Depois de três décadas praticamente ininterruptas contando com jogadores renomados, Camarões vive tempos mais modestos. O elenco dos Leões Indomáveis na Copa Africana de Nações passa bem distante da badalação, mesmo se comparado a outros adversários. O craque joga no Lorient; o goleiro defende o time B do Sevilla; o centroavante milita no Spartak Trnava, da Eslováquia. Jogadores de clubes mais pesados, como Lyon ou Olympique de Marseille, acabaram relegados ao banco. E o técnico, Hugo Broos, estava no futebol argelino antes de ser contratado. Realidade simples, mas que não significa tanto assim quando a bola rola. Sem precisar impressionar, os Leões Indomáveis exibem um futebol consistente na CAN. Estarão na decisão, depois de eliminarem Gana por 2 a 0 nas semifinais. Um feito e tanto para quem era cotado para sequer passar de fase.

A seleção camaronesa demonstrou o seu valor desde os primeiros jogos. No Grupo A, ajudou a derrubar o anfitrião Gabão, com uma vitória e dois empates. Já nas quartas de final, seguraram o 0 a 0 contra a favoritíssima equipe de Senegal, avançando nos pênaltis. Em um time essencialmente físico, pesa a solidez defensiva, demonstrada especialmente nas últimas três partidas. Além disso, a bola parada é uma arma. Pragmatismo que derrubou Gana nesta quinta, em Franceville.

Camarões estava disposto a matar o jogo rapidamente. Os primeiros 20 minutos contaram com uma pressão intensa dos Leões Indomáveis, arrematando bastante. Só depois disso é que Gana tomou as rédeas da partida e passou a jogar ligeiramente melhor. Terminou o primeiro ameaçando e melhorou na volta do intervalo, especialmente pelo trabalho feito pelos irmãos Ayew. Aos 15 minutos, o gol só não saiu por causa do goleiro Fabrice Ondoa, voando para espalmar a falta cobrada por Wakaso Mubarak.

No entanto, a fórmula de jogo dos Leões Indomáveis se mostraria mais eficiente outra vez. Aos 27 minutos, os camaroneses abriram o placar. Capitão e grande destaque do time, Benjamin Moukandjo cobrou falta em direção à área. John Boye desviou e tirou a bola das mãos do goleiro Brimah Razak. Com o gol aberto, mesmo com pouco ângulo, Ngadeu-Ngadjui não perdoou. A desvantagem empurrou os Estrelas Negras ao ataque no tempo restante. A equipe pressionava muito e lançava a bola à área, mas sem criar chances claras. E recebeu seu golpe fatal nos acréscimos, em contra-ataque perfeito que Christian Bassogog conclui às redes. Nem mesmo o boneco do Homem-Aranha ao pé da trave, presente do filho do goleiro Brimah para protegê-lo, ajudou os ganeses desta vez.

Camarões disputará no domingo sua sétima final de Copa Africana das Nações. Donos de quatro títulos, os Leões Indomáveis sofreram suas duas derrotas em 1986 e 2008, justamente diante do Egito, novamente o adversário na decisão. Nem mesmo Samuel Eto’o evitou o revés na última delas, com Aboutrika marcando o gol aos Faraós. Desta vez, os camaroneses contam com bem menos ídolos. Desconhecidos, mas capazes de eternizar os seus nomes em Libreville. Em duelo de dois times defensivos, o jogo se promete bastante truncado. A chance de glória para um azarão, que trilha o sucesso por um caminho pragmático.