Por Caio Maia e Felipe Lobo

“Vinte e cinco temporadas, 1237 jogos, 131 gols, 26 troféus, 1 camiseta”, dizia o pôster, mas ele não era uma homenagem da torcida do São Paulo a Rogerio Ceni, que joga hoje sua última partida como profissional. A homenagem, em italiano, era do Campeonato Italiano, isso mesmo, da Serie A. Além da Serie A, segundo a ESPN, também falaram da aposentadoria de Ceni a CNN, o As e L’Equipe. Teve também El País, Yahoo, Mediotiempo e diversos veículos sul-americanos.

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Virou notícia no mundo, no domingo do jogo do São Paulo contra o Goiás, quando acabou o Campeonato Brasileiro de 2015, que o goleiro Rogério Ceni, de 42 anos e com mais gols que muitos atacantes na carreira toda, chegava ao fim. Só para ter um parâmetro de comparação, Paolo Guerrero, um dos mais importantes centroavantes que atuam no futebol brasileiro, tem 120 gols na carreira, prestes a fazer 32 anos (completará em janeiro). Rogério tem 131. Não é um número qualquer.

Um jogador ganhar tanta repercussão no exterior mesmo sem ter jogado na Europa, ou mesmo jogado fora do país, onde quer que seja, dá a dimensão do que Rogério Ceni representa. É um goleiro que fez 21 gols em um ano, em 2005. Em 2007 foi indicado como um dos 50 melhores jogadores do mundo na Bola de Ouro. Foi o primeiro jogador a atuar fora da Europa indicado à premiação, antes restrita a Europeus (até 1994) ou jogadores que atuavam na Europa (até 2006). Aquele foi o primeiro ano que jogadores de fora da Europa podiam concorrer. Riquelme foi indicado como jogador do Boca Juniors, mas até o meio do ano jogou pelo Villarreal, algo parecido com o que aconteceu com Carlos Tevez em 2015. A atuação pela Juventus foi o que determinou a sua participção.

O mais bem colocado atuando fora da Europa naquele ano de 2007 foi Rogério Ceni, 27º colocado, ao lado de Casillas, então no Real Madrid. Sendo um goleiro, atuando só na América do Sul na carreira, é um feito. E um feito raro. Tanto que raramente um jogador atuando na América do Sul entrou na lista, mesmo depois disso. O único brasileiro que conseguiu isso foi Neymar, em 2011, jogando pelo Santos, ganhando a Libertadores e sendo protagonista da Seleção Brasileira. Ele repetiu o feito em 2012. Ninguém mais conseguiu o feito. Nenhum outro jogador no Brasil foi indicado.

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Jogadores sul-americanos normalmente são ignorados, mesmo quando fazem temporadas incríveis. O Prêmio da Fifa, que, ao contrário da Bola de Ouro, sempre foi mundial, não incluiu jogadores sul-americanos. Quase nunca aparece um entre seus indicados. Lembram de Edmundo, em 1997, ou Riquelme no início dos anos 2000? Não entraram. Muito porque os europeus pouco olham para cá. O que se valoriza mais a indicação de Ceni naquele ano na Bola de Ouro, que tinha mais prestígio que o prêmio da Fifa, a ponto da própria entidade passar a adotar a Bola de Ouro como o prêmio mundial (o que foi ótimo para a Fifa, não tão bom para a Bola de Ouro, que perdeu parte do prestígio).

Nacionalmente, o goleiro do São Paulo se tornou o que mais vezes ganhou a Bola de Prata, da revista Placar (2000, 2003, 2004, 2006, 2007, 2008), ganhando uma vez a Bola de Ouro, em 2008. Zico e Renato Gaúcho, os que mais mais se aproximaram, foram indicados cinco vezes ao prêmio. Isso enquanto a premiação foi relevante.

Se você não é são-paulino há uma probabilidade enorme de que odeie Rogerio Ceni. Não é difícil entender o motivo. Durante a sua carreira, Ceni conquistou a Copa Conmebol em 1994, como titular; o Campeonato Paulista em 1998, 2000 e 2005; o Rio-São Paulo de 2001; a Libertadores e o Mundial, em 2005 (sendo eleito o melhor jogador tanto da Libertadores quanto do Mundial); o Campeonato Brasileiro em 2006, 2007 e 2008; e a Copa Sul-Americana de 2012. E ele fez isso como protagonista. Mais: fez isso sendo uma figura detestavelmente são-paulina, arrogante, sem nenhuma vontade de deixar você feliz, contente pelo sucesso dele. Em resumo: Rogério Ceni foi um jogador que se apoiou nas suas atuações, seus títulos, seus números, seus recordes e nada mais.

Ele tem isso:

Isso:

E, no mesmo jogo, isso:

E depois isso:

Tá lembrado disso? São Paulo tinha perdido a final da Libertadores, foi jogar com o Cruzeiro em Minas, levou 2 a 0 e teve um pênalti contra. Como acabou o jogo? Rogério Ceni defendeu o pênalti, e depois fez dois gols. Empatou o  jogo. Me lembro de outro jogador fazendo algo parecido pelo Vasco, mas o nome dele era Edmundo, um craque, mas era atacante. Nunca fez nenhuma defesa.

Se alguém, porém, algum dia disser a você que “embaixo da trave, era um goleiro comum”, você pode também mostrar isso aqui para a pessoa:

Foi em 2013, ele tinha 40 anos.

Ou uma dessas compilações:

Rogério Ceni não é um ídolo adorado por todas as torcidas, mas é o maior ídolo da história de um clube do tamanho do São Paulo, tendo defendido o time por 18 anos como titular, recheando a sala de troféus do clube e ainda tendo qualidades raras para um goleiro. Tem o amor inconteste de uma torcida e eternizou o seu nome na história de um clube gigante. Ele pode terminar a carreira satisfeito. Não precisa de mais nada além disso.