Foram 15 minutos de conversa no vestiário, antes do início do treino. Em pauta, estava o empate por 1 a 1 em casa no dia anterior com o Áustria Viena, resultado que deixou o Porto com chances mínimas de classificação para as oitavas de final da Liga dos Campeões da Europa.

A pauta de problemas do Porto, porém, é bem mais extensa do que requer uma reunião de 15 minutos. O atual tricampeão nacional está em crise e precisa reagir rápido, sob o risco de viver uma temporada em que o único título será o conquistado no primeiro jogo oficial da época, quando o triunfo sobre o Vitória de Guimarães valeu a Supertaça de Portugal.

Ao empatar com o fraco time austríaco, o Porto conquistou algumas proezas negativas. Foi protagonista, por exemplo, do primeiro gol marcado pelo Áustria Viena nesta Liga dos Campeões – aos 11 minutos da quinta partida disputada pela equipe na competição. Isso graças a uma falha incrível de Danilo, que entregou a bola de presente para Roman Kienast abrir o placar no estádio do Dragão.

Outra “façanha” da equipe portuguesa foi não ter vencido nenhum jogo sequer em casa na fase de grupos da Champions. Os dragões perderam para o Atlético de Madrid (2 a 1) e para o Zenit (1 a 0), além do citado empate com o Áustria Viena. Fora de casa, até agora, venceu o próprio Áustria por 1 a 0 e empatou com o Zenit por 1 a 1.

Para se classificar ao mata-mata, o Porto precisará bater o já classificado Atlético de Madrid, na Espanha, e torcer para que o Zenit, jogando fora de casa, não derrote o Áustria Viena. Uma combinação de resultados que parece improvável e torna a situação portuguesa bem delicada. Vale lembrar que nunca na história da Liga dos Campeões, no atual formato, um time que não tenha conquistado vitória alguma em casa conseguiu se classificar para a segunda fase. Se serve de consolo, o terceiro lugar – que leva à Liga Europa – já está garantido.

A partida diante dos austríacos foi emblemática para mostrar o mau momento vivido pelo Porto. A começar pelo baixo número de torcedores que foram ao Dragão: apenas 24.809. É certo que fazia frio (os termômetros registravam seis graus no início do jogo e três graus ao final) e que o adversário era fraco. Mas é certo também que uma vitória deixaria os portistas em situação bem interessante na Liga dos Campeões.

A incrível falha de Danilo no gol visitante é outro símbolo do momento atual. O Porto vem errando demais na defesa. Danilo, agora, entrou para uma galeria que tem Helton, Alex Sandro, Mangala e Otamendi cometendo erros em jogos recentes. Isso ajuda a explicar a dificuldade em se manter à frente do marcador (das sete vezes em que não conseguiu vencer nesta temporada, em cinco o Porto marcou primeiro, mas sofreu o empate ou a virada).

Mas o simbolismo maior da crise veio das arquibancadas do Dragão. Os torcedores agitaram lenços brancos para o técnico Paulo Fonseca, num claro pedido pela sua demissão. O treinador ainda teve de ouvir uma enorme vaia, algo inédito para ele até então. O 1 a 1 com o Áustria Viena foi a gota d’água para encerrar a paciência da torcida com Paulo Fonseca, que chegou ao clube nesta temporada, vindo do Paços de Ferreira.

Logo depois do jogo, Fonseca assumiu a culpa pela crise. “Se há um responsável aqui, assumo que sou eu. A responsabilidade é minha. Não fujo dela e responderei por ela”, afirmou. Um discurso firme, que tira um pouco a pressão das costas do elenco, mas que, na prática, pouco resolve se as vitórias não voltarem a acontecer.

Das últimas sete partidas, o Porto ganhou apenas duas. No campeonato nacional, apesar de ainda ser líder, o time viu a diferença para os rivais Benfica e Sporting cair de cinco para apenas um ponto. Para completar o quadro negativo, o presidente Pinto da Costa foi mais uma vez internado por causa de problemas cardíacos. Ele já teve alta, mas é sempre um motivo de preocupação.

O próximo compromisso dos Dragões é neste sábado (30), contra a Acadêmica, fora de casa, pela 11ª rodada do Campeonato Português. Um jogo que pode ser crucial para o futuro de Paulo Fonseca – que diz não estar preocupado com a situação, por ter o apoio da diretoria do clube. “O importante é o futuro do Porto, não o meu. Estou confiante na equipe e que em Coimbra vamos dar uma excelente resposta”, afirmou, na entrevista coletiva pré-jogo.

Para o bem do técnico e do clube, as vitórias precisam ser rotineiras novamente. Em caso contrário, um perderá o emprego e o outro afundará numa crise ainda maior.