A dúvida segue pairando sobre a Primeira Liga – ou Copa Sul-Minas-Rio, como você preferir. Embora a CBF tenha vetado a realização do torneio em 2016, os clubes foram em frente com sua iniciativa. Peitaram a entidade através de um protesto nas redes sociais e, independente de qualquer contraposição, entraram em campo para abrir a rodada nesta quarta-feira. Com direito a jogo transmitido em rede nacional pelo Sportv, o que pode criar um imbróglio entre a confederação e seu principal parceiro comercial. E até mesmo com a presença do Ministro dos Esportes no Mineirão, que tentou agir na queda de braço.

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O fato é que, mais importante do que os resultados ou a visibilidade que o torneio teve em sua estreia, a presença dos torcedores foi boa. Obviamente, nem todos os públicos conseguiram impressionar, mas se mantiveram acima dos estaduais em 2015. A média de 13,9 mil presentes nos quatro primeiro jogos mais que dobrou os números dos últimos Carioca e Mineiro, além de triplicar o Gaúcho e quadriplicar o Paranaense e o Catarinense. Marca puxada para cima pelo maior “clássico” da rodada inicial, Atlético Mineiro x Flamengo, que levou 30,3 mil ao Mineirão. Mesmo diante das incertezas, a torcida compareceu. Levando em conta todos os jogos, apenas nove vezes o Mineiro e o Carioca de 2015 tiveram maiores públicos – o segundo jogo da decisão e dois clássicos em MG, além das finais e de outros quatro clássicos (todos envolvendo o Flamengo) no RJ.

Houve uma ajuda dos clubes no incentivo ao torcedor. A renda total no Mineirão foi de pouco menos de R$ 650 mil, o que torna o preço do ingresso médio a R$ 21,38, muito mais em conta do que costuma ser praticado no Brasileirão. Se justamente um dos entraves no futebol nacional hoje é o alto custo atual em frequentar os estádios, neste primeiro momento a competição se torna uma alternativa atrativa e favorável para muito mais gente.

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Ainda que os torcedores sejam tratados com menosprezo na estrutura de poder do futebol brasileiro, o número possui grande peso simbólico. Diante da crise evidente no atual modelo dos estaduais, este é o tipo de resposta que os clubes precisam para fundamentar o seu projeto de liga independente. Se as portas econômicas estão fechadas graças à ilegalidade imposta pela CBF, é esse comparecimento que pode trazer a prova de viabilidade que os organizadores precisam.

A queda de braço ainda promete ser longa. Apesar do veto da CBF, a Primeira Liga estuda contra-atacar judicialmente, com um processo pelas perdas comerciais causadas pela postura da confederação. E ainda não dá para saber qual será a duração do novo torneio. Por mais que a promessa seja de fazer um trabalho diferente do atual nas competições nacionais, os entraves políticos internos já colocaram em xeque a própria realização da primeira edição.

No entanto, se os clubes seguem com um trunfo na manga, este é o próprio público. É a melhor maneira para embasar o interesse pela Primeira Liga e a força econômica que pode surgir a partir dela. Em contrapartida, a liga surge como caminho para os próprios torcedores fortalecerem os anseios de seus clubes. É bom ter em mente que, enquanto os estaduais acabam muitas vezes só fortalecendo a estrutura viciada de poder das federações, esta é uma alternativa que parte para benefício dos próprios times, como já acontece de maneira tão contundente na Copa do Nordeste. E, por lá, ainda que os estaduais permaneçam como base do próprio regional e com seu papel para as equipes menores, os benefícios da liga para os clubes e para os próprios torcedores são evidentes. É importante que o público da Copa Sul-Minas-Rio tenha isso em mente.

A foto que abre o post é de Bruno Cantini, do flickr oficial do Atlético Mineiro