A Federação Portuguesa de Futebol (FPF) rejeitou o alargamento do campeonato nacional de 16 para 18 times a partir da próxima temporada, que havia sido aprovado pela Assembleia Geral da Liga de Clubes no início de abril. Assim, estão excluídas a reintegração do Boavista à primeira divisão e a liguinha para definição do 18º integrante da elite (que seria disputada entre os dois últimos colocados da primeira divisão e o 3º e 4º da segunda divisão desta temporada).

Apesar do susto inicial que a notícia provocou, faz muito sentido o “chumbo” (expressão muito utilizada pelo noticiário português para o veto) da FPF à medida, principalmente depois que o órgão expôs seus motivos para tal e deixou aberta a possibilidade do alargamento ocorrer a partir da temporada seguinte, ou seja, 2014/15.

Antes de entender os argumentos da federação, vale uma breve recordação do motivo pelo qual o alargamento foi proposto. No ano passado, o Tribunal Administrativo e Fiscal de Lisboa sentenciou que a reunião do Conselho de Disciplina da Liga, que havia decretado o rebaixamento do Boavista para a segunda divisão em 2007/08, era considerada nula. Portanto, o clube – que atualmente está na terceira divisão – passou de acusado de suborno a árbitros a inocente e com total direito de disputar a divisão de elite do futebol português.

Foi para cumprir a decisão do Tribunal que os filiados à Liga de Clubes se reuniram no começo de abril e votaram a favor do alargamento. Eles optaram por aumentar em mais dois o número de participantes do campeonato para que a competição não tivesse número ímpar de equipes. A história toda, com mais detalhes, está aqui.

Ocorre que para ter validade, a decisão precisaria da chancela da Federação Portuguesa de Futebol, o que não aconteceu. E com bons argumentos. O principal deles é que o regulamento de um campeonato não pode ser alterado depois que sua disputa já teve início. E é justamente isso que seria feito na competição atual, caso o alargamento fosse oficializado. Os dois últimos colocados não seriam rebaixados imediatamente e o terceiro e o quarto da segundona teriam uma sobrevida na liguinha.

“A base regulamentar em que assentaram os direitos, interesses e expectativas legítimas de todos os participantes nessas competições se vêem abalados no momento quase final das mesmas”, argumenta a FPF, em um trecho do comunicado no qual explica o veto ao aumento no número de times a partir da próxima temporada. Em outro trecho, a entidade é ainda mais clara: diz que as alterações propostas pela Liga “não respeitam os princípios da estabilidade e integridade das competições”.

Há outro argumento bastante plausível apresentado pela FPF: o alargamento, por si só, não garante a presença do Boavista na primeira divisão de 2013/14. Isso porque, mesmo que a vaga esteja aberta, os axadrezados só poderão disputar o campeonato se saldarem todas as suas dívidas trabalhistas e com o fisco português.

Ou seja: havia o risco de, caso o Boavista não conseguisse quitar suas dívidas, a primeira divisão ter 18 equipes, mas sem a presença dos panteras negras. Isso criaria um grande imbróglio para a temporada seguinte, quando, talvez com as contas em dia, o clube mais uma vez pleitearia seu direito de jogar entre os grandes. É por isso que, no comunicado, a Federação Portuguesa cita que veta o alargamento também por este “não assegurar cabalmente a integração do Boavista na I Liga”.

Embora haja uma certa decepção natural dos torcedores axadrezados, que já comemoravam o retorno do time ao primeiro escalão, o veto da FPF pode ser muito favorável ao Boavista, que passa a ter mais um ano para se estruturar dentro e fora do campo. Afinal, um salto de repente da terceira para a primeira divisão não é pouca coisa. Por isso, o próprio clube se mostrou satisfeito. Em comunicado oficial, destaca que a federação reconhece seu direito de disputar a I Liga.

A FPF deixou caminho aberto para o alargamento da primeira divisão a partir da temporada 2014/15. Para isso, diz, os clubes terão de se reunir até 30 de junho deste ano e aprovar a liguinha para a próxima temporada. Cabe ao Boavista, agora, se articular para que a Assembleia Geral aconteça até a data indicada. Mais uma missão para seus dirigentes, tão acostumados a batalhas extracampo nos últimos tempos.