Por Bruno Guedes*

Ninguém que acompanha futebol ouvia ou lia o nome Eurico Miranda e não esboçava reação. O ex-presidente do Vasco, que morreu nesta terça-feira, nunca foi de meias palavras, brigou com jogadores, técnicos, jornalistas, dirigentes, políticos, segundo ele, sempre para defender o Vasco. A esperança, no entanto, é que o clube da cruz de malta siga melhor sem ele.

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Figura que se tornou notória na política vascaína ainda no fim da década de 60, Eurico exerceu diversas funções, até se tornar o homem forte do futebol, em 1989. Logo depois, veio o título nacional. Com ele no comando do departamento, veio o tri carioca, em 92, 93 e 94, os Brasileiros de 97 e 2000, a Libertadores de 98 e por aí vai.

Para quem começou a acompanhar futebol ontem e pode não ter ideia, vale dizer que o Vasco era invejado por muitos, com craques, acúmulo de taças, um ambiente incrível em São Januário. A esmagadora maioria da torcida, inclusive adorava e ovacionava o dirigente. Ao mesmo tempo, o clube se tornava antipático, muito devido a atitudes de Eurico, com provocações a rivais, invasões de campo, bravatas.

Os tempos mudaram, mas, Eurico não. Se o primeiro período na presidência, entre 2003 e 2008 esteve longe de ser brilhante, o segundo, entre 2015 e 2017 foi terrível, com um rebaixamento no Campeonato Brasileiro logo no primeiro ano de mandato. O acesso à Serie A viria em seguida a duras penas. Enquanto isso, muitos torcedores se iludiam com títulos estaduais.

O futebol se tornou outro, no entanto, e ganhar o Carioca só vale pela gozação de segunda-feira. O Vasco viu as receitas minguarem, passou a ter cotas de TV bem menores que as do Flamengo, algo que Eurico prometia reverter e nunca conseguiu, ficou com camisa desvalorizada para o mercado. A salvação, no fim das contas, era a venda de jogadores, por isso, o espanto quando Matheus Vital foi vendido a preço de banana para o Corinthians, Anderson Martins liberado de graça para o São Paulo, no apagar das luzes da última gestão do dirigente.

Apesar disso, a influência de Eurico na política vascaína seguiu grande, a ponto da liderança em uma manobra que derrubou o maior opositor nos últimos anos, Júlio Brant, em prol de Alexandre Campello. O cartola, além disso, foi figura fundamental de um ano para cá, para impedir que o atual mandatário pudesse enfrentar processo de afastamento do cargo, comandado por ex-aliados, principalmente, por Roberto Monteiro, presidente do Conselho Deliberativo do clube.

A partir de agora, depois de meio século, o Vasco não contará com a figura de Eurico, apesar de todo um legado político que persistirá, da presença dos filhos dele na vida do clube. O dirigente que buscava sempre confundir sua imagem com a da instituição, sai de cena. Chance melhor para o Gigante da Colina se renovar, deixar a politicagem e as páginas policiais para trás, não há.

*Bruno Guedes é jornalista e produz o boletim diário “Café com Vasco”, com notícias do clube.