Serie A

O adeus a Boniperti: muito mais que uma lenda da Juventus, o homem que melhor representou o significado do clube

“A Juventus não era o meu time do coração, mas meu próprio coração”

Há homens que encarnam clubes de futebol. No caso da Juventus, Giampiero Boniperti foi o mais próximo de uma transfiguração daquilo que os bianconeri representam. Em campo, um craque que se reinventou e marcou diferentes períodos vitoriosos da Velha Senhora. Fora dele, um dos dirigentes mais longevos e importantes da agremiação. Para sempre um sinônimo do que é a Juve, por uma dedicação ininterrupta que perdurou ao longo de 48 anos. A imagem de Boniperti com a braçadeira de capitão e a camisa listrada poderia servir de escudo ao clube. E será essa identificação que permeará a sua memória, de quem realmente viveu o dia a dia da equipe com máxima entrega. Nesta sexta, aos 92 anos, Boniperti faleceu por uma parada cardíaca. Vira a memória de uma história que os juventinos seguirão experimentando por muito tempo.

Boniperti corresponde à ascensão da Juventus após a Segunda Guerra Mundial. O garoto chegou ao clube em 1946, logo depois de passar por pequenas equipes locais. A Velha Senhora era uma equipe importante na Serie A, com direito a um pentacampeonato nacional durante a década de 1930. Porém, quem mandava no Calcio nos anos 1940 era o rival Torino. Enquanto a Itália se rendia ao talento de Valentino Mazzola e seus companheiros grenás, Boniperti representaria exatamente a esperança de dias melhores para a Juve. Não demorou para emplacar na equipe principal juventina.

A estreia de Boniperti aconteceu em março de 1947, quando tinha 18 anos. Era visto como um ponta direita veloz e habilidoso. Na temporada seguinte, o novato já tomou a posição de titular na Juventus. E o técnico argentino Renato Cesarini, um dos responsáveis por montar La Máquina do River Plate antes de se mudar a Turim, perceberia como o adolescente poderia ser ainda mais letal atuando como centroavante. Foi um acerto e tanto. A Juve ainda não conseguiu pegar o Torino na Serie A 1947/48, mas o artilheiro seria exatamente Boniperti, com 27 gols. Já na temporada seguinte, o atacante assinalou 15 tentos, numa campanha em que seu maior momento foi exatamente vestindo a camisa grená. Depois da Tragédia de Superga, o centroavante participou de um amistoso em homenagem às vítimas, com os melhores jogadores em atividade no Campeonato Italiano defendendo o Torino. O gesto era muito maior que qualquer rivalidade.

O trono da Serie A ficou vago com a tragédia ocorrida com o Torino. Seria ocupado pela Juventus, que conquistou o Scudetto em 1949/50. Boniperti seria um dos protagonistas na campanha, jogando como homem de referência, mas dando muita mobilidade à linha de frente. Era um ataque potente o da Juve, no qual ainda apareciam nomes como os dinamarqueses John Hansen e Karl Aage Praest, além do argentino Rinaldo Martino mais atrás. Boniperti acumulou 21 gols, num campanha demolidora em que os bianconeri totalizaram 100 tentos sob as ordens do técnico inglês Jesse Carver.

Boniperti chegou em alta para a Copa do Mundo de 1950, mas a Itália se reconstruía depois de perder sua base com a Tragédia de Superga. A equipe sentia as ausências e não faria uma boa campanha no Mundial do Brasil. Se a trajetória do atacante pela Azzurra não teria grandes conquistas, ele voltaria a desfrutar do sucesso com a Juventus. Boniperti levou mais um Scudetto em 1951/52, quando os bianconeri mantinham o talento dinamarquês à frente – formando um trio nórdico com a chegada de Karl Aage Hansen. Depois de serem superados pelo Milan na campanha anterior, os juventinos mais uma vez contaram com o poder de fogo de Boniperti, autor de 19 gols. Aquela conquista, entretanto, antecedeu períodos mais instáveis em Turim. Levaria um tempo para que o clube recuperasse a taça.

Em 1952, Boniperti virou capitão da seleção italiana, mas não conseguiu causar impacto na Copa do Mundo de 1954. Seu papel na Juventus também mudava, ao perder gradualmente a potência física do início de sua carreira. Ainda cerebral, o craque começou a ser recuado e a desempenhar uma função de garçom. O talento sobrava e, assim, Boniperti se consagrou como um dos jogadores mais criativos da Serie A. Recompunha e circulava, garantindo dinamismo à equipe. Os reforços acertados pela Velha Senhora também ajudaram, com a Fiat se aproveitando da reconstrução econômica da Itália para investir forte em seu clube. A partir das chegadas de John Charles e de Omar Sívori, o veterano ganhou as companhias perfeitas para recolocar os bianconeri no topo. Eles formariam um dos tridentes mais famosos da história da Serie A, emblematicamente apelidado de “Trio Mágico”.

Às vésperas de completar 30 anos, Boniperti era o capitão na conquista da Serie A em 1957/58, a que valeu a primeira estrela da camisa. Alimentava os muitos gols de Charles e a habilidade furiosa de Sívori. Naquele momento, o veterano ajudou até mesmo que fosse cunhado na Itália o termo “centro-campista” para defini-lo – uma denominação feita por Gianni Brera, lendário jornalista da imprensa local. O Milan ficaria com a taça na temporada seguinte, mas a Juve recuperou o topo em 1959/60. Seria uma das campanhas mais arrasadoras da história da competição, com 92 gols marcados e 55 pontos conquistados. Também viria o bi em 1960/61, com menos impacto, mas a confirmação do esquadrão histórico que emplacava em Turim.

Boniperti se despediu da seleção italiana em dezembro de 1960, com oito gols em 38 aparições, além de duas Copas do Mundo no currículo. E aquele título com a Juventus em 1960/61 também marcou sua despedida do futebol. Com apenas 33 anos, o craque pendurava as chuteiras. Foi, sem muitos questionamentos, um dos melhores do mundo ao longo da década de 1950. Mas aquela despedida não significaria um afastamento total dos gramados. Boniperti seguiria por perto, convidado pela família Agnelli para ser dirigente a partir de 1961. Uma década depois, viraria também presidente, num cargo que ocupou até 1990.

A nomeação de Boniperti não era apenas simbólica, como uma mera consideração por seu passado como jogador. Na verdade, o dirigente seria também um dos responsáveis por moldar a mentalidade competitiva e a identidade da Juventus. Entre seus projetos, houve o estabelecimento de um padrão tático que orientava o trabalho em diferentes categorias e também um investimento maior em jovens jogadores. Estavam fincadas as raízes para que, mesmo quando craques pendurassem as chuteiras, a Juve permanecesse lutando por troféus.

Depois da aposentadoria de Boniperti, a Juventus levou apenas um Scudetto ao longo dos anos 1960. Com o novo presidente, foram nove títulos da Serie A em apenas 19 anos a partir de 1971, formando equipes memoráveis durante as décadas de 1970 e 1980. O clube também faturou Champions, Recopa e Copa da Uefa, além do Mundial. Eternizou ídolos e ainda formou a espinha dorsal da seleção italiana campeã do mundo em 1982. Boniperti deixou o cargo em fevereiro de 1990, antes de chefiar a delegação da Azzurra na Copa. Depois disso, ainda voltaria para ser diretor da Juve até 1994, quando entrou para a política e cumpriu um mandato como deputado no Parlamento Europeu.

Apenas Alessandro Del Piero e Gianluigi Buffon disputaram mais jogos que Boniperti pela Juventus na Serie A, 443 no total. Além disso, o atacante também é o segundo maior artilheiro do clube, com 182 gols, batido somente por Del Piero – que, inclusive, foi levado a Turim pelo então diretor. Os dois jogadores também conviveram com Boniperti a partir de 2006, quando o veterano virou o presidente honorário durante a reconstrução do clube após o Calciopoli. Seria protagonista na cerimônia de inauguração no Allianz Stadium. Permaneceria no cargo simbólico até o fim da vida, com sua despedida aos 92 anos. Se o seu coração parou de bater, uma parte da Juve também para junto. Como dizia: “A Juventus não era o meu time do coração, mas meu próprio coração”.

A mentalidade de Boniperti, de qualquer forma, seguirá viva nos corredores da Velha Senhora. Não necessariamente por quem viu seus gols, mas por quem sabe como a sede de vitórias dos bianconeri vêm muito de sua dedicação e seu trabalho por décadas em Turim. O espírito que incutiu nos bianconeri prevalecerá por muito tempo.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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