“Acho que eu sinto mais falta do jornalismo do que ele de mim”, respondeu Sérgio Noronha, ao ser informado, durante uma reportagem da ESPN Brasil, ano passado, que o jornalismo que havia passado tantos anos ao seu lado estava com saudades. Estava com 86 anos, no Retiro dos Artistas, instituição no Rio de Janeiro que ajuda idosos ilustres com dificuldades financeiras, tratando Mal de Alzheimer que começou a dar sinais em 2015. “Não tem hora marcada, dia definido. Todo dia tem alguma coisa para fazer”.

Do ponto de vista médico, Sérgio Noronha morreu, nesta sexta-feira, de parada cardíaca, após dez dias internado no Hospital Rio Laranjeiras por causa de uma pneumonia. Do ponto de vista espiritual, foi descansar porque não havia mais nada para fazer. O cérebro responsável por brilhantes textos e claros comentários nas vias de rádio e televisão estava cansado e, principalmente, ele já havia feito de tudo.

Nasceu em 28 de dezembro de 1932 e começou como office boy da revista O Cruzeiro, em 1954. Ganhou chance como redator e ainda passou pelos jornais Diário Carioca, Correio da Manhã e Última Hora antes de chegar ao Jornal do Brasil. Contou em entrevista ao Museu da Pelada que pediu para trabalhar com Esporte para fugir de uma pessoa que não gostava e havia acabado de assumir a direção do jornal. Disse que depois ele acabou se tornando um grande amigo.

Na editoria de Esportes do Jornal do Brasil, trabalhava ao lado de Armando Nogueira e cobria as folgas do lendário escriba fazendo a coluna em seu lugar. O papel de comentarista surgiu em 1975, quando chegou à Rede Globo. Formava dupla com Luciano do Valle e tinha a principal preocupação de ser claro porque, segundo ele, todo mundo entende de futebol. “O problema é verbalizar, primeiro explicar o que você viu, o que nem sempre é fácil, nem sempre as pessoas têm o vocabulário para isso, ou não conseguem organizar a sua cabeça e tal… mas ver um jogo de futebol todo mundo vê bem. É um jogo simples”, afirmou, ao Museu da Pelada.

Trabalhou ao lado de Luciano do Valle na Copa do Mundo de 1978, na Argentina, e, quatro anos depois, foi emprestado pela TV Educativa à Globo e dividiu cabine com Galvão Bueno na Espanha. “Eu muito jovem, muito ansioso. Foi a única Copa em que eu não fiz jogos do Brasil, mas era justo que fosse o Luciano do Valle naquele momento”, disse Galvão, em entrevista ao UOL. “Todo jovem é ansioso, e o Noronha me dizia: ‘Calma, vamos fazer um belo trabalho’. E o trabalho foi muito reconhecido. Foram muitas viagens e tantas e tantas horas de conversa”.

Depois do Mundial de 1982, passou a comentar futebol para a Rádio Globo. Também teve passagens pela Rádio Tupi e retornou à Globo, em 1999, indicado pelo amigo Galvão Bueno, momento em que teve mais exposição por trabalhar na TV aberta. Cobriu as Copas do Mundo de 2002 e 2006 e também trabalhou no SporTV e no Premiere, ligados à Globo, com uma passagem pela Bandeirantes. Uma amiga contou ao UOL que seu desligamento da emissora carioca, em 2011, foi muito sentido pelo jornalista. “Pô, Marcinha, vê se pode um negócio desse, me tirar para colocar estes rapazotes novos que trabalham de tênis e calça jeans. Eu ia de terno”, teria dito à amiga Márcia Miranda, segundo a reportagem.

Em 2015, Noronha saiu de casa para uma sessão de ginástica e demorou para voltar. Depois, soube-se que havia sofrido um apagão de memória e vagou por Ipanema, sem rumo. O Mal e Alzheimer começava a se manifestar. Ele consultou um geriatra, que o internou por outro problema, uma retenção de líquido na bexiga que levou a complicações, como uma embolia pulmonar. Nunca mais foi o mesmo, de acordo com a matéria do UOL, e em 2018 foi levado ao Retiro dos Artistas pelo amigo Arnaldo Cezar Coelho.

Noronha e Arnaldo conheceram-se quando o árbitro iniciava sua carreira na praia da Urca. Noronha atuava por um dos times e não parava de chamar o apitador de ladrão. Posteriormente, viajando pela Rede Globo, tornaram-se amigos e, quando ficou sabendo dos problemas de Noronha, sem parentes próximos e, também, dinheiro, Arnaldo não hesitou em ajudá-lo. Levou-o à instituição, reformou a casa onde ele viveria os últimos dias de sua vida e era o visitante mais assíduo.

A reportagem da ESPN registrou a rotina de Noronha. Acordava cedo, via programas de futebol, noticiários, descansava depois do almoço e sempre fazia questão de ver alguma partida no fim da tarde ou à noite. E sonhava. “Já não sonho com a mesma disposição de alguns anos atrás, mas eu tenho alguns sonhos. Sonho coisas da minha profissão…”

Se teve a oportunidade de realizá-los, ou se já os havia realizado em quase 60 anos de profissão, não se sabe. Mas sonhava.