Cria da base do Gimnasia de La Plata, Ignacio Fernández chegou ao River Plate em janeiro de 2016. Virou reforço de Marcelo Gallardo quando os millonarios tinham acabado de conquistar o título da Copa Libertadores após um hiato de duas décadas. O meio-campista logo se tornou titular, mas permaneceu como coadjuvante nestes anos todos. E, mesmo sem estampar as capas dos jornais, serve como um símbolo do timaço que não depende das individualidades para se manter vitorioso. Nacho é das engrenagens mais importantes, e se sobressai neste momento reluzente do River na competição continental. Além de fazer o time funcionar na faixa central, o camisa 26 também anotou seu maior gol pelo clube. Merecidamente, fica em evidência após a grande atuação contra o Boca Juniors.

Aos 29 anos, Fernández não é o jogador mais virtuoso ou o mais letal. Entretanto, poucos atletas neste River Plate conseguem ser tão funcionais e técnicos quanto o meio-campista. O argentino exibe uma regularidade imensa com o clube, mesmo servindo em diferentes funções na meia-cancha. Não à toa, é um nome imprescindível para Gallardo. Possui um bom trato com a bola, tem qualidade no passe, sabe atacar os espaços e garante a combatividade. Silencioso, mas bastante prestativo, permanece intocável nestes quase quatro anos em Núñez.

Diante da excelente forma de Juan Fernando Quintero e Pity Martínez, Nacho era pouco mencionado na campanha da Libertadores de 2018. Também não possuía a liderança de Leo Ponzio e nem vivia uma ascensão meteórica como Exequiel Palacios. Era um nome a mais no meio-campo do River Plate, que cumpria seu papel na rotação, embora tenha se eternizado como um dos heróis no Bernabéu. Quando o calo apertava no segundo tempo, ele se projetou e tabelou pelo lado direito do ataque, entregando o passe para Lucas Pratto determinar o empate. A história vitoriosa de Marcelo Gallardo com os millonarios se renovaria depois daquele tento.

Longe de ser midiático, Nacho Fernández não deixa de receber elogios. Já foi chamado publicamente de “cérebro do time” por Gallardo, enquanto alguns companheiros o apelidaram de “Iniesta”. E um dos comentários mais edificantes veio às vésperas desta semifinal, proferido por ninguém menos que Juan Román Riquelme. “O que joga bem, joga bem. Eu não tenho dúvidas de que Nacho é o melhor jogador do futebol argentino faz muito tempo. Sou uma pessoa que gosta de ver como tratam a bola”, comentou o ídolo do Boca Juniors, na última semana. “Foi ele que nos complicou a vida e nos arrancou a virada em Madri. O culpado foi ele, fez algo que não é normal em uma final. Pegou a bola na intermediária, levou até a área e disse para Pratto fazer o gol”.

E a verdade é que, além da exaltação de Riquelme, Fernández ascendeu na hierarquia do River durante os últimos meses. Pity Martínez arrumou as malas para os Estados Unidos, Quintero sofreu uma grave lesão, Ponzio também permanece no departamento médico. Num River que ainda joga agressivamente, mas também controla bastante o jogo, Nacho contribui para encontrar o momento certo entre acelerar e cadenciar. Forma uma trinca muito intensa com Nicolás de la Cruz e Exequiel Palacios, resguardados por Enzo Pérez. Os três trocam posições, movimentam-se por todos os lados, aparecem mais à frente. Um encaixe que permite ao camisa 26 se sobressair ofensivamente como nunca em sua passagem pelos millonarios.

O bom momento do meio-campista havia rendido algumas boas partidas na Libertadores, atuando mais livre para avançar. Além de ser determinante à reação na fase de grupos, Fernández também converteu um pênalti na boa vitória sobre o Cerro Porteño na ida das quartas de final. Já no Campeonato Argentino, o meio-campista vinha de três gols em cinco aparições, marcando nas goleadas sobre Racing e Huracán. Nas prévias do jogo contra o Boca Juniors, a imprensa argentina já apontava como Nacho poderia desequilibrar neste primeiro confronto, e assim aconteceu.

O melhor da partida se chama Marcelo Gallardo, pelo DNA que construiu nessa equipe. Em campo, o principal destaque foi Milton Casco, organizando a saída de jogo da esquerda para o centro como um armador. Fernández não precisou de prêmios ou selos para viver também um jogo excepcional, em que cresceu de produção do primeiro para o segundo tempo. Fazendo a roda girar, demarcou o ritmo no meio-campo e, sem a bola, empurrou o Boca contra a parte. Mais importante, participou ativamente do controle exercido pelo River na etapa final e anteviu os espaços para atacar. Cabal aos lances ofensivos, saiu com mais um gol.

O principal lance mostra muito de Nacho e do próprio River Plate. Marcelo Gallardo formou uma equipe que ataca em direção ao gol e sabe variar a movimentação para confundir a marcação. Ora pela esquerda, ora pela direita, o meio-campista começou tabelando pelo meio. Aproveitou o pivô de Matías Suárez para tocar a avançar. Na área, surgiu como elemento surpresa (nem tão surpreendente assim) e balançou as redes, tornando o placar um pouco mais condizente à superioridade dos millonarios. O momento do Boca antes da semifinal até parecia mais reluzente, pelas classificações seguras na Libertadores e pela liderança no Campeonato Argentino. Porém, 90 minutos bastaram para o River reafirmar que possui um time muito mais preparado para os grandes jogos.

Até por sua idade, parece difícil que Fernández descole uma transferência para Europa. Completa 30 anos em janeiro e, se tiver perspectivas de sair, será para aumentar o seu pé de meia em mercados alternativos – Guillermo Barros Schelotto tentou levá-lo ao Los Angeles Galaxy neste ano, por exemplo. No entanto, diante daquilo que constrói no River Plate, a preferência deveria ser por ampliar seu nome no Monumental. Nacho não vai necessariamente receber os holofotes da imprensa. Em compensação, será aquele jogador sempre lembrado pelos torcedores millonarios por seu refinamento e por constância. Nesta história, o meio-campista é daqueles coadjuvantes que saltam ao protagonismo graças ao trabalho fundamental.