Ao longo das últimas temporadas, vários jogadores brasileiros se consagraram como protagonistas no Campeonato Chinês. E ainda que se questionasse o nível técnico dos atletas locais, um nome constante entre os melhores da Super League era o atacante Wu Lei. Mais jovem a estrear profissionalmente na história do futebol local, ascendendo na terceira divisão a partir dos 14 anos, o prodígio transformou o Shanghai SIPG em time de elite e estrelava o clube de boas campanhas na liga. Já a sua grande temporada veio em 2018, justamente para quebrar a hegemonia do Guangzhou Evergrande e garantir a taça inédita à sua agremiação. Referência da seleção chinesa, também fez uma boa Copa da Ásia. E, aos 27 anos, desembarca na Espanha para confirmar seu talento no futebol europeu. O artilheiro foi confirmado como novo reforço do Espanyol. Passará por exames médicos e deverá assinar por três anos, em transação de valores não revelados até o momento.

Os números sustentam o alto nível de Wu Lei, mesmo que a competitividade do Campeonato Chinês não seja lá essas coisas. Desde sua estreia na primeira divisão, anotou 12 gols ou mais por campanha, inicialmente atuando como ponta. Já nas temporadas recentes, deslocado à faixa central do ataque, aguçou sua veia artilheira. Depois de anotar 20 gols na Super League em 2017, no último ano acumulou impressionantes 27 tentos em 29 partidas com o Shanghai SIPG, carregando o time rumo ao título. Não só recebeu a Chuteira de Ouro, como também faturou o prêmio de melhor jogador da competição. Desde 2008, apenas estrangeiros haviam sido eleitos como melhores da liga. Da mesma maneira, desde 2008 apenas estrangeiros haviam sido artilheiros do certame. O craque, além do mais, foi eleito para o time ideal do campeonato em todas as temporadas desde 2014.

A Copa da Ásia, por sua vez, foi um belo exemplo de como Wu Lei pode jogar. A seleção da China fez uma campanha modesta, com bons momentos concentrados principalmente na fase de grupos, e muitos deles possibilitados pelo atacante. Mais do que ser um centroavante implacável, é um jogador de movimentação que abre espaços e dá boas condições aos companheiros. Não à toa, sua postura era fundamental para o restante da equipe criar oportunidades. Seus números com a seleção não são tão cavalares quanto eram no Shanghai SIPG. Balançou as redes 15 vezes em 63 partidas, média que tem melhorado desde 2017. No torneio continental, viveu sua grande noite contra as Filipinas, assinalando dois tentos na partida que confirmou a classificação aos mata-matas.

Wu Lei pode ser um jogador útil ao Espanyol. O clube busca o reforço não apenas pelo seu valor midiático e por ganhar mercado na China – aliás, foi crucial ao negócio Chen Yansheng, dono do clube desde 2016. Fato é que os catalães precisam de uma chacoalhada em sua campanha na Liga, sofrendo a ameaça do rebaixamento. Aparecem apenas quatro pontos acima do Z-3, com duas vitórias nas últimas 12 partidas pelo campeonato. Mais do que o ataque, a defesa é que não vem sustentando muito o desempenho dos Pericos. Mas qualquer adição de talento é bem-vinda para tentar impulsionar a equipe. O novo atacante, que tende a enfrentar dificuldades em sua adaptação, já demonstrou sua capacidade para decidir partidas. É ver como será a sua resposta em um ritmo e em um nível mais forte, emendando uma temporada completa na metade final de outra.

A depender de seu sucesso, Wu Lei pode se colocar como o melhor jogador chinês de todos os tempos – ou ao menos da era moderna, considerando o trânsito maior à Europa nas últimas décadas. São raros os futebolistas do país que se aventuraram nas grandes ligas europeias, em comparação a outros vizinhos asiáticos. Na Espanha, o único antecedente é Chengdong Zhang, que disputou um mísero jogo da Liga pelo Rayo Vallecano. A Bundesliga teve três chineses em sua história, com menção especial a Chen Yang, que acumulou os seus gols no fim dos anos 1990 com a camisa do Eintracht Frankfurt. Na Serie A, ainda aguardam o pioneiro. Já a Premier League foi a competição que mais abriu portas aos compatriotas, cinco no total.

Sun Jihai passou das 100 partidas com o Manchester City, contratado logo após da Copa de 2002, e era um zagueiro competente. Li Tie foi outro que chamou atenção depois do Mundial e ficou alguns anos no Everton, sem o mesmo impacto de Jihai. Companheiro de Wu Lei na seleção, o veterano Zheng Zhi era reserva do Charlton durante a última passagem do clube pela elite, mas virou nome importante na Championship e também jogou pelo Celtic, antes de virar uma das referências no Guangzhou Evergrande durante o hexacampeonato nacional. E, embora tenha se limitado à Championship, Fan Zhiyi chegou a ser eleito o jogador do ano pelo Crystal Palace, época em que também foi o primeiro chinês apontado como melhor asiático do ano e conduziu a seleção à sua primeira Copa do Mundo.

O desafio a Wu Lei é considerável, até porque ser lenda em mercados periféricos não necessariamente o referenda para atuar em uma grande liga. Mas, relacionado a outros clubes europeus nos últimos anos, o atacante precisava mesmo se provar fora da China, após destruir recordes e colecionar prêmios. Caso não dê certo, o Shanghai SIPG certamente abrirá as portas para que o atacante continue escrevendo sua epopeia na Super League. Aos 27 anos, de qualquer forma, era o momento de tentar algo novo. Capacidade, ao menos, ele tem para ganhar sequência com os catalães e dar sua contribuição nestes três anos de contrato.