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A Fiorentina abraça as mulheres e dá aula sobre igualdade de gênero

Florença possui uma representatividade imensa para a Itália e também para a própria história da humanidade. A antiga República Florentina deu ao mundo Leonardo da Vinci, Michelangelo, Dante Alighieri, Botticelli e outros gênios das artes. Cérebros que iniciaram a uma nova era na Atenas da Idade Média e a tornaram o berço do Renascimento – uma cidade que permanece, séculos depois, respirando cultura. Pois os ventos de Florença seguem arejando as mentes de quem vive e passa por lá. E, de certa maneira, ajudando a transformar o futebol através de um de seus maiores símbolos, a Fiorentina.

HISTÓRIA: O primeiro clube feminino da história surgiu já lutando pelos direitos das mulheres

A Viola se tornou o primeiro clube da primeira divisão italiana a contratar uma mulher como diretora esportiva. Laura Paoletti assumiu o cargo em junho do ano passado. A psicóloga de 35 anos é quem cuida diretamente da vida esportiva dos atletas, do cotidiano do elenco e do contato deles com outros membros da direção. Sua principal tarefa é cuidar do preparo mental dos atletas, especialmente dos mais jovens. Embora existam outras mulheres dirigindo as equipes italianas, quase sempre são em cargos herdados ou comprados, mas não atribuídos pela presidência, como o caso. Um exemplo de confiança do clube, que também integrará as jogadoras em seu dia a dia. A partir da próxima temporada, a Fiorentina administrará o ACF Firenze, time feminino que existe desde 1979. Será o primeiro clube profissional da Itália a contar com uma equipe feminina.

O machismo é um problema recorrente na maior parte do planeta, e se manifesta cotidianamente no futebol. Entretanto, a iniciativa da Fiorentina se torna ainda mais notável dentro da cultura em que está inserida. Segundo o Parlamento Europeu, a Itália está entre os países com menor igualdade de gênero do continente. As mulheres ganham menos, não tem o respeito merecido e o feminismo é tratado como um tabu. Algo que se reproduz no futebol. As jornalistas esportivas, na maioria das vezes, são meros “enfeites” nos programas de televisão. Já nos estádios, a presença feminina é mais vista como a de acompanhantes do que de verdadeiras torcedoras, que gostam e entendem o futebol.

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A iniciativa encabeçada pela Fiorentina, no entanto, acaba refletindo um movimento que se nota no Estádio Artemio Franchi há tempos. Ao contrário da maioria dos clubes italianos, a Viola possui uma quantidade notável de mulheres que torce e acompanha a equipe em todos os jogos. Sobretudo, que deixa bem claro que o futebol não é apenas um “esporte de homens” -algo que precisa ser percebido por muita gente na Itália e, também, no resto do mundo.

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“À primeira vista, você pode pensar que não há nada diferente sobre as mulheres na cidade. Observadores esnobes poderiam desconsiderar essas torcedoras, com seus cachecóis ‘Fiorentina Girls’ misturando roxo e rosa. Claro, algumas delas poderiam estar fazendo isso só pela moda. E, na Itália, existem aqueles que acreditam que as mulheres nos estádios estão lá mais para acompanhar os parceiros ou procurar um marido. No entanto, a grande maioria das mulheres que conheci em jogos da Viola eram apaixonadas, inteligentes e empenhadas”, descreve a jornalista Kirsten Schlewitz, em matéria para o site Fusion – que serve de base e também complemento para este texto.

DEBATE: Finalmente transformaram o machismo das arquibancadas em discussão

A presença de uma mulher de seus 60 anos, a caminho do estádio, marca o ambiente antes do duelo contra a Juventus pela Copa da Itália. Especialmente porque ela está acompanhada de sua mãe, ambas vestidas de violeta, discutindo a ausência de Tevez e as escolhas de Montella. Outra personagem é Francesca, que, apesar do pai interista, foi influenciada pela mãe para torcer à Fiorentina.  Agora, ela faz o mesmo papel sobre seu filho adolescente, Mattia.

“Essas garotas da Fiorentina não eram meros acessórios. Ao assistir a partida ao seu lado, elas se comportavam do mesmo jeito que os homens: pulando, gritando, xingando o juiz, discutindo com outras torcedoras sobre as substituições de Montella. Muitas viajaram horas no final de semana seguinte para ver o jogo contra o Napoli. De adolescentes a avós, elas estavam lá para torcer – não, ao que parecia, para procurar um marido”, observa Schlewitz. É claro, a cena de mulheres engajadas na torcida não é nenhuma novidade, corriqueira para qualquer um que frequenta os estádios no Brasil. Segundo a própria jornalista algo também perceptível em outros estádios italianos que visitou. Mas não de maneira tão intensa. Não com tanto interesse da massa feminina. “Florença é única na maneira como a presença das mulheres, fisicamente no estádio e nas conversas, constantemente prendeu a minha atenção”.

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Dentro de todo o contexto, o exemplo das mulheres de violeta é grandioso. Pelo próprio desrespeito com o qual convivem, mas também pela abertura que a Fiorentina promove em seus bastidores, de uma maneira geral. Que a Viola seja seguida dentro e fora de campo. E que em tantos outros cantos, esses casos não se tornem exceção. Lugar de mulher também é na arquibancada. Mas não para “embelezar” o espaço, e sim para se unir às outras vozes, empurrar o time. Empurrar também o futebol, juntamente com a sociedade.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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