Esta poderia ser a primeira Copa do Mundo com jogadores nascidos a partir do ano 2000, mas não aconteceu. O mais jovem do Mundial da Rússia é Daniel Arzani, de 19 anos, que veio ao mundo em janeiro de 1999 – na primeira edição do torneio desde 1990 que não conta com convocados de 18 anos ou menos. E pouca idade nunca foi indício de timidez em Copas, ainda mais depois que um brasileirinho de 17 anos assombrou o planeta a partir dos gramados suecos. Para estar na competição tão precocemente, personalidade é mais do que necessária, é obrigatória. Algo que se viu no australiano, ao longo dos pouco mais de 20 minutos em que esteve em campo nesta quinta. Bagunçou a defesa da Dinamarca e por pouco não ofereceu uma sorte maior aos Socceroos, além do empate por 1 a 1 em Samara.

Arzani é iraniano de nascimento, mas mudou-se a Sydney quando tinha sete anos e construiu sua história na Austrália. Passou pela academia da federação local, criada justamente para identificar e ajudar a desenvolver os principais talentos do futebol, antes de seguir ao Melbourne City em 2016. E então, as coisas aconteceriam bem rápido ao prodígio. Ganhou apenas alguns minutos em campo pelos celestes em 2016/17, até se tornar titular a partir de janeiro de 2018. Bastaram 18 jogos para ser condecorado de diferentes formas na A-League. Foi eleito jogador do mês logo em janeiro, terminou na seleção do campeonato e também recebeu o prêmio de melhor jovem da competição. O suficiente para projetá-lo à pré-lista de Bert van Marwijk rumo à Copa do Mundo, sem nem figurar na Data Fifa anterior, em março.

Convocado às seleções de base da Austrália desde 2014, Arzani até chegou a ser sondado por Carlos Queiroz para defender o Irã, mas tinha sua cabeça formada. E o período preparatório valeu para a promessa conquistar Van Marwijk. É um jogador diferente, habilidoso, que atua pelas pontas e encara a marcação. Sua magia nos dribles foi talhada nas ruas, em Khorramabad e também em Sydney. Um talento que garante confiança ao garoto para entortar e entortar de novo alguns dos melhores defensores do futebol local. A ousadia que é elogiada por comentaristas e também atrai torcedores às arquibancadas do país, entretanto, já foi vista como “arrogância” do novato.

“Eu acho que é este o tipo de jogador que eu sou. Gosto de driblar as pessoas, gosto de ir para cima e penso que muitos dos defensores querem só me acertar. É algo que eu desenvolvo há um bom tempo, desde quando comecei a jogar, e que faz parte do jogo”, defende-se. E a seleção australiana não reclama desse ímpeto de Arzani. Estreou pelos Socceroos em junho e, na segunda partida, precisou de dois minutos em campo para anotar seu primeiro gol, ao fintar o marcador e bater de fora da área, contando com a colaboração do goleiro. Em amistoso contra a Hungria, abriu a vitória dos australianos por 2 a 1. Sua reação ao momento, aliás, diz muito sobre a precocidade: “Eu estava um pouco em choque, por isso não comemorei muito. Eu corri à bandeira de escanteio por alguma razão que não sei, fiquei confuso. É um sentimento surreal. Meus pais estavam nas arquibancadas, então foi realmente especial”.

Um personagem fundamental a Arzani, aliás, é um dos maiores símbolos do futebol na Austrália. Tony Vidmar defendeu a seleção em 76 partidas, mas não teve o gosto de disputar uma Copa do Mundo. Sucumbiu na repescagem contra Argentina (1993), Irã (1997) e Uruguai (2001), antes de ajudar na classificação ao Mundial de 2006, mas recusou o chamado rumo à Alemanha por conta de um problema cardíaco. Aposentado em 2008, o ex-defensor juntou-se à federação a partir de 2013. Comandou o trabalho da academia formativa dos Socceroos e levou o descendente de iranianos ao projeto. Quando a iniciativa foi desmantelada, então, o veterano voltou a se encontrar e a auxiliar o garoto, trabalhando como assistente no Melbourne City. Pode falar com mais propriedade do que qualquer outro sobre o talento evidente.

“Ele tem confiança e, eu diria, também uma boa arrogância de querer a bola, levando os marcadores, combinando-se bem com os companheiros. Ele tem uma boa compreensão do jogo, com características que não vemos sempre. Daniel possui um pedigree futebolístico diferente”, avalia Vidmar, ressaltando que o pupilo ainda tem muito a evoluir, pelos momentos de desatenção e pelas oscilações ao longo das partidas. Os poucos minutos na Copa do Mundo, todavia, servem para o camisa 17 entrar incendiando o jogo.

Os seis minutos contra a França não valeram para que Arzani apresentasse suas credenciais. Porém, nesta quinta, inflamou a Austrália em um momento do jogo no qual o time já era melhor que a Dinamarca. Deu um drible desconcertante em Pione Sisto na linha de fundo, em cruzamento que não teve ninguém para completar, mas assustou bastante os escandinavos. E quase deu a virada aos Socceroos, aos 42. Avançou pela esquerda com liberdade e encheu o pé, parando em boa defesa de Kasper Schmeichel. Sua aparição deu algo a mais aos australianos, ainda que não tenha se convertido na vitória.

Arzani deve ganhar mais alguns minutos em campo na rodada final, contra o Peru. A chance de mostrar um pouco mais de sua vontade. Por estes seis meses meteóricos, indica que é jogador para logo deixar a A-League. A quem quebrava as decorações da mãe jogando bola dentro de casa e sonhava em ser neurocirurgião não faz muito tempo, a Copa do Mundo representa uma grande reviravolta. E é só o início para o adolescente.