“Pênalti é loteria”, diz o jargão tantas vezes repetido no futebol. Pênaltis que também podem ser o passo fundamental a uma vitória sofrida, mas de raríssimas virtudes, como a vista nesta segunda-feira decisiva pelo Campeonato Paulista. O Santos foi senhor do clássico no Pacaembu, disso não há dúvidas. Dominou a posse de bola, o controle do jogo, as situações de gol, a sede pelo triunfo. Esbarrou em um Cássio gigantesco, que acumulou milagres e mesmo assim não conseguiu evitar a derrota do Corinthians, quando Gustavo Henrique garantiu o almejado 1 a 0 nos minutos finais. O placar revertido da ida levou a definição do finalista à marca da cal. Pela motivação do resultado e também pela imposição massacrante, poderia se imaginar que o Peixe carimbaria o passaporte, sobretudo depois que Vanderlei pegou o chute de Boselli logo na batida inicial. No entanto, os centímetros foram cruéis com os santistas. Depois de 16 cobranças no total, a trave barrou por duas vezes os praianos e a vitória por 7 a 6 levou os corintianos para a decisão. A despeito da inferioridade gritante na capital, a comemoração descontrolada era direito concedido ao time de Fábio Carille.

O resultado favorável ao Corinthians no jogo de ida condicionava bastante o reencontro no Pacaembu. Com a torcida a seu favor e 90 minutos pela frente, o Santos precisava impor ainda mais o estilo proposto por Jorge Sampaoli. Ofensividade era a palavra de ordem, com e sem a bola. Intenso para agredir os rivais e também para recuperar a posse, o Peixe não precisou de muitos minutos para iniciar um baile. Que a qualidade técnica de seus jogadores não seja tão grande, o trabalho coletivo realizado pelos santistas até o momento deixa o time passos à frente dos principais rivais paulistas. A escolha por uma estratégia pouco ortodoxa atrás, deixando seus zagueiros no mano a mano, permitiu a Sampaoli ter superioridade numérica na frente.

O Corinthians, por sua vez, também se sentiu propenso a não jogar com a bola. Se o duelo da fase de classificação, sobretudo, serviu para Fábio Carille demonstrar como seu time pode atuar de maneira mais incisiva, desta vez a estratégia foi mais do mesmo. À espera das brechas, os corintianos se continham a defender e a preservar seu reativismo-  competitivo, mas tantas vezes enfadonho. E o problema é que, nesta segunda, os visitantes mal conseguiam contragolpear no Pacaembu. Viam seus esboços serem prontamente neutralizados pelo Santos, atento e eficaz na hora de impor sua pressão na marcação.

A forma como o Peixe ditava o ritmo da partida logo deixou o grito de gol preso na garganta dos santistas. E também promoveu o grande personagem da noite: Cássio. Afinal, uma vitória ampla não aconteceu durante o tempo normal graças aos méritos do goleiro corintiano. Se os bons arqueiros sobram no país, aqueles verdadeiramente idolatrados mostram sua grandeza nos momentos mais difíceis, e foi isso o que o camisa 1 relembrou. Desde a Libertadores 2012, a torcida do Corinthians sabe que pode contar com o seu paredão nas provações. Pois ele se agigantou em uma de suas melhores atuações pelo clube, barrando toda e qualquer investida perigosa do Santos. Foi fácil perder a conta de quantas intervenções vitais Cássio realizou no clássico. Jean Mota e Carlos Sánchez seria os primeiros a serem contidos pelos milagres do veterano.

O Santos, que fez um bom primeiro tempo, voltou ainda melhor para a etapa complementar. A entrada de Rodrygo deu objetividade ao ataque, com a saída do apagado Cueva. Além disso, a equipe arriscava sem tantos pudores e passou a criar chances de média distância. Do outro lado, o Corinthians abdicou de Pedrinho e veio com Vágner Love. O garoto até poderia indicar uma tentativa de tratar melhor a bola, o que se descartava com a incursão do atacante. Mesmo tentando adiantar sua marcação de início, os corintianos foram empurrados contra o seu campo e se viram obrigados a jogar na base do chutão. Algo que piorou nos 45 finais, assumindo de vez a intenção do empate e recuando ao redor de sua área.

Cássio passou a ser ainda mais acionado. E se confirmou como o principal herói do Corinthians. Logo nos primeiros minutos, fez grandes defesas contra Jean Mota, Rodrygo e Pituca. Mas o melhor aconteceu aos 25 minutos, quando Rodrygo chutou uma bola à queima-roupa e o arqueiro fez uma defesa fantástica com o pé. Era uma de suas noites, daquelas em que parece intransponível, e justamente no Pacaembu que tanto significa à sua ascensão no clube.

Faltava um pouco mais de repertório ao Santos, é verdade. Muitas vezes o time abusava dos cruzamentos, sem presença de área suficiente para aproveitá-los. A carência de um camisa 9 outra vez se provou enorme. Já Soteldo era quem mais tentava, apesar dos erros constantes. Em contrapartida, o Corinthians não representava grandes ameaças. Não acertava suas saídas de bola e mal encontrava a chance de um cruzamento alçado na área. Quando muito, reclamou de um pênalti sobre o substituto Ramiro, que o VAR não considerou. Gustagol, que mal pegava na bola, ainda sentiu dores no segundo tempo.

Não só por Cássio, mas também por algumas boas chances desperdiçadas após os 30 minutos, o Santos via suas esperanças se diluírem. O suspiro aliviado só aconteceu aos 40, quando Gustavo Henrique finalmente abriu o placar ao Peixe. Os cruzamentos renderam frutos e Victor Ferraz mandou uma bola açucarada na cabeça do zagueiro, já se aventurando na área oposta. Desviou com firmeza e superou o arqueiro corintiano. Parecia o grito para mudar os rumos da noite e tornar a classificação palpável, mesmo que os pênaltis forçassem a tensão. Mas a justiça nos na marca da cal ficou apenas no desejo.

A defesaça de Vanderlei contra Boselli logo perdeu valor, quando Kaio Jorge soltou a bomba no travessão. Os jogadores de ambos os times optavam por chutes mais fortes, por vezes colocados, e iam vencendo os goleiros seguidamente. Quatro conversões para cada lado, a disputa seguiu para as alternadas e a competência também prevalecia. Só na oitava série é que Henrique converteu e Victor Ferraz, tentando tirar de Cássio, esbarrou na trave. Justo ele, o melhor de sua equipe, atuando praticamente como um armador na ala direita. Apesar de tudo o que o Santos jogou, o Corinthians terminou a noite em festa.

O mais simbólico reconhecimento ao Santos veio de sua própria torcida. A chateação era evidente nas expressões, mas nem por isso os praianos deixaram de aplaudir sua equipe e reconhecer o bom futebol. A forma de jogo também importante, e era isso que os anfitriões transmitiam com aquela ovação. O time de Jorge Sampaoli não é o melhor no papel. Entretanto, não há muitas dúvidas que seu trabalho é superior aos vizinhos de estadual. Algo que nem sempre garante o resultado favorável, com a decepção prevalecendo no Pacaembu.

O Corinthians, por outro lado, precisa ser extremamente grato a Cássio. Em uma noite na qual não houve jogo por parte do time de Fábio Carille, o goleiro foi o único diferencial para arrancar a classificação, antes de contar com a ajuda da trave. É pouco ao que se espera do time, ainda mais por aquilo que os corintianos já demonstraram contra o próprio Santos em 2019. De qualquer forma, foi suficiente para a torcida vibrar com a classificação ‘à Corinthians’ e suas doses cavalares de sofrimento. Agora, há a chance de enfrentar o São Paulo. Uma decisão que reúne justamente aqueles que não eram vistos como favoritos nas semifinais, mas prevaleceram contra oponentes mais referendados.