A camisa 10 possui um simbolismo imenso para a seleção brasileira. Serve como uma grife, a mostra principal de talento que a equipe nacional pode oferecer. Por isso mesmo, saber quem vai vesti-la é tão ou mais importante quanto discutir quem será o capitão. A aura do número 10, no entanto, nem sempre é compartilhada por todos os esportes. Mas, no vôlei, ele esteve muito bem guardado ao longo dos últimos 15 anos. Serginho foi, por personalidade e talento, um camisa 10 digníssimo. Ao contrário de seus colegas de camisa no futebol, não dispõe sua arte ao ataque. Pouco importa. Nenhum outro fez tão bem sua função dentro de uma quadra.

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A última cena de Serginho servindo a seleção brasileira não poderia ser melhor. Terminou, mais uma vez, vencendo. Ajudou a liderar uma equipe que sofreu com as desconfianças e cresceu na competição, acumulando atuações imponentes na fase final e conquistando o ouro de maneira indiscutível. Foi uma das principais vozes de Bernardinho dentro da quadra, incentivando os companheiros mais novos. E, acima de tudo, jogou demais. A ponto de ser eleito o melhor jogador do campeonato, feito inédito para um líbero nas Olimpíadas, e mesmo diante do desempenho fabuloso de Wallace no ataque.

Serginho, no fim, sustenta a imagem de um ídolo que seria enorme mesmo se não fosse tão vencedor. O rapaz de Pirituba, que não perde a humildade mesmo com os dois ouros no peito – como no momento em que doou a camisa usada na final contra a Itália. “Hoje, essa camisa que eu trouxe não vou dar para ninguém. Vocês façam com ela o que quiserem”, afirmou, em entrevista à ESPN. “A camisa foi agradecimento, não quero levar para casa, a camisa vai ficar para o povo brasileiro. Alguém pega, faz leilão, para ajudar quem precisa. Não me sinto digno de deixá-la na minha casa. Eu sei o respeito que eles têm por mim, a gente tenta passar confiança, tranquilidade, não é só vir jogar. Eu sei o tamanho do fardo que eu carreguei”.

Nem com quatro medalhas olímpicas, um recorde entre os esportes coletivos no Brasil, Serginho deixa de ser o Serginho de sempre. Algo que não tinha mudado nem com os sete títulos da Liga Mundial e os dois do Mundial de Vôlei – que poderiam ser três, não fosse a lesão nas costas que o tirou do torneio em 2010. É o mesmo garoto que vendeu geladinho e produtos de limpeza na juventude, que foi office boy e empacotador de supermercado. O craque histórico que não abandona a casa dos pais e as raízes em Pirituba. Que cresceu no vôlei graças à perseverança e se consolidou de uma maneira improvável. Do atacante limitado, transformou-se no maior líbero de todos, ajudado pelo acaso da mudança nas regras.

APTOPIX Rio Olympics Volleyball Men

De qualquer maneira, o sucesso de Serginho nas quadras não pode ser atribuído a esse mero acaso. Muito pelo contrário. As circunstâncias apenas fortaleceram o potencial que já existia ali, especialmente pela vontade. O camisa 10 virou protagonista, mesmo sendo o jogador sempre delimitado a defender. Porque, afinal, fez isso num grau de excelência que nenhum outro conseguiu. E numa fome que perdurou até os 40 anos, ao último e grandioso capítulo vivido no Rio 2016, diante de companheiros e torcedores que valorizaram ainda mais sua importância.

Confesso que nem sou um dos maiores fãs do vôlei. Mas não acho exagero em poder considerar Serginho como o maior atleta brasileiro deste início de século, ou ao menos um dos cinco maiores. O líbero desponta tanto pela carreira vitoriosa quanto pela representatividade que tem em seu esporte, se transformando em parâmetro na posição e também com um lugar cativo em uma seleção de todos os tempos do vôlei. Um gigante, que se faz ainda maior por sua própria trajetória de vida. Mesmo sem ser fã de vôlei, é praticamente impossível não ser fã de Serginho. Caráter, dedicação e talento que servem de exemplo para qualquer modalidade. Acima de tudo, respeito, por si e também por quem o apoia. Um camisa 10 de verdade.

Chamada Trivela FC 640X63