Sérgio Vieira, técnico da Ferroviária: “No Brasil, o estudo do futebol não é tão profundo”

Há um aspecto em particular que aproxima Sérgio Vieira, técnico da Ferroviária, de José Mourinho e André Villas-Boas, além do óbvio fato de serem todos portugueses. Eles têm pouca ou nenhuma experiência como jogador de futebol profissional de alto nível, mas compensaram essa deficiência com muito estudo e observação. Adquiriram um conhecimento que Vieira leva para o clube de Araraquara, uma das sensações do Campeonato Paulista.

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A Ferroviária lidera o grupo do São Paulo no estadual, mas, acima de tudo, teve grandes apresentações contra os campeões do Brasileirão e da Copa do Brasil. Na Fonte Luminosa, deu um calor no Corinthians, que conseguiu o empate apenas no final do segundo tempo. O técnico Tite rasgou elogios ao adversário. No domingo seguinte, dominou o Palmeiras, em pleno Allianz Parque, e impôs uma derrota que quase decretou o fim da passagem de Marcelo Oliveira pelo clube paulistano.

Ainda é cedo para saber se Sérgio Vieira se tornará um grande técnico, como outros portugueses que treinam clubes relevantes na Europa (além de Mourinho e Villas-Boas, e dos treinadores do Campeonato Português, Nuno Espírito Santo, Vítor Pereira, Marco Silva, Fernando Santos, Leonardo Jardim, Paulo Sousa, entre outros), mas não será por falta de estudo. “Isso foi fruto de um desenvolvimento do conhecimento no futebol de Portugal. Hoje em dia, há centenas de livros em Portugal, literatura sobre futebol, sobre conceitos de jogo e treinos”, afirma, em entrevista exclusiva à Trivela. “Futebol é uma ciência como qualquer outra, como engenharia, medicina e mecânica, e também temos que dominar todas suas áreas complexas”.

Aos 21 anos, um centroavante que não conseguia passar de times de terceira divisão desistiu da carreira de futebol profissional e se dedicou a aprender os conceitos necessários para virar treinador. Coletou dez anos de vivências nos vestiários de clubes portugueses como Braga e Sporting, como auxiliar técnico, e em 2014, quando estava visitando o Brasil, aceitou o convite para trabalhar no Atlético Paranaense.

Ainda está descobrindo os pormenores do ofício de treinador no Brasil, que envolvem pré-temporadas curtas, desorganização, pouco intervalo entre as partidas, um risco iminente de demissão e pouca valorização do estudo. “Eu sei que aqui o estudo do futebol não é tão profundo. Isso se vê no número de livros que se faz sobre conceitos de jogo. É muito, muito mais reduzido do que existe em Portugal”, explica.

Esse é o trunfo que Vieira tem na manga para marcar história no futebol brasileiro. No momento em que os grandes do país apostam cada vez mais em técnicos estrangeiros, ele quer ser um dos primeiros a conquistar uma série de títulos por aqui. E ambicioso, por que não treinar a seleção brasileira um dia? “Existem diferentes situações de sonho, mas com a mesma intensidade. Por exemplo, treinar a seleção brasileira. Treinar um grande clube brasileiro para conquistar um Campeonato Brasileiro e uma Copa do Brasil no mesmo ano, por exemplo”, espera.

Como foi essa trajetória de jogador de divisões inferiores para treinador?

Desde os meus 12 anos até os 22, eu joguei nas categorias de base do Braga e do clube da minha terra local, onde o nível competitivo máximo que eu joguei era o equivalente à terceira divisão. Com 21 para 22 anos, comecei a estudar e tirei minha licenciatura de treinador esportivo de alto rendimento. A partir daí, foram começando situações. Comecei a trabalhar na liga portuguesa, depois na Academia de Coimbra, no Sporting de Braga, no Sporting de Lisboa. Trabalhei durante dez anos no futebol profissional, em diferentes competições. Até chegar aqui, como técnico. Em 2014, vim ficar um mês no Brasil, conhecendo melhor a cultura do futebol brasileiro, os clubes, diferentes cidades e equipes. Recebi um convite do Atlético Paranaense e foi assim que ingressei no futebol brasileiro.

Assim como você, Mourinho e Villas-Boas também tiveram pouca experiência como jogador de alto nível. Por que alguns técnicos portugueses tem esse perfil?

Isso é pura coincidência. Existem outros técnicos portugueses no futebol profissional da Europa que foram jogadores de alto nível. O Nuno Espírito Santo foi um grande goleiro do Porto. Temos o Paulo Sousa, que foi um grande volante do Borussia Dortmund e da Juventus. Existem algumas exceções, mas, realmente, nessas citações, coincide de não termos sido jogadores de elite. Assim como existem (exemplos) em níveis internacionais. Van Gaal não foi um jogador de elite. Não acho que ser um grande jogador é um fator predominante.

Qual tipo de experiência você acha que perdeu por não ter sido um grande jogador?

Considero muito importante as vivências que um jogador vive dentro do vestiário. Foi algo que vivi também, mas não como jogador, como auxiliar na elite portuguesa. Trabalhei no mais alto nível, com jogadores de seleção brasileira, argentina, chilena, peruana, russa, portuguesa. Diferentes tipos de jogadores. Trabalhei na Champions League e na Liga Europa. Essas vivências que tive durante cerca de dez anos são importantes para passarmos por situações que nos deixem preparados para ser um grande técnico. Se um jogador já as vive durante um período da sua carreira, se está atento a essas situações, e aprende com elas, logicamente é muito importante. Existem também exemplos de jogadores que foram grandes jogadores e depois não deram grandes técnicos. Depende da capacidade mental, inteligência, capacidade de liderança, conhecimento que se tem acerca do jogo, preparação que se tem como técnico, e não apenas o fato de ter sido um grande jogador.

Muitos treinadores brasileiros gostariam de trabalhar na Europa, mas você fez o caminho inverso. Por quê?

Acima de tudo, pelo histórico, o fato de um estrangeiro, um gringo, dificilmente ter sucesso no Brasil. A maior parte é de treinadores locais. É uma marca histórica que quero deixar. Um técnico português que tenha sucesso e conquiste tudo aqui. O Mourinho ganhou diferentes competições em diferentes países. É algo diferente, algo que fica marcado na história.

Você passou por alguma dificuldade por ser estrangeiro?

Passei dificuldades normais que qualquer cidadão brasileiro passa. Faz parte. Em qualquer lugar do mundo tem coisas boas e ruins. Mas nenhuma pelo fato de ser português.

Sérgio Vieira sendo apresentado na Ferroviária

Sérgio Vieira sendo apresentado na Ferroviária

Acha que se tiver sucesso no Brasil pode abrir as portas do futebol daqui para outros técnicos portugueses?

Os treinadores portugueses saem para trabalhar na Europa e no resto do mundo. Alguns têm sucesso e outros nem tanto. Não é o país, nem a nacionalidade, que diz se alguém vai ter sucesso ou não. De Portugal, pela formação, pelo conhecimento que existe, saem pessoas competentes. Sabemos que isso depende da capacidade de cada um, dos seres humanos. Cada ser humano é diferente. Acho que certamente haverá bons técnicos no Brasil também. Cada situação tem que ser avaliada de forma diferente, não por vir de um determinado país.

Por que existem tantos técnicos portugueses bons no futebol europeu?

Ainda temos o Marco Silva, no Olympiakos, o Vítor Pereira, no Fenerbahçe. Isso foi fruto de um desenvolvimento do conhecimento no futebol de Portugal. Hoje em dia, há centenas de livros em Portugal, literatura sobre futebol, sobre conceitos de jogo e treinos. Isso já foi implementado e já foi desenvolvido na cultura portuguesa durante muitos anos. E vem se desenvolvendo de forma mais profunda. Futebol é uma ciência como qualquer outra, como engenharia, medicina e mecânica, e também temos que dominar todas suas áreas complexas. Isso foi sendo desenvolvido em Portugal ao longo do tempo. As pessoas que estudam futebol, e estudaram nas últimas décadas, estão muito mais preparadas para ter sucesso.

Acha que aqui no Brasil também dão essa importância para o estudo do futebol?

Eu sei que aqui o estudo do futebol não é tão profundo. Isso se vê no número de livros que se faz sobre conceitos de jogo. É muito, muito mais reduzido do que existe em Portugal. Naturalmente, isso é um grande indicativo.

Qual é a principal diferença entre lá e aqui?

É bastante diferente. Aqui, por exemplo, o tempo que se tem para trabalhar uma equipe dificulta. Fizemos a primeira rodada do Paulista em 30 de janeiro, com quatro semanas de trabalho. Nunca, na Europa, nas minhas experiências, tive uma pré-temporada que tivesse menos que cinco ou seis semanas. E muitas vezes, ou quase sempre, com 50%, 60% do elenco da temporada anterior. Tem-se um elenco totalmente novo, principalmente com equipes que disputam estaduais. E existem outras (dificuldades) do ponto de vista da organização das competições. Já tive duas rodadas seguidas com poucas horas de recuperação.

Você já deve ter percebido que demitir treinador é muito mais comum aqui no Brasil do que na Europa.

(Risos) Esse é um fator muito grave, algo muito grave. Não ter tempo e ser cobrado pelos resultados. Os treinadores também têm que avaliar e ter estratégia para que (o trabalho) seja mais rápido que o normal. Tem a ver com a escolha do elenco, com perfil bom, e também com estratégias didáticas e pedagógicas e de comunicação, para que o tempo de aprendizagem seja menor que o normal.

Qual que é a sua filosofia de jogo e quais conceitos dela tenta implementar na Ferroviária?

De forma muito geral, e não muito detalhada, acima de tudo eu gosto que minhas equipes tenham o domínio do jogo, o controle da bola. A bola é uma das coisas mais importantes que existem no jogo de futebol. Se minhas equipes tiverem a capacidade de tê-la na maior parte do jogo, nós mandamos nele. Controlando o jogo, controlamos qualquer situação que aconteça. Gosto que minha equipe seja ofensiva e crie situações de gol, ao mesmo tempo em que mantenha um certo equilíbrio, que não perca a bola e sofra contra-ataques. Temos que reagir à perda da bola e rapidamente recuperá-la. Gosto que minha equipe seja organizada, muito competitiva, agressiva sobre a zona da bola, para ganhá-la rapidamente, e que joguem muito compactas.

Eu ia perguntar qual a sua referência de treinador no futebol mundial, mas parece que é o Guardiola, né?

(Risos). Sem dúvida. Não apenas o Guardiola. O Mourinho também. Lembro-me do Porto dele, que dominava muito os encontros. A própria primeira passagem do Mourinho pelo Chelsea tinha uma equipe assim. Nos últimos anos, o Barcelona e o Bayern de Munique foram equipes que se destacaram. O Simeone é um excelente técnico. O próprio Van Gaal também. Mas Mourinho e Guardiola são minhas maiores referências.

Guardiola é considerado um dos técnicos mais inventivos e criativos. O que ele tem de diferente?

Não o conhecendo pessoalmente, mas lendo e vendo, tem a ver com o que ele é como pessoa, como ser humano. A forma de se comunicar, de se relacionar com os atletas, com todas as pessoas que trabalham diariamente e contribuem para o rendimento da equipe. A forma como prepara a sua equipe, a inteligência que ele tem e a capacidade de criar uma dinâmica coletiva.

E no Brasil, qual seu técnico favorito?

Eu não conheço muito profundamente. Como digo sempre, pela forma como as equipes jogam, o Corinthians da temporada passada e o Tite. É um técnico que deve chamar a atenção. Uma equipe que ganhou e deixou uma marca de conquistas, mas também de organização. Nesse sentido, é uma referência.

O Tite falou que a Ferroviária é uma equipe bem organizada, de alto nível, intensa. Você também foi muito elogiado por ter encurralado o Palmeiras no Allianz Parque.

É uma consequência normal, natural. Não influencia em nada minha forma de pensar, minha carreira como técnico. É natural que aconteça porque é fruto do trabalho. Nós nem sempre temos momentos positivos porque futebol é um processo. Precisa estar constantemente estimulado. À medida que o tempo passa, os jogos, as competições, as experiências e as pessoas ainda poderão avaliar muito mais o meu trabalho.

Qual que é o segredo para enfrentar times muito mais ricos de igual para igual?

Tudo aquilo que trabalhamos, tudo que consegui implementar desde o começo da temporada, tudo que fomos trabalhando, um grande alerta mental, conseguimos colocar quase tudo dentro do gramado. Existem jogos contra equipes menores, médias, o jogador, que é um ser humano, não tem o mesmo foco. Isso é um grande desafio dos líderes e dos treinadores. Fazer com que os jogadores estejam sempre em estado de alerta mental. Nesses jogos, eles colocaram tudo que trabalhamos em campo. Tivemos mais posse de bola que o Corinthians e o Palmeiras.

Quais os seus planos para o futuro?

Eu quero treinar uma equipe grande, que queira vencer títulos, cujo objetivo seja vencer uma Copa do Brasil, um Brasileirão. Deixar um legado de conquistas. E que o projeto seja bem estruturado. Não adianta nada treinar um time da Série A que não tenha organização, ambição de conquistas. Quero sentir que nosso objetivo é conquistar o título.

Chegou a receber alguma sondagem nesse sentido?

Essa fase é prematura. Começamos a competição há pouco tempo. É muito difícil avaliar o trabalho de um técnico em pouco tempo. Por isso, acredito que naturalmente, à medida que vou mostrando meu trabalho, as coisas vão acontecer.

Você esperava que o Atlético Paranaense entrasse em contato com você depois de demitir Cristóvão Borges?

De forma alguma. O Atlético Paranaense tem projetos bem estruturados. Sabemos, como disse o diretor de futebol Paulo Carneiro, que não projetariam um caminho de sucesso prejudicando o caminho que a Ferroviária está fazendo. É realmente muito importante para um clube histórico como a Ferroviária. Não estamos nem no meio desse caminho, ainda falta muito. Não fazia sentido nem da minha parte e nem da parte do Atlético Paranaense romper esse ciclo. O Atlético tomou sua decisão, trouxe o Paulo Autuori, excelente técnico, com muito currículo, e acredito que o caminho do Atlético também será construído.

Qual seria seu emprego dos sonhos?

Existem diferentes situações de sonho, mas com a mesma intensidade. Por exemplo, treinar um grande clube no Brasil. Treinar a seleção brasileira. Treinar um grande clube da Europa ou uma grande seleção da Europa. Essas quatro situações são de sonho, desde que seja para conquistar títulos. Treinar um grande clube brasileiro para conquistar um Campeonato Brasileiro e uma Copa do Brasil no mesmo ano, por exemplo. Na Europa, muitas vezes o Barcelona e outras equipes conseguem vencer o campeonato local, a copa, a supercopa e a competição da Uefa. A situação de sonho é essa.


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