EuropaPremier LeagueSerie A

Eles largaram o futebol para buscar a segurança de empregos comuns

Nove entre dez meninos sonham em se transformar em jogadores de futebol. Mas não basta viver da bola. Na imaginação de cada um, está a Copa do Mundo e a paixão das torcidas. A exceção da exceção do que realmente acontece no esporte. Quem observa a realidade do futebol brasileiro bem sabe que apenas uma minoria de atletas vive confortavelmente. A grande porção passa apenas seis meses com emprego, tentando driblar as dificuldades financeiras dos clubes em um calendário esburacado e cheio de arranjos políticos.

VEJA TAMBÉM: Antes de abraçar a morte, ele queria ver o Brugge pela última vez e teve um dia inesquecível

Porém, não é só em um país em desenvolvimento que esta realidade é dura. Por mais que os sindicatos de jogadores sejam mais bem organizados na Europa, as principais ligas também são divididas por estas castas, com uma pequena parcela de privilegiados. Tanto que, nesta semana, a notícia se repetiu nos jornais da Inglaterra e da Itália: atletas jovens de divisões inferiores preferiram abandonar a carreira no futebol para assumir a vida de “trabalhadores normais”. Contextos distintos, mas que dizem bastante sobre a dificuldade da profissão.

No caso do italiano Michele Pini, o que mais pesou foi o futuro. O futebol no país está longe de viver o seu melhor momento econômico. Por isso mesmo, o lateral de 28 anos resolveu deixar o posto de lateral da Lumezzane, da Serie C, para trabalhar como operário em uma fábrica da região. “As coisas mudaram tanto nos últimos anos que apenas a Serie A me permitiria continuar vivendo do futebol depois de pendurar as chuteiras. Na segunda e na terceira, isso já não existe. Se começa a pensar no depois, é difícil. Nessas categorias, não consegue guardar dinheiro para viver só da bola”, disse, em entrevista ao espanhol El País.

Tanto quanto a falta de perspectiva a longo prazo, Pini tinha outra urgência nos próximos meses: o fato de que será pai. “O futebol, agora, é mais uma aventura do que outra coisa. Um atrevimento. Acabo de sei pai e precisava de segurança, de estabilidade. Não esperava mudar de vida tão já, mas é que não sabia o que aconteceria comigo em junho. Chegou essa oportunidade e abracei. É complicado recusar contratos de trabalho a essa altura”.

EIA MAIS: O Feyenoord deu o melhor adeus que um homem pode ter

Já o goleiro Jordan Seabright atuava no Torquay United, da quinta divisão inglesa, a primeira fora do sistema profissional. O atleta de 20 anos se preocupava com seu futuro, mas, principalmente, com a maneira como aproveita a vida no presente. “Sendo honesto, eu deixei de sentir amor pelo jogo. Eu realmente não aproveitava mais nada. Eu não me via indo a qualquer lugar e quero ter uma carreira, ser bem-sucedido. Eu não tinha mais ambição no futebol, mas era uma boa oportunidade para eu voltar para casa e ter um bom ambiente de trabalho”, afirmou à BBC.

Seabright abandona o futebol já tendo um emprego certo para dar continuidade a vida. Será vendedor de carros em sua cidade natal. Tomou a atitude corajosa, sobretudo, porque não se via atingindo os patamares mais altos do Campeonato Inglês. “Eu tenho que pensar sobre eu mesmo. Eu quero ter sucesso e não me via assim no futebol. Eu não sentia que me tornaria goleiro da Premier League ou da Championship. Para ser honesto, nem mesmo da terceira divisão. Não é falta de confiança. Eu estou sendo realista. Eu não curtia e então pensei que agora era o momento certo. Eu tinha que ser honesto com o Torquay”.

Mesmo sem experiência, Seabright dependerá mais de sua desenvoltura no trabalho. Já Pini, que ajudava o pai antes de se tornar profissional, terá o auxílio de sua formação escolar. “É normal que ganhe menos do que no futebol. Começo do zero e tenho que subir os degraus. Ninguém vai me dar nada. Estudei em um instituto profissional como operador de máquinas. Não queria acabar a temporada sem ter nada nas mãos. Prefiro algo seguro agora”, completou o italiano.

A realidade econômica da Europa pode ser bastante distinta à do Brasil. As decisões de Seabright e Pini, entretanto, se aplicam muito bem em um futebol longe dos holofotes, praticamente universal. Ambos tiveram a clareza de ver que o futuro não era tão certo, e que o futuro se constrói a partir do presente. Servem de exemplo a muita gente, e também ajudam a mostrar que quase sempre é preciso de um plano B. Algo que muitos jogadores profissionais não conseguem ter, por não valorizarem os estudos da maneira correta quando ainda estão nas categorias de base. Mais do que glamour, futebol é suor.

Mostrar mais

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo