Francesco Totti entregou, na manhã desta segunda-feira, a carta que ele nunca pensou que fosse escrever. Escreveu letras irreconhecíveis a quem dedicou 30 anos da sua vida a um clube. Juntas, elas formaram um pedido de demissão, após duas temporadas como diretor técnico da Roma: “Eu esperava que este dia nunca chegasse. Eu tomei essa difícil decisão ao longo de meses, mas acho que é a mais coerente. À frente de tudo, tem que estar a Roma. Presidentes passam, técnicos passam, jogadores passam. Bandeiras, não”. 

Totti justificou sua decisão, em uma longa entrevista coletiva, alegando que nunca foi “envolvido” no projeto técnico. Disse que não era ouvido, que todas as decisões eram tomadas em Londres, onde fica o escritório do presidente James Pallotta, e não no centro de treinamentos de Trigoria. E, na esteira da saída conturbada de De Rossi, fez uma séria denúncia: a administração sempre quis afastar os romanos da Roma. 

“Não foi minha culpa porque nunca tive a chance de me expressar. No primeiro ano, isso pode ter acontecido. No segundo eu entendi o que queria fazer e nunca nos encontramos, nunca nos ajudamos. Eles conheciam meu desejo de dar muito a este time, mas eles nunca quiseram isso. Eles me mantiveram fora de tudo”, afirmou Totti. “Eu fui um peso para o clube. Disseram-me que como jogador e como diretor eu sou um fardo. Dói mais sair desta vez do que como jogador porque é que nem abandonar sua mãe”. 

Totti deu um exemplo prático, sem citar nomes. Assim que se aposentou, foi questionado sobre um jogador. Ele disse que, em sua visão, não seria bom para a Roma naquele momento por não se encaixar na formação 4-3-3 de Eusebio di Francesco e ter um histórico preocupante de lesões. “Outros diretores disseram que eu sempre reclamo, que eu causo problemas, que eu criou problemas. Eles pediram minha opinião. Eu teria feito uma escolha diferente e acho que teria sido a certa”, afirmou, confirmando que teria contratado um jogador do Ajax. 

A lenda da Roma não descartou retornar ao clube no futuro, mas teria que ser com novos donos. E o principal problema, em sua opinião, é o distanciamento do dono do dia a dia do clube. “Pallotta não sabe de muita coisa e sempre confia nessas pessoas. Esse é seu principal erro. Eu conheço Trigoria como meus bolsos, conheço todos os movimentos. Eu cresci lá. Um décimo da verdade chega a Boston”, disse. “Eu o agradeço porque, no fim das contas, ele me fez ficar na Roma, me deu a oportunidade de conhecer outra realidade. Eu não cuspo no prato que comi. Ele é presidente da Roma e espero que consiga levá-la o mais alto possível. Agora, ele tem que ser bom em reconquistar a confiança da torcida”. 

Confiança que ficou muito abalada com a saída de De Rossi, outro ponto focal das críticas de Totti. “Em setembro, disse a alguns diretores que, se eles pensavam que aquele seria o último ano de Daniele, deveriam ter dito a ele imediatamente, não como fizeram comigo, a duas rodadas do fim da temporada. Todos disseram: ‘sim, vamos avaliar’. Mas, então, houve lesões, resultados ruins, Di Francesco e Monchi foram embora”, disse. “O problema com Trigoria é que as decisões precisam ser tomadas na hora, não podem esperar. Tem que haver uma pessoa em Trigoria tomando decisões e não dez”. 

Eusebio di Francesco comandou a Roma à semifinal da Champions League, antes de uma segunda temporada decepcionante. “Depois da semi da Champions League, você pensa que no ano seguinte tem que chegar à final. Mas vendendo jogadores… e quero defender Di Francesco aqui – embora tenha sido Monchi que o escolheu, não eu, eu não tomei decisões -, ele pediu quatro ou cinco jogadores. E sabe quantos deles conseguiu? Zero”, contou. 

Totti disse que o único treinador para o qual telefonou pessoalmente foi Antonio Conte e, caso o negócio tivesse sido fechado, ele teria ficado. Aliás, também teria ficado se tivesse sido consultado antes da escolha de Paulo Fonseca também. “Eu quis ser diretor técnico porque eu me acho competente para encontrar bons jogadores. Nunca pedi para tomar todas as decisões. Eu queria tomar as mesmas decisões que os outros, mas, se eles escolhem o novo treinador, contratam jogadores, vendem jogadores, e não me perguntam nada, que tipo de diretor técnico eu sou?”, questionou. 

“Liguei para Conte antes de avisar Pallotta. Ele havia nos dado o ok, mas houve problemas e ele mudou de ideia. Ele tinha que vir aqui executar uma revolução, mas não queria fazer isso. Ele queria fazer uma continuação, e aqui não haveria continuação, mas uma revolução. No momento, você tem que vender tudo e, então, formar um time a partir do quarto lugar”, acrescentou. 

O ex-jogador disse que recebeu propostas de outros clubes italianos para continuar trabalhando como diretor. “Uma delas nesta manhã. Agora, levarei tudo em consideração porque estou livre. Juventus ou Napoli? Calma, não vamos exagerar”, disse. E nunca abandonará totalmente a Roma. “Eu virei assistir a alguns jogos na próxima temporada. Eu sou torcedor da Roma. Posso até mesmo ir na Curva Sud com De Rossi, a menos que ele esteja jogando em outro lugar. Talvez usemos uma peruca ou não veremos muita coisa do jogo”, brincou. 

Por fim, Totti contou o que diria a um jogador em dúvida sobre assinar ou não com a Roma. “Eu diria a verdade, e ele decidira. Diria as coisas boas e ruins. As boas são a cidade, o mar, as montanhas, o sol. E os torcedores da Roma porque eles são a coisa mais bonita de todas”, encerrou.