Sem motivo de preocupação

Duas vitórias, três empates e uma derrota, 50% de aproveitamento. Não foi dos melhores, do ponto de vista matemático, o desempenho dos representantes brasileiros na primeira rodada – o Cruzeiro já jogou pela segunda – da Libertadores 2009. Ainda assim, houve bons sinais de todos os lados e, por enquanto, não há razões para os torcedores temerem pelo futuro imediato de suas equipes na competição.

Curiosamente, os dois piores resultados foram obtidos pelos dois brasileiros que chegaram ao torneio com maior pinta de favoritos. Grêmio e São Paulo não passaram de empates em casa com, pela ordem, Universidad de Chile e Independiente Medellín. De qualquer maneira, um torcedor menos corneteiro ou pessimista percebeu que no geral, foram partidas relativamente boas de seus times.

O Grêmio protagonizou um dos maiores massacres inócuos dos últimos tempos. O domínio sobre La U foi assustador, com o clube gaúcho impondo um jogo intenso, criando boas e numerosas oportunidades. Ficou evidente que, como um todo, a equipe teve equilíbrio, o meio-campo teve criatividade para criar chances de gol e a defesa não levou sustos.

O fato de o gol não sair denota uma falta de pontaria ou tranquilidade dos atacantes. É legítimo, porém, colocar parte do 0 a 0 na conta da determinada defesa chilena, na inspirada atuação do goleiro Pinto, na trave e em alguns erros do árbitro.

Considerando que os times estão em começo de temporada, oscilações e imprecisão são naturais. Como as apresentadas pelo ataque gremista nesta semana. O importante é que, coletivamente, a equipe mostrou força e deixou a sensação de que, quando o ataque estiver um pouco mais inspirado, os gols sairão com certa naturalidade.

A situação foi parecida com a do São Paulo. O Tricolor paulista não fez uma partida totalmente ruim contra o Independiente Medellín. Os são-paulinos dominaram o meio-campo, deram realmente pouco espaço para os contra-ataques colombianos e chegaram ao gol adversário. Foi um futebol muito mais consistente que o apresentado no início das Libertadores 2007 e 2008, duas temporadas em que o clube do Morumbi pecou pela demora em encontrar sua melhor formação e só deslanchou quando já estava eliminado da competição continental.

O que pode ser criticado na atuação do time de Muricy Ramalho foi a exagerada autossuficiência. O São Paulo atuou como se fosse fazer o gol quando bem entendesse. Até dominou as ações, mas não pressionou realmente, não acuou o Medellín em sua área até que a bola não tivesse outra opção a não ser entrar. Somando isso à excelente atuação de Bobadilla, ficou fácil de entender como o Tricolor só evitou a derrota com um gol nos acréscimos.

Muricy é um técnico competente e deve estar usando esse empate como lição ao time. Mostrando como, mesmo jogando bem, não se pode relaxar por excesso de autoconfiança. Se voltar a jogar com intensidade, o São Paulo tem condições de se classificar com facilidade, inclusive vencendo o DIM em Medellín.

Cruzeiro, Sport e Palmeiras

Cruzeiro e Sport foram os únicos brasileiros que venceram até o momento. Os mineiros bateram o Estudiantes na estreia e já empataram com o Deportivo Quito fora de casa. Nas duas partidas faltou inspiração ao time, que não mostra a mesma fluidez ofensiva vista no Campeonato Brasileiro.

É compreensível. Se há uma tolerância para Grêmio e São Paulo, por ser início de temporada, o mesmo deve valer aos cruzeirenses. E os celestes têm a vantagem de, mesmo com o futebol ainda oscilante, terem conseguido vencer por 3 a 0 o principal concorrente no grupo e empatado na altitude.

Tem faltado um pouco de confiança ao Cruzeiro. O time aceitou com certa naturalidade que Pincharratas e Chullas impusessem seu futebol em alguns momentos. O meio-campo parece não confiar completamente no ataque que tem diante de si. A saída de Guilherme teve seu preço, ainda que este deva ser atenuado quando Kleber (que, convenhamos, é melhor que Wellington Paulista e Thiago Ribeiro) se consolidar no ataque.

Muito mais significativa foi a vitória do Sport, fora de casa contra o Colo-Colo. Aliás, foi um resultado precioso para os pernambucanos. O Cacique é, de fato, uma equipe forte – atropelou o Boca Juniors no mesmo Monumental David Arellano – e um triunfo como visitante é fundamental no grupo mais duro da Libertadores.

A diretoria rubro-negra dizia, desde o final do ano passado, que o time entraria no torneio sem grandes pretensões. O objetivo era fazer bons resultados em casa, o que poderia fazer o Leão ir relativamente longe. Uma visão de raro realismo para o futebol brasileiro, onde dirigentes são dados a arroubos populistas e promessas irreais.

Com os três pontos no Chile, o Sport chega a 12 se vencer os jogos na Ilha do Retiro, algo factível tamanha é a força que o Leão ganha em Recife. Se isso ocorrer, os pernambucanos estarão em ótima situação, mesmo que percam para a LDU em Quito e o Palmeiras em São Paulo. Até porque o Colo-Colo dificilmente perderá suas duas outras partidas em Santiago.

Por isso, a situação do Palmeiras fica delicada. A derrota para a LDU foi perfeitamente aceitável, pois se tratava do atual campeão da Libertadores jogando na altitude. No entanto, o resultado do Sport fez a balança pender para o lado pernambucano e os Alviverdes se verão obrigados a fazer algum bom resultado fora de casa se não quiser decidir a classificação na agonia dos critérios de desempate.

Pelo futebol que tem mostrado no Campeonato Paulista – não é o torneio mais forte do mundo, mas dá para ter ideia do potencial do time –, o clube do Parque Antarctica tem condições de seguir na competição. Mas precisa acertar a defesa e saber que não pode desperdiçar pontos.