Serie A

O Superman volta para casa: Buffon é anunciado como reforço do Parma 20 anos depois de sua saída

Buffon assinou por mais dois anos com o Parma e ajudará na retomada do clube após o rebaixamento

Gianluigi Buffon parece pronto a escrever o último capítulo de sua gloriosa carreira da maneira mais bela: de volta às origens. O garoto prodígio que surgiu aos 17 anos na meta do Parma entraria para a história da Serie A. Gigi vestiu a camisa gialloblù até os 23 anos, quando assinou com a Juventus e se confirmou como um dos goleiros mais vitoriosos de todos os tempos. E duas décadas depois, aos 43 anos, o Superman reata esses laços. Nesta quinta-feira, o Parma anunciou a contratação de Buffon, que fechou com o clube até junho de 2023. O veterano já tinha deixado claro que não estava disposto a pendurar as luvas e vai auxiliar os Crociati na Serie B em busca do retorno à elite. Poesia é pouco.

A volta de Buffon ao Parma já era aventada há mais tempo. Quando a lenda teve sua pouco frutífera passagem pelo Paris Saint-Germain, alguns até pensaram que seu retorno à Itália poderia ser rumo ao Ennio Tardini. Os gialloblù acabavam de se reconstruir da quarta à primeira divisão e teriam um reforço enorme com o goleiro. Gigi, entretanto, aceitou a proposta da Juventus e quebraria mais alguns recordes em Turim, mesmo permanecendo como reserva de Wojciech Szczesny na maior parte do tempo. Mas, se ao final desta temporada ficou decidido que a caminhada na Velha Senhora se encerraria, o Superman ainda permaneceria na ativa.

O Parma, então, abriu as portas novamente. Se quisesse, Buffon certamente poderia conseguir um contrato gordo no exterior e encher um pouco mais seus bolsos de dinheiro. Desde o princípio, indicou que preferia ficar na Itália. Sua adiada aposentadoria não é uma questão de grana, mas sim de necessidade de viver sua paixão e de conviver no ambiente competitivo dentro dos vestiários. E isso teria no Ennio Tardini, num clube que tenta se reconstruir na Serie B depois de uma temporada bastante fraca, que culminou no rebaixamento. Lá vai um dos melhores goleiros da história jogar a segundona de novo. O prazer facilmente é perceptível quando o veterano, em seu anúncio, fala em “se divertir” de novo com os Crociati.

Dá até para pensar que tudo ficaria mais grandioso se o Parma ainda tivesse permanecido na Serie A. Mas se o momento mais honroso da carreira de Buffon foi permanecer na Juventus mesmo depois do rebaixamento em 2006, ele parece contente em escrever uma segunda parte dessa história. Abraça a empreitada com os gialloblù para recolocá-los mais uma vez na primeira divisão e firmar a reconstrução a partir da quarta divisão. E o ponto final de Buffon não deve ser apenas a promoção, afinal. O contrato de dois anos indica que ele ainda busca estar na elite com os Crociati. A quem pretende jogar até os 44 anos, vê-lo também na primeira divisão com 45 nem mais surpreenderá. Não dá para duvidar disso, considerando seu empenho nos treinos e a boa forma ainda apresentada quando jogou pela Juve nos dois últimos anos.

O ambiente do Parma que Buffon encontrará é bastante diferente dos anos 1990. Nos primórdios de sua carreira, o goleiro surgiu num clube com poder de compra, graças ao dinheiro injetado pela Parmalat. E que, afinal, conquistou títulos contando com a segurança do novato. Em suas seis temporadas como profissional no Ennio Tardini, o Superman faturou Copa da Uefa, Copa da Itália e Supercopa Italiana, além de ter sido vice da Serie A. Acumulou 220 partidas e ganhou suas primeiras convocações à seleção italiana. Até por isso o então jovem se valorizou tanto quanto a Juve resolveu levá-lo.

Graças a esse período com Buffon e outros craques, o Parma permanece na memória afetiva de muitos torcedores. Mas é uma agremiação que passou por muitas transições nos últimos anos, mesmo com a ascensão meteórica a partir da falência, e que tenta acertar os ponteiros para uma estadia mais longa na Serie A. É nisso que Gigi tentará ajudar, não apenas pelo talento em campo, mas também pela experiência. Certamente sua contribuição irá muito além daquilo que produzirá sob as traves.

Certo deslumbramento de Buffon na volta foi relatado por Javier Ribalta, diretor esportivo do Parma: “Desde o primeiro momento, compartilhei com Gigi a ideia de voltar ao Parma. Compreendi olhando em seus olhos como era emocionante para ele. Ele está comprometido, quer trabalhar, conhece esse lugar – Parma é sua casa. Temos orgulho em poder contar com ele. Vê-lo voltar ao clube onde sua incrível carreira começou será algo bonito, e sabemos que ainda há mais páginas para escrever em sua história”.

Em tempos de Superliga Europeia tão latente na Juventus, a volta de Buffon ao Parma tem um quê de resposta. Também tem um quê de poesia. E parece completar as diferentes facetas de um dos melhores goleiros da história. Nestes 26 anos na ativa, Gigi já foi o prodígio, já foi o intransponível, já foi o campeão do mundo, já foi o protagonista da reconstrução, já foi o multicampeão interminável. O lendário sempre vai ser. E esta última versão no Ennio Tardini talvez seja a mais apaixonada, daquele cara que não consegue se desgrudar da bola e que deseja vivenciar o futebol independentemente do glamour. Muita gente sorri com o Superman de volta aos gialloblù. Talvez seja o momento da trajetória em que Buffon pareça mais próximo da gente, o mais humano e fanático por futebol, depois de ter se feito eterno tantas e tantas vezes.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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