ItáliaSerie A

Balotelli, racismo em Verona e problemas que ainda estão na mesa

Quando eu era criança e assistia ao Campeonato Italiano todo domingo de manhã, ouvia sempre a história de que a tabela do torneio era elaborada por um computador. Se era mesmo, devia ser um PC XT, algo que não tinha uma capacidade de processamento muito superior à do Pense Bem que meu pai me dera de Natal. Se a tabela do Italianão ainda é feita por computador, certamente é um mais evoluído. Tão evoluído que talvez já tenha desenvolvido algum nível de sentimento próprio. No caso, o sadismo.

Um ser humano com um mínimo de bom senso não marcaria Hellas Verona x Milan na primeira rodada da temporada. Os veroneses estavam longe da elite italiana havia 11 anos e certamente transformariam o retorno em um evento, um momento de reafirmar a grandeza que um dia o clube teve (na década de 1980, foi campeão italiano, três vezes vice da Copa da Itália e conseguiu algumas classificações para a Copa da Uefa). Do lado da torcida, a oportunidade de fazer barulho. O que nem sempre é algo bom.

A Curva Sud, setor do estádio em que ficam os ultras helladini, é notória na Itália por usar temas de extrema direita (em bom português, fascismo, racismo e preconceito com italianos sulistas) em suas manifestações. E a estrela mais midiática do Milan é Balotelli, italiano, negro, polêmico e um baita jogador. Em uma situação normal, a torcida veronesa já aguardaria com ansiedade uma visita do Milan. Receber um dos três grandes da Itália é a chance de qualquer torcida regional de se impor como dona daquela área. Com Balotelli chegando junto, a possibilidade de um incêndio parecia enorme.

Aí, uma declaração de Flávio Tosi, prefeito de Verona, serviu para criar a certeza em todos os italianos que a abertura da Serie A seria explosiva. Espalhou-se pelo mundo a declaração de Tosi de que “seria melhor se Balotelli não provocasse os racistas”. No entanto, a questão do racismo de Verona, de Flávio Tosi e das tais provocações de Balotelli são mais complexas, e é preciso ir mais fundo para entender o contexto de tudo isso e para não cair em conclusões fáceis.

A Curva Sud é tida como uma das torcidas mais racistas da Itália, mas isso é um elemento a mais de um contexto maior. O Vêneto é visto pelos italianos como a região mais racista do país. Dizer que não há racistas por lá é um erro, como as próprias manifestações da Curva Sud mostram. Aliás, o fato de Tosi ter sido eleito e gozar de grande popularidade também serve de evidência, pois o prefeito de Verona é filiado à Lega Nord, partido de direita que defende a restrição aos imigrantes e, pelo nome, mostra que não gosta muito do Sul da Itália (o preconceito é semelhante ao do Sul/Sudeste com o Nordeste brasileiro).

Mas isso pode levar a um outro preconceito: o de achar que apenas os vênetos ou veroneses são racistas, ou o de achar que todos os vênetos ou veroneses são racistas. A fama da região já foi explorada em um caso que virou escândalo nacional. Em 2000, Luis Marsiglia, um uruguaio que dava aula de teologia em uma escola católica de Verona disse ter sido atacado por um grupo de skinheads. A alegação: apesar de católico, Marsiglia seria de origem judaica.

Parlamentares italianos atacaram a população do Vêneto, que foi chamada de “vergonha do país”. Dias depois, descobriu-se que a escola católica suspeitava que a licença profissional de Marsiglia era falsa e ameaçava demiti-lo. Para salvar o emprego, ele feriu a si próprio, desenhou uma suástica na fachada de sua casa e usou a fama racista do Vêneto para ganhar apoio da imprensa nacional. A Justiça italiana decretou sua prisão por inventar um crime, mas ele fugiu. No início de 2013, um jornal italiano o encontrou, com outro nome, trabalhando como fotógrafo no País Basco.

Vários relatos dão conta que manifestações xenófobas ou racistas ocorrem em estádio por toda a Itália. Muitas delas partem apenas de um grupo mais radical dos ultras, e não refletiriam a posição de todo mundo no estádio. Os ultras de direita mais famosos são os de Verona, Lazio, Udinese, Triestina e Padova, mas várias outras já tiveram problemas. A Roma, tida por muita gente como uma torcida “de esquerda” e “plural” para se colocar como a antítese da Lazio, foi a última a atacar Balotelli, em um Roma x Milan do final da temporada passada.

Ultras da Roma mostram a cruz solar, símbolo nazista
Ultras da Roma mostram a cruz solar, símbolo nazista

Essa realidade demora a mudar porque não surgem bons exemplos de cima. Alguns clubes italianos já tiveram de jogar com portões fechados por causa de torcedores racistas. Mas, durante anos, tais punições só atingiam clubes das Séries B e C. Pior: quase nenhuma delas era para manifestações que atingissem os negros. A enorme maioria dos clubes só era penalizada quando seus torcedores faziam ataques preconceituosos ao Sul da Itália. Ou seja, xingar os negros não representava um problema tão grande. Ruim mesmo era xingar outros italianos. E só se você torcesse por um time pequeno.

Nas últimas temporadas, a Lega Calcio e a Federcalcio começaram a se esforçar mais para coibir o racismo das arquibancadas. A evolução é lenta, mas algumas boas notícias já surgiram. Em 2003, quando o senegalês Papa Waigo se tornou o primeiro negro a anotar um gol pelo Verona, foi saudado pela torcida como símbolo de como os racistas seriam apenas uma minoria (minoria barulhenta, mas uma minoria) no Vêneto. O próprio atacante foi alvo de reportagens, em que tinha de contar para jornais de toda a Itália que vivia na região desde a adolescência e nunca havia tido problemas raciais nas ruas ou em campo. Neste mês, os ultras da Lazio anunciaram que pararão de imitar macaco quando algum adversário negro pega a bola (eles tentam convencer o mundo que é apenas provocação, e não racismo. Não cola, mas é melhor que nada).

No entanto, em uma época de crise econômica, discursos anti-imigração sempre ganham força. E não é diferente na Itália. Tanto que as boas notícias sobre racismo de ultras muitas vezes são sobrepostas por algumas péssimas. E o computador sádico que resolveu colocar Verona x Milan na primeira rodada do campeonato apimentou o cenário. Ainda mais após uma bomba que veio dos Estados Unidos.

Nesta semana que precedeu a abertura da temporada italiana, Balotelli foi personagem de uma reportagem de capa na revista Sports Illustrated. O atacante do Milan é retratado como um ícone da luta contra o racismo na Itália, e o fato de encontrar os ultras do Verona na primeira rodada é mencionado como um momento delicado. Grant Wahl, autor do perfil, questiona o jogador sobre a expectativa de enfrentar os torcedores helladini. “Espero que não digam nada. Se disseram, tentarei com todas as minhas forças fazer um gol e depois digo algo.”

Capa da Sports Illustrated com Balotelli (Divulgação)
Capa da Sports Illustrated com Balotelli (Divulgação)

Foi a essa declaração que o Flavio Tosi respondeu na última sexta. A declaração completa do prefeito foi: “Sobre Balotelli, há dois aspectos: um da torcida, outro do clube que sempre mostrou empenho em melhorar o comportamento dos torcedores por causa de quatro estúpidos. Se alguém der uma de cretino, será uma minoria. Mas seria melhor se Balotelli provocasse um pouco menos”. O comentário completo parece até atenuar o impacto da crítica ao jogador do Milan, não fosse por um fator simples: Balotelli não provocou. Ele respondeu a uma pergunta, e comentou em cima de uma situação hipotética.

Aos olhos da Itália (e do mundo), Tosi ajudou a reforçar a fama de racista do Vêneto. Ainda mais porque faz todos se lembrarem do fato de Verona ter um prefeito da Lega Nord. A primeira grande cidade italiana a ter um mandatário do partido não foi Verona, mas Milão. Só que o histórico de Tosi é bem mais comprometedor que o de Marco Formentini, prefeito milanês da Lega Nord de 1993 a 97. Antes de se tornar um político de destaque regional, o veronês chegou a ser condenado por racismo após organizar um protesto a um acampamento cigano. Em seu círculo de aliados e cabos eleitorais no início da carreira política estavam membros de grupos skinheads.

Para conquistar cargos maiores, Tosi se apresentou afastado desse discurso, a ponto de se aliar com alguns prefeitos de esquerda. Atualmente, ele é mais conhecido pelas leis que restringem liberdades individuais em nome da “ordem pública”. Por exemplo, ele proibiu que uma pessoa pare seu carro na rua para “contratar serviços sexuais”, consuma bebidas alcoólicas em certas áreas do centro, e que se coma em frente a algum monumento municipal. Na terminologia brasileira de hoje, ele tem sido um grande “coxinha”.

No final das contas, esperou-se tantas faíscas no Verona x Milan que nada ocorreu. A mobilização dos torcedores não-racistas inibiu os racistas. Houve uma rápida briga entre torcedores das duas equipes, mas sem ligação com intolerância racial. Menos mal. Mas os italianos não podem achar que está tudo bem. Há várias questões a resolver, como aceitar definitivamente que Balotelli é italiano, como punir de modo duro e proporcional os ultras racistas, como dar espaço aos torcedores não-racistas, como deixar de rotular toda uma região e como manter a boca de Flavio Tosi fechada.

Mostrar mais

Ubiratan Leal

Ubiratan Leal formou-se em jornalismo na PUC-SP. Está na Trivela desde 2005, passando por reportagem e edição em site e revista, pelas colunas de América Latina, Espanha, Brasil e Inglaterra. Atualmente, comenta futebol e beisebol na ESPN e é comandante-em-chefe do site Balipodo.com.br. Cria teorias complexas para tudo (até como ajeitar a feijoada no prato) é mais que lazer, é quase obsessão. Azar dos outros, que precisam aguentar e, agora, dos leitores da Trivela, que terão de lê-las.

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo