Sérgio Sant’Anna tinha uma originalidade inerente em sua escrita, navegando pelos mais diferentes gêneros textuais. O escritor dominava as palavras e, a partir disso, se sentia à vontade para jogar em muitos campos, seja lá qual tema escolhesse. O futebol estava entre os seus assuntos prediletos, dedicando belíssimos contos ao esporte de seus amores – e ao Fluminense, paixão ainda maior. Aos 78 anos, o carioca é mais um mestre que a literatura brasileira perde à COVID-19, vitimado pela doença na madrugada deste domingo. E um de seus últimos textos seria justamente sobre o Tricolor, justamente sobre futebol.

Nascido em outubro de 1941, Sérgio Sant’Anna era torcedor assíduo do Fluminense desde a juventude. Tão assíduo que não frequentava apenas os jogos dos tricolores, como também comparecia até mesmo a alguns treinamentos. Sobrinho de um jornalista que havia sido funcionário do clube, o garoto emendava ao lado do irmão jornadas triplas com o Flu – entre os compromissos dos juvenis, dos aspirantes e dos profissionais. Isso quando não comparecia aos campos dos subúrbios para ver os times menores do Carioca.

Formado e pós-graduado em Direito, Sérgio Sant’Anna estreou no mercado editorial em 1969, quando lançou seu primeiro livro e também ganhou uma bolsa de estudos para um programa internacional a escritores. Seriam mais de cinco décadas na ativa, trabalhando seus textos das mais variadas formas. A marca de Sant’Anna era não se repetir, construindo a sua liberdade a partir disso. Entre a prosa e o verso, intercalou e misturou gêneros. Mas era nos contos que o multifacetado carioca apresentava uma maestria particular.

“As ideias vêm de toda parte, mas muito da música, teatro e artes plásticas de vanguarda, mesmo que o meu trabalho vá sair completamente diferente de suas fontes de inspiração. Mas o futebol, por exemplo, tenho certeza que inspirou trabalhos bem inspirados meus”, contou Sant’Anna, em entrevista ao site da Companhia das Letras em 2013. Ou como ainda declarou à Folha, em 1997: “O escritor só pode falar mais ou menos do que ele conhece, né? Futebol é uma coisa que eu conheço muito. Fui criado nesse meio, tive um tio goleiro do Fluminense. No conto ‘No Último Minuto’, eu fui, que eu saiba, o primeiro cara a descobrir que o futebol já era uma coisa diferente, que era um fenômeno midiático”.

O texto direto e a linguagem leve, fluída, contribuíam à vontade de devorar os contos de Sant’Anna. Ao futebol, deixou alguns clássicos. “Páginas sem glória” nomeia seu próprio livro, publicado pela Companhia das Letras. A novela ambientada no Rio de Janeiro, durante os anos 1950, conta a história de um craque levado do futebol de areia ao Fluminense. Traz a saga de um anti-herói, entre discussões sobre comprometimento e a própria beleza do jogo além dos resultados. Outro texto notável é “Na boca do túnel”, presente no livro O concerto de João Gilberto no Rio de Janeiro, de 1982. Nele, o treinador do São Cristóvão narra sua decadente jornada. Além desses, “As cartas não mentem jamais”, “Invocações”, “Anjo noturno” e outros tantos contos de Sant’Anna levam a bola à literatura.

“O Sérgio foi um dos primeiros autores brasileiros a usar o futebol como matéria-prima na ficção. E o fez com brilhantismo e conhecimento de causa em histórias como ‘Na boca do túnel’ e ‘No último minuto’. Não se trata de tentativas de mimetização do drama intrínseco à disputa dentro das quatro linhas, o que soaria como mera diluição, mas de uma bem-urdida conexão entre o viés trágico do futebol e o jogo lúdico da trama ficcional”, comentou Marcelo Moutinho, no obituário publicado em O Globo.

Ou como analisa Rodrigo Casarin, do blog Página Cinco, no Uol: “Certa vez, alguém disse que não há grande literatura sobre futebol escrita neste país. Pode até existir alguma verdade quando máximas do tipo são paridas, mas repeti-las abobadamente ao longo do tempo sem confrontar a ideia com os novos fatos, com o andar da própria literatura, é um erro grave. A prova de que temos sim grandes histórias sobre o mundo da bola em nossas letras está em Sérgio Sant’Anna. É esse o meu recorte favorito de sua produção. […] Ler o que Sérgio Sant’Anna escreveu sobre o esporte é como assistir a Lionel Messi em campo: a genialidade desfila e a qualquer momento uma grande sacada, um passe improvável ou um drible no zagueiro-leitor pode nos surpreender, pode nos maravilhar”.

Se a obra de Sérgio Sant’Anna tinha o futebol como apaixonada parcela, sua própria atuação na literatura também não se continha a escrever. Como descreve Gustavo Pacheco, no obituário publicado pela Folha, o escritor também teve “imensa atuação pública como intelectual, jornalista e professor universitário, fez a cabeça de muita gente e foi para muitos um exemplo de generosidade e integridade artística”. Era alguém que apreciava a literatura contemporânea, acompanhava as novidades e ajudava os escritores mais novos que o procuravam.

Pacheco também afirma que, “nos últimos tempos, sentindo a idade chegar e obcecado com a morte, Sant’Anna escrevia e publicava como nunca, sem perder o vigor e a novidade”. As memórias ganharam espaço em seus textos. Daí é que veio a ideia do último conto boleiro de Sant’Anna, relembrando detalhes dos tempos em que frequentava os treinos em Laranjeiras e via o esquadrão do Fluminense. Craques da estirpe de Castilho, Veludo, Didi, Telê e Waldo estão presentes nas linhas. E o ponto de vista da narrativa foge do usual, com a história contada a partir da perspectiva de uma velha trave de madeira, prestes a ser trocada. O desfecho melancólico, de certa forma, reflete um pouco quem admitia seu temor sobre o coronavírus.

Com o adeus de Sérgio Sant’Anna, sua história e sua memória seguem vivas através de seus textos. Sobre futebol, fica a sugestão a ‘Das memórias de uma trave de futebol em 1955’, publicado pela Folha no fim de abril, e a ‘No último minuto’, seu primeiro conto sobre futebol, de 1973. Também vale ouvir o podcast ‘É proibido vaiar’, em que o amigo Paulo Júnior fala um pouco mais sobre Sant’Anna e lê ‘O torcedor e a bailarina’, presente no livro ‘O homem-mulher’, de 2014.