Serie A

Mourinho, ao seu estilo, apresentado na Roma: “Sou um técnico melhor do que quando saí da Itália”

Bem-sucedido na Inter de 2008 a 2010, Mourinho volta à Itália com o desafio de tornar a Roma um clube que dispute o título e possa voltar a ser campeã

Uma das grandes atrações da Serie A nesta temporada será José Mourinho. O técnico português foi apresentado nesta quinta-feira na Roma, seu novo clube. O treinador foi anunciado no dia 4 de junho como substituto de Paulo Fonseca. Chega à Roma depois de um trabalho que não foi o que se esperava no Tottenham, e que o demitiu antes mesmo de disputar uma final da Copa da Liga. Na capital italiana, o treinador terá um desafio importante. Na sua coletiva de apresentação, o treinador mostrou a personalidade que o caracterizou, ao mesmo tempo que fincou os pés no chão, com uma certa dose de humildade em relação ao que o clube pode fazer.

Mourinho, de 58 anos, fez o seu nome na Itália quando trabalhou na Internazionale, de 2008 a 2010. Foram duas temporadas pelo nerazzurri, mas suficiente para transformá-lo em ídolo. Duas conquistas de Serie A e, na segunda delas, veio dentro de uma Tríplice Coroa, com a inesquecível conquista da Champions League. Depois, foi para o Real Madrid, voltaria ao Chelsea em 2014, onde já tinha trabalhado de 2004 a 2007, e dirigiu também Manchester United e Tottenham.

Chega à Roma para um país onde é muito respeitado pelo que fez na Inter e com um dos maiores desafios da sua carreira. A Roma passa longe de ser uma grande vencedora, como foram muitos dos clubes pelos quais passou. Em certo aspecto, lembra o Tottenham, mas com um trabalho de construção de equipe pior. Lembremos que Mourinho assumiu os Spurs poucos meses depois do time chegar à final da Champions League.

Na Roma, terá a chance de tentar levar o clube de volta às primeiras posições. O primeiro desafio será a classificação à Champions League. O segundo será fazer o time conquistar um título, algo que tem sido muito complicado para o clube da capital. Até por isso, o treinador já foi perguntado sobre isso no seu primeiro dia.

“Primeiro, e antes de tudo, eu preciso agradecer aos torcedores. A sua reação, desde o anúncio, tem sido verdadeiramente incrível. Eu imediatamente senti a força do sentimento deles. Eu não fiz nada ainda para merecer isso, então eu imediatamente me sinto em dívida. As boas-vindas foram incríveis. Então, a primeira coisa que eu preciso fazer é agradecer a eles por isso”.

“Além disso, eu preciso agradecer a todos no clube, aos donos, a família Friedkin, Tiago Pinto [diretor esportivo], todos vocês. Mas a reação dos torcedores realmente tem sido incrível e me deixou uma grande impressão em mim”.

Por que a Roma?

“Eu acho que a pergunta virá de qualquer forma, então talvez eu possa me adiantar em responder: ‘Por que eu estou aqui?’ Bom, nós estamos perto da estátua de Marcus Aurelius e, uma vez ele disse: ‘Nulla viene dal nulla, nulla retorna dal nulla’ (‘Nada pode sair do nada, não mais do que uma coisa pode voltar ao nada’). É um sentimento muito similar ao que eu vivi quando eu falei com Dan e Ryan pela primeira vez”.

“O que eles querem para este clube é muito claro. Você nunca pode esquecer do passado, mas quer construir um futuro. No futebol, a palavra ‘tempo’ nunca deixa de existir, mas aqui acontece. O que os donos querem não é o sucesso hoje e então problemas amanhã. Eles querem criar um sistema sustentável. Eles querem deixar um legado para o futuro. É por isso que eu estou aqui”.

“Agora é o momento de trabalhar. Junto com a minha equipe, aqueles que vem comigo, mas minha equipe trabalha com todos nós. Todos. Nós não estamos aqui de férias, para sermos turistas. Estão aqui para trabalhar”.

“A Roma tem o nome, o símbolo e as cores de Roma, é ligada a esta cidade ao redor do mundo. É uma grande responsabilidade. Mas estamos aqui para trabalhar. E é isso que nós iremos fazer”.

O elenco

“Nós precisamos conhecer o elenco. É importante fazer isso. Há princípios fundamentais, há princípios que não são negociáveis. Hoje é o primeiro dia de treinamento e eu quero que os jogadores entendam de cara como iremos trabalhar”.

“Meu modo de trabalhar é muito simples: a 100%. E isso vale não só para os jogadores, mas para todos nós dentro do clube. Eu passei o meu período de quarentena no centro de treinamento; eu vi um grande desejo que existe para nós em trabalharmos juntos. E esse é um grande sentimento de se ter. Um grande sentimento”.

A qualidade da Serie A

“O próximo desafio é sempre o mais importante da minha carreira. E falando deste trabalho, obviamente é muito importante. Em termos de futebol italiano, a Itália está na final da Euro com um elenco com muitos jogadores da Serie a. Então, claramente é uma liga de qualidade. Aqueles de nós que trabalham nesta liga precisam trabalhar mais do que nunca para poder melhorar”.

O que mudou de quando deixou a Itália

Mourinho foi técnico da Inter de 2008 a 2010 e foi muito vitorioso no clube. Até hoje é tratado como uma referência para os italianos. Quando foi perguntado sobre o que mudou desde que saiu do país, Mourinho foi bastante Mourinho. “Eu sou um técnico melhor. Todos deveriam sentir isso. Se você não está melhorando, então algo não está funcionando apropriadamente. Eu estou mais maduro agora. Eu sou a mesma pessoa, porém, para o bem ou para o mal”.

Crystante e Spinazzola, ambos na seleção italiana

“Estamos muito felizes que esses jogadores representam a seleção, especialmente uma seleção que está indo tão bem e agora tem 50% de chance de retornar para casa como campeões da Europa. É algo para os meus jogadores ficarem orgulhosos”.

“Cristante sublinha o fato que a seleção é de grandes jogadores. Apenas 11 podem jogar, [Roberto] Mancini não pode colocar mais do que isso, mas ele mostrou muito respeito por Cristante. Toda vez que ele olha para o banco durante o jogo, ele parece pensar nele. Ele é um jogador incrível para o time. Eu estou esperando por ele com os braços abertos”.

“No caso de Spinazzola, é muito é muito azar. Ele é um cara positivo. É realmente uma situação difícil tanto para ele quanto para nós, porque não o teremos de volta conosco por um longo tempo. Quem irá assumir o seu lugar? Nós temos um jogador jovem, Riccardo Calafiori, e nós temos confiança nele. Mas, mesmo assim, precisamos de outro lateral esquerdo”.

Retorno ao futebol italiano

“Primeiro, antes de tudo eu sou técnico da Roma. Eu não quero ser visto como mais do que isso. Eu tenho muito o que fazer aqui, o que eu preciso fazer é o foco do meu trabalho. Se, como consequência do meu trabalho, eu possa ajudar o futebol italiano a atingir um nível mais alto, então isso é ótimo”.

“Críticas podem ir e vir, mas farei o que puder para me defender. Se você precisa de mais de nós, então aqui estamos, mas não para aqueles que estão tentando criar problemas, obviamente. Eu quero apenas aproveitar e eu acho que nós podemos encontrar um caminho para aproveitarmos juntos”.

Vítima do próprio sucesso

Mourinho falou sobre ele ser vítima do próprio sucesso, algo que ele já tinha dito há alguns dias. “Eu sou uma vítima de tudo que eu fiz antes. Eu sou uma vítima de como as pessoas olham para mim, infelizmente. No Manchester United, eu ganhei três títulos e foi chamado de um desastre. No Tottenham, depois de chegar em um momento difícil, eu cheguei a uma final e não me deixaram dirigir o time. O que é um desastre para mim seria uma grande conquista para outros”.

“Os objetivos? Falando de modo bem pragmático, nosso primeiro objetivo é ganhar o primeiro jogo competitivo que temos. Então, depois iremos pensar no nosso próximo objetivo. Há um trabalho a ser feito, este time e este clube precisam melhorar todos os dias. Nós começamos nesse sentido com toda a estrutura em Trigoria. Então, este é o nosso objetivo: todos os dias nós precisamos ser melhores e melhores”.

O time da Roma é bom para ser campeão?

“Não é algo que eu estou interessado, falar dessa maneira. Mas a verdade é que terminamos 29 pontos atrás (do campeão) na primeira temporada e 16 pontos atrás do quarto colocado. Então, primeiro e antes de tudo, precisamos entender por que isso aconteceu. Depois disso, podemos focar em chegar onde queremos. ‘Tempo’ foi uma palavra-chave que foi mencionada na primeira vez que eu falei com os donos. Mas se nós pudermos acelerar o processo então isso será melhor. É assim que eu sou e eu espero que todos no clube possam ter a mesma mentalidade”.

“Vocês sempre querem falar sobre títulos, mas nós estamos falando sobre um projeto, sobre trabalho duro, sobre tempo. É muito fácil fazer promessas. Os troféus virão. Os donos não querem um momento isolado de sucesso. Eles querem alcançar aquele nível e ficar lá. Uma vitória é fácil, continuar lá é mais difícil. Nós queremos assegurar que tudo é sustentável, em nível de clube também. Não queremos ganhar e então não podermos pagar os salários”.

“Nós acertamos um contrato de três anos, não podemos ignorar o fato que este time não ganhou nada por muitos anos. Nós temos que entender por que este time acabou tão longe do título e da quarta posição. Nós precisamos entender quais são as respostas certas. Nós queremos brigar por títulos, mas seguindo a trajetória certa para isso”.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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