anos de um Scudetto histórico: o Cagliari de Gigi Riva, que colocou a Sardenha no mapa da bola

Há 50 anos, a humilde e esquecida Sardenha se tornava a capital do futebol italiano: o Cagliari, filho dileto da terra, colocava-se acima dos gigantes do Calcio e conquistava um histórico Scudetto ao derrotar em casa o Bari, em seu velho Estádio Amsicora, sob o comando do lendário Manlio Scopigno. O título, vindo com duas rodadas de antecedência, premiava uma equipe muito sólida na defesa e talentosa do meio para a frente, onde vários grandes personagens se destacavam e, mais do que todos, brilhava a categoria exuberante de Luigi “Gigi” Riva.

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Os primeiros anos na elite

Solitária força expressiva do futebol sardo (é o único a ter ido além da terceira divisão nacional), o Cagliari foi fundado em 1920 e começou sua trajetória no Calcio disputando as competições locais da Sardenha. Com a reestruturação do Campeonato Italiano e a criação das Series A e B, obteve em 1931 o acesso à segunda categoria, mas não teve destaque nem conseguiu arcar com a disputa, tendo sua falência decretada quatro anos depois.

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Refundado, teve de recomeçar das categorias regionais. Obteve o acesso à Serie C em 1937, mas teve de abandonar a disputa quando da deflagração da Segunda Guerra Mundial, em decorrência da dificuldade de se deslocar para o continente. Com o fim do conflito, passou a oscilar entre as Series B e C entre 1947 e 1964, ano em que concluiu uma escalada meteórica rumo à elite do Calcio, duas temporadas após ter subido da terceira para a segunda divisão.

No dia 14 de junho de 1964, o empate em 1 a 1 na visita à Udinese pela penúltima rodada da Serie B garantiu o acesso inédito da equipe comandada por Arturo Silvestri. O gol dos rossoblù – que encaminhou a promoção confirmada, com as derrotas de Lecco e Padova na mesma rodada – foi marcado por um atacante de 19 anos chamado Luigi Riva, que aportara no clube naquela temporada vindo do Legnano, onde se profissionalizara no ano anterior.

O brasileiro Nenê

A chegada à Serie A também permitia ao clube contar pela primeira vez em sua história com jogadores estrangeiros. Um dos primeiros contratados foi o ponteiro peruano Alberto Gallardo, trazido do Sporting Cristal. O outro seria um brasileiro, o atacante Nenê, revelado pelo Santos (no qual por vezes substituíra Pelé) e contratado pela Juventus no ano anterior, mas que nunca conseguiu se firmar em Turim. Na Sardenha, ele se reinventaria.

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Apesar disso, a temporada de estreia na Serie A começou mal. Na 14ª rodada, após uma goleada de 4 a 0 para o Torino no Comunale, o Cagliari era o lanterna do campeonato com apenas uma vitória. Na virada do turno, porém, a equipe iniciou uma reação espetacular: dos 17 jogos até o fim da campanha, venceu 12, incluindo triunfos em casa sobre Milan, Juventus, Roma e Lazio e um categórico 3 a 1 na visita ao Bologna, detentor do Scudetto.

A sétima colocação foi considerada ótima para um estreante. E o clube parecia seguir pelo mesmo bom caminho na temporada seguinte, mas uma sequência ruim na reta final acabou fazendo com que a permanência na elite fosse assegurada apenas na última rodada. De qualquer forma, isso não impediu a convocação do meia Francesco Rizzo para a seleção italiana que disputaria a Copa do Mundo na Inglaterra (e Riva também esteve perto de ser chamado).

O técnico SIlvestri, no entanto, não resistiu a uma proposta do Milan e deixou o clube, sendo substituído por outro que marcaria a história do Cagliari: Manlio Scopigno fizera bom trabalho no Lanerossi Vicenza e levara o Bologna ao vice italiano em 1966, a quatro pontos da Inter de Helenio Herrera. O fato de o treinador ter aceitado deixar a Emilia-Romanha para embarcar no projeto dos sardos revelava a ambição do Cagliari em buscar posições mais acima na tabela.

O técnico Manlio Scopigno

E a equipe de fato largou de modo impressionante na temporada 1966/67. Nos sete primeiros jogos não sofreu nenhum gol e ainda aplicou um 4 a 0 sobre o próprio Bologna. Embora o time acabasse se distanciando da briga pelo título devido ao excessivo número de empates (14 em 34 partidas), conseguiu superar sua melhor colocação anterior terminando em sexto, a nove pontos da campeã Juventus, invicto em casa e com a defesa menos vazada da competição.

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Aquela temporada também marcara a chegada ao clube do centroavante Roberto Boninsegna, jovem que havia despontado no Varese um ano antes e que viera para resolver a carência de um homem de área da equipe. Por outro lado, o peruano Gallardo havia deixado o clube, voltando para a América do Sul, onde teria passagem pelo Palmeiras. E seria com ele e ainda com Scopigno que o clube viveria um episódio curioso de sua história.

Em meados de 1967, o Cagliari embarcou para os Estados Unidos, onde havia sido convidado para disputar o torneio da United Soccer Association, entidade que buscava impulsionar o futebol profissional naquele país, mas que, sem conseguir recrutar jogadores a tempo, decidiu importar equipes inteiras de vários países (entre eles o Bangu e o Wolverhampton) para fazer as vezes das franquias criadas – os sardos, no caso, representariam o Chicago Mustangs.

Scopigno, porém, deixou o clube logo após a aventura norte-americana para aceitar oferta curiosa da Inter, na qual ele receberia sem trabalhar, apenas para ficar a postos caso Helenio Herrera deixasse o clube. Após passar um ano como uma espécie de “estepe” nerazzurro, ele retornaria ao Cagliari praticamente continuando de onde parou, depois que seu substituto, o ítalo-uruguaio Héctor (ou Ettore) Puricelli, levara o clube a um mediano nono lugar em 1967/68.

Nenê, Albertosi, Niccolai, Domenghini e Riva; Martiradonna, Brugnera, Gori, Zignoli, Cera e Greatti

Um dos primeiros atos do novo comandante foi concretizar uma troca que marcou época com a Fiorentina: Francesco Rizzo seguiria para a Toscana, enquanto aportavam na Sardenha o ponteiro Mario Brugnera e o goleiro Enrico Albertosi, 29 anos de idade e que já somava então 18 partidas defendendo a meta da seleção italiana, tendo sido titular na Copa do Mundo de 1966 e reserva no Mundial de 1962 e na recém-conquistada Eurocopa de 1968.

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Curiosamente, a disputa pelo Scudetto logo na temporada seguinte ficaria exatamente entre as duas equipes. Num primeiro momento, o Cagliari parecia ter levado a melhor, alcançando a liderança da Serie A na oitava rodada e permanecendo mais de quatro meses na ponta. Porém, a Fiorentina do brasileiro Amarildo atropelaria na reta final da disputa, faturando o segundo título de sua história com uma rodada de antecedência, tendo os sardos em segundo.

Os clubes voltaram a “trocar figurinhas” no calciomercato antes da temporada seguinte. Lateral-esquerdo por lateral-esquerdo: Giuseppe Longoni seguiu para Florença enquanto Eraldo Mancin reforçou os rossoblù. Mas a negociação que chamou mais a atenção é com a Inter: para contar com o goleador Roberto Boninsegna, os nerazzurri cederam o ponta Angelo Domenghini, da seleção, e o centroavante Sergio “Bobo” Gori, reserva sem muito espaço em Milão.

O time-base campeão

Se Mancin não chega a se firmar, os outros dois nomes terão vaga cativa na equipe titular dos sardos, que começava com Enrico Albertosi sob as traves, um arqueiro de primeiro nível que enfim encerrara a instabilidade vivida pela equipe na posição. Na lateral-direita, o sério Mario Martiradonna, 31 anos, no clube desde os tempos da Serie B, é um marcador tenaz. Já pela outra faixa, Giulio Zignoli, revelado pelo Milan, tem mais liberdade de apoio.

O miolo da defesa é que opera de maneira singular: os centrais Comunardo Niccolai e Giuseppe Tomasini marcam por zona, algo raro no Calcio de então, acostumado a uma dupla formada por stopper (que colava no centroavante adversário) e líbero (atuando na sobra). Este último papel é cumprido no time por Pierluigi Cera, postado à frente da defesa, à moda de Franz Beckenbauer. No clube desde a estreia na elite, é o técnico dentro das quatro linhas.

No meio-campo, havia ainda Ricciotti Greatti, cão de guarda do setor e outro nome no clube desde os tempos da Serie B, além da qualidade técnica do brasileiro Nenê, armador alto, elegante e talentoso. O trio atacante também esbanjava talento: Angelo Domenghini descia furiosamente pela ponta direita e marcava muitos (e belos) gols. Já Sergio Gori era um centroavante técnico, que gostava de tabelar e abrir espaços. E então havia Luigi “Gigi” Riva.

O adorado Gigi Riva, lenda do Cagliari

Sem dúvida o maior jogador da história do clube e um dos melhores atacantes italianos de todos os tempos, Riva merece um capítulo à parte. Trazido do Legnano em 1963, ele passaria 13 anos no Cagliari, onde se tornaria um atacante completo: habilidoso, rápido, inteligente, dono de um forte chute de pé esquerdo, bom cabeceador, bom porte físico e sobretudo grande artilheiro, mesmo jogando como 11, o segundo homem de frente do “gioco à italiana”.

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Naquele fim dos anos 1960, o jogador apelidado de “Ronco do Trovão” pelo lendário jornalista italiano Gianni Brera vivia seu auge. Havia sido decisivo no título da Itália na Eurocopa de 1968 jogada em casa e desde então tinha vaga cativa na Azzurra (da qual ainda hoje é o maior artilheiro em todos os tempos), mesmo atuando em um clube pequeno. E se sagrara o goleador da Serie A em duas das últimas três temporadas (1966/67 e 1968/69).

Se Riva era a referência técnica natural dentro de campo, a grande mente por trás daquele time era Manlio Scopigno, um friulano de 44 anos ao início da temporada do Scudetto. Homem de poucas palavras, não gostava de conversar sobre futebol, embora tivesse feito carreira como jogador, defendendo Napoli e Salernitana entre outros clubes. Sua paixão – que lhe renderia o apelido de “Filósofo” – eram as artes, em especial a pintura.

Dono de um senso de humor cáustico e de um gosto por tiradas curtas e mordazes, proferidas tanto à imprensa quanto a seus jogadores, Scopigno não se importava se os jogadores bebessem ou fumassem, caso fosse a compensação para que mostrassem em campo um futebol definido pelo ponteiro Angelo Domenghini como “bonito, autêntico, simples, eficaz e divertido”. O técnico fazia questão apenas da pontualidade nos treinos e da aplicação em campo.

A caminhada até o Scudetto

O campeonato teve seu pontapé inicial no dia 14 de setembro de 1969. De saída, o Cagliari ficou no 0 a 0 com a Sampdoria em Gênova. Uma semana depois, na Sardenha, a bela jogada individual de Domenghini abriu caminho para a primeira vitória, 2 a 1 no Lanerossi Vicenza, consumada com um toque sutil de Riva por sobre o goleiro. Os mesmos jogadores marcaram nos 2 a 0 diante do Brescia, fora de casa. E Brugnera deu a vitória de 1 a 0 sobre a Lazio.

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A Fiorentina começou o certame como havia terminado o anterior, na ponta, vencendo seus quatro primeiros jogos. Mas isso até o confronto contra os sardos em Florença na quinta rodada, em 12 de outubro. Riva converteu um pênalti para os visitantes, marcado após um empurrão na área, e o Cagliari assumiu a liderança em partida tumultuada, na qual Amarildo e Martiradonna acabaram expulsos pelo árbitro Concetto Lo Bello.

O jogo seguinte, contra a Inter no Amsicora, também se transformara em uma pequena decisão, já que os nerazzurri vinham na segunda colocação, apenas um ponto atrás. E assim continuaram após o empate em 1 a 1. O espanhol Luis Suárez abriu a contagem para os visitantes logo aos sete minutos. Mas no segundo tempo, aos cinco, em bola alçada para a área, o brasileiro Nenê subiu mais que toda a defesa interista e cabeceou a igualdade para as redes.

Gigi Riva foi o grande destaque do jogo seguinte, um importante triunfo sobre o Napoli em pleno San Paolo por 2 a 0. O camisa 11 aproveitou uma bola que Dino Zoff não segurou para marcar o primeiro e, a dez minutos do fim, foi lançado no meio da defesa napolitana para outra vez fuzilar o arqueiro dos partenopei. E em 9 de novembro, no Amsicora, um belo gol de Nenê deu a vitória sobre a Roma por 1 a 0 e fez o Cagliari abrir quatro pontos na liderança.

A diferença, porém, encurtou na rodada seguinte. O Cagliari saiu na frente da Juventus em casa com gol de Domenghini, mas sofreu o empate com o zagueiro Antonello Cuccureddu no último minuto. Já a Fiorentina – que logo após a derrota para os sardos foi surpreendentemente goleada pela Lazio por 5 a 1, antes de parar num 0 a 0 com o Torino e ceder um 2 a 2 ao Bologna após abrir dois gols de frente – voltou a vencer, fazendo um tranquilo 3 a 0 no Bari.

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A Viola voltaria a ficar para trás na rodada seguinte ao perder para a Juve em Turim (2 a 0) e seria ultrapassada pela Inter, que bateu com facilidade a Lazio por 3 a 0. Mas o Cagliari se viu em apuros na visita ao Verona, que saiu na frente num gol contra de Domenghini. Somente a seis minutos do fim, um gol chorado de Greatti em uma bola que pipocou na área após escanteio, os sardos alcançariam a igualdade para se manterem três pontos à frente.

Após três partidas sem balançar as redes, Riva voltou a ser decisivo para o Cagliari na vitória de 1 a 0 sobre o Bologna no Amsicora, em 7 de dezembro. E o time voltou a aumentar um ponto em sua vantagem depois que a Fiorentina derrotou a Inter por 2 a 0 no confronto direto, com gols do ex-sardo Rizzo e de Luciano Chiarugi, recuperando a segunda posição. O que não se esperava, porém, era um tropeço na partida seguinte, diante do lanterna do campeonato.

No confronto entre Sardenha e Sicília, o Palermo fez valer o mando de campo e levou a melhor com um gol do centroavante Gaetano Troja, infiltrando-se no meio da defesa e mergulhando num peixinho. Sorte dos sardos que a Fiorentina também tropeçou em casa ao ceder um 2 a 2 à Roma e agora dividia a vice-liderança, três pontos atrás, com a Inter e o surpreendente Lanerossi Vicenza, do atacante-revelação Alessandro Vitali.

Tempo de mudanças

Aquela derrota em Palermo seria marcante também por outro motivo: no segundo tempo, Paolo Toselli, árbitro da partida, anularia um gol de Riva ao marcar impedimento de Martiradonna, que caíra perto da bandeirinha de escanteio após se chocar com um adversário. Revoltado, Manlio Scopigno abriu o verbo contra o juiz assistente de linha após o lance e novamente ao fim do jogo. Pelas ofensas, levou um gancho de cinco meses, logo reduzido para quatro.

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De todo modo, Scopigno não pareceu se importar. “O técnico no banco não conta. O Cagliari não sofrerá. Estarei ausente apenas aos domingos, mas continuarei a comandar os treinos e a escalar o time. E, além do mais, o jogo é melhor visto da arquibancada”, argumentou o treinador, que em outra entrevista chegou a brincar: “Melhor assim. O inverno está chegando e a arquibancada é mais quente do que o banco de reservas”.

Um empate sem gols contra o Bari fora de casa, seguido pelo 1 a 1 diante do Milan no Amsicora, valeram ao time – dirigido na beira do campo pelo auxiliar técnico Ugo Conti – o título de campeão de inverno com uma rodada de antecipação. Contra os rossoneri (agora também vice-líderes ao lado de Fiorentina, Juventus e Inter), Riva acertou um chutaço em cobrança de falta logo aos quatro minutos, mas Pierino Prati deixou tudo igual aos 26 minutos da etapa final.

Além de ajudar a equipe a se manter na liderança, a vitória sobre o Torino por 2 a 0 no Amsicora pela última rodada do turno, em 4 de janeiro, também serviu para que o centroavante Sergio Gori finalmente desencantasse na competição, completando de cabeça uma bola escorada por Domenghini após levantamento na área. E também daria início a uma sequência de grandes vitórias naquele início de ano, com 14 gols marcados em cinco partidas.

O time abriu o returno goleando a Sampdoria por 4 a 0, num recital de seu ataque: Domenghini abriu e fechou o placar, com Riva e Gori também indo às redes. Em seguida, na visita ao perigoso Lanerossi Vicenza, o destaque foi Gigi Riva anotando os dois (um deles em espetacular bicicleta) na vitória por 2 a 1. Já a partida contra o Brescia marcou a principal alteração no time titular feita por Scopigno ao longo da campanha e que trazia grandes implicações táticas.

O golaço de Riva contra o Vicenza

O zagueiro Tomasini, que saíra lesionado do jogo com a Sampdoria, deixou o time. Cera manteve-se como líbero, mas agora atuando atrás da defesa, abrindo espaço para Brugnera entrar como meia ofensivo. E Nenê passou a jogar um pouco mais recuado, controlando o meio-campo e distribuindo o jogo. O impacto foi imediato: mais uma goleada de 4 a 0, com dois gols do novo titular, um de Gori e outro de Riva, que assumia a liderança da artilharia.

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No jogo seguinte, contra a Lazio em Roma, Domenghini e Riva voltaram a comandar as ações: o ponta-direita abriu o placar com um chutaço do bico da grande área e o camisa 11 sacramentou a vitória por 2 a 0 com um belo sem-pulo. Porém, após um empate a zero no jogo de volta contra a Fiorentina, o time sofreria sua segunda derrota na visita à Inter: Boninsegna, em bola rolada na cobrança de falta a seis minutos do fim, decretou a “lei do ex” em Milão.

O resultado foi muito comemorado pela Juventus, que havia chegado a ser a 13ª colocada entre 16 clubes após a oitava rodada, mas agora alcançava a vice-liderança, apenas um ponto atrás dos rossoblù, faltando nove partidas para o fim da competição. Uma rodada depois, porém, os sardos se recuperaram batendo o Napoli em casa por 2 a 0, mais uma vez com gols de Domenghini e Riva, enquanto a arrancada da Velha Senhora começava a se esvair.

No jogo seguinte, diante da Roma no Estádio Olímpico, o Cagliari saiu atrás com gol do espanhol Joaquín Peiró, mas arrancou o empate na raça ainda no primeiro tempo com tento de Domenghini. Uma semana depois, em 15 de março, era a vez de encarar a Juventus – ainda vice-líder, dois pontos atrás – dentro do Comunale de Turim numa partida que poderia reabrir a disputa pelo título em caso de vitória dos bianconeri. O que quase aconteceu.

A reta final

No confronto cercado de expectativas e que recebeu antes do início o epíteto de “jogo do ano”, a Juve saiu em vantagem aos 29 minutos, quando Niccolai anotou um de seus folclóricos gols contra, cabeceando para as próprias redes uma bola cruzada que já parecia a caminho das mãos de Albertosi. Pouco antes do intervalo, porém, Gigi Riva se aproveitou de confusão na área após escanteio e empatou também em cabeçada, anotando seu 16º gol.

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Na etapa final, Albertosi defendeu pênalti batido pelo alemão Helmut Haller, mas o árbitro Lo Bello mandou repetir, alegando que o arqueiro do Cagliari se adiantara. A Juve trocou o batedor e Anastasi converteu aos 21 minutos, deixando os donos da casa na frente. Até que a oito minutos do fim foi a vez de Riva sofrer pênalti ao ser puxado por Sandro Salvadore. Ele próprio bateu e, embora o goleiro Roberto Anzolin tenha tocado na bola, ela morreu nas redes.

Na rodada seguinte, a vantagem do Cagliari voltou aos quatro pontos depois que o time superou o Verona por 1 a 0 no Amsicora, graças a um gol de pênalti de Riva, enquanto a Juventus caía na visita à Fiorentina por 2 a 0. A distância, porém, cairia para três pontos após o empate sem gols contra o Bologna fora de casa, no mesmo domingo de Páscoa – 29 de março – em que Inter e Juventus bateram, respectivamente, Fiorentina e Milan, ambos por 3 a 0. 

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Uma semana depois, o Cagliari se vingava do Palermo vencendo em casa por 2 a 0 com um gol de Riva, de cabeça, e outro de Nenê. Com esse resultado a três rodadas do fim, o título poderia ser confirmado dali a uma semana, caso o time derrotasse o ameaçado Bari jogando novamente no Amsicora e a Juventus perdesse na capital para a despreocupada Lazio, que acabara de se salvar matematicamente do descenso. Um cenário possível.

E que se concretizaria. A Velha Senhora, que na rodada anterior penara para vencer o lanterna Brescia com um gol de Anastasi nos acréscimos, não teve forças para superar os biancocelesti no Estádio Olímpico, perdendo por 2 a 0. Seria o mesmo placar do tranquilo triunfo dos rossoblù em casa diante dos galetti. Antes do início, os jogadores foram à beira do campo jogar flores à torcida. Após os 90 minutos, seriam os responsáveis pelo êxtase na ilha.

A comemoração do título em 1970

Riva abriu o placar aos 39 minutos, completando uma cobrança de falta lançada para a área com um peixinho sensacional, bem no canto do goleiro Giuseppe Spalazzi. E a dois minutos do fim, “Bobo” Gori gingou duas vezes à frente do zagueiro Vittorio Spimi antes de fuzilar novamente o arqueiro. A emocionada volta olímpica marcou ainda a despedida do velho Estádio Amsicora, prestes a ser trocado pelo Sant’Elia, então em fase final de construção.

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Pela primeira vez o Scudetto seguia para a Sardenha, uma região da qual se dizia “de bandidos e pastores de ovelhas” toda vez que o Cagliari jogava no norte cosmopolita do país, como mencionou Gigi Riva ao recordar a conquista. Nesses jogos, aliás, o clube era frequentemente seguido por sardos pobres expatriados que trabalhavam em países próximos (Alemanha, Bélgica, Suíça) e que retornavam à Itália para apoiar a brava equipe de sua terra de origem.

E a campanha se encerraria justamente em Milão e Turim: primeiro com um empate sem gols diante do Milan no San Siro e, por fim, com uma goleada categórica por 4 a 0 diante do Torino, sétimo colocado. Domenghini abriu o placar, Gigi Riva anotou dois para fechar em 21 tentos seu total de artilheiro no campeonato e Gori fechou a contagem em uma bela jogada individual, que simbolizava o futebol alegre e ofensivo daquela equipe.

Sem, no entanto, descuidar da defesa. Pelo contrário, os meros 11 gols sofridos em 30 partidas estabeleceram um recorde ainda não superado: é o melhor desempenho defensivo da história da Serie A, tanto em números absolutos quanto na média. O Cagliari foi ainda o time que mais venceu (17 jogos) e menos perdeu (duas derrotas). Foi quem mais pontuou em ambos os turnos. Teve a melhor campanha em casa e fora. Uma conquista indiscutível.

O pós-Scudetto

Com tanta qualidade em todos os setores, não seria de se estranhar que seis atletas fossem convocados pela Itália que seria vice-campeã na Copa de 1970: Albertosi, Cera, Domenghini e Riva foram titulares em todas as partidas. Niccolai começou jogando a estreia contra a Suécia, antes de sair lesionado. E Gori entrou durante o jogo contra o México. Todos atuaram na melhor campanha da Azzurra em Mundiais desde os títulos de 1934 e 1938.

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A temporada seguinte, no entanto, seria de triste memória: em 31 de outubro de 1970, na partida da Itália contra a Áustria em Viena pelas Eliminatórias da Eurocopa, Gigi Riva fraturaria a perna, ficando mais de quatro meses longe dos gramados. O Cagliari, que eliminara o Saint-Étienne na primeira fase da Copa dos Campeões e vencera o Atlético de Madrid em casa por 2 a 1 no jogo de ida das oitavas, sentiu o abalo e caiu na Espanha por 3 a 0.

O impacto da ausência de seu maior craque seria sentido também na Serie A, na qual o time despencaria da liderança inicial para terminar em sétimo. Haveria um pequeno renascimento na campanha seguinte, quando os rossoblù arrancariam na reta final e de novo brigariam pelo Scudetto, ficando em quarto, a quatro pontos da campeã Juventus. Mas Manlio Scopigno decidiria encerrar seu ciclo na Sardenha, e o time aos poucos seria desmanchado.

Nas três temporadas seguintes, o Cagliari terminaria em oitavo, décimo e de novo décimo lugar. Para 1975/76, apenas cinco jogadores do elenco do Scudetto seguiam no clube, entre eles Nenê e Riva, que se aposentariam ao fim da melancólica campanha do rebaixamento, decretado por uma goleada de 5 a 1 para o futuro campeão Torino no Comunale, ainda a duas rodadas do fim do campeonato. Inegavelmente, tratava-se do triste fim de uma era.

Além de colaborações periódicas, quinzenalmente o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas. Para visualizar o arquivo, clique aqui.

Confira o trabalho de Emmanuel do Valle também no Flamengo Alternativo e no It’s A Goal.

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Emmanuel do Valle

Além de colaborações periódicas, quinzenalmente o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas.

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