Villarreal: recordar é viver!

por André Vinícius Araújo

9 de agosto de 2005. Começava, nesse exato dia, o que ia ficar marcado para sempre na história do Villarreal Club de Fútbol. Mas, para descrever a brilhante temporada que começara nesta data, se faz necessário fazer um breve resumo do Campeonato Espanhol 2004/05, onde conseguimos a classificação para a Liga dos Campeões 2005/06.

Em um campeonato onde a briga pela vaga na Liga dos Campeões foi disputada ponto a ponto, até a última rodada, fez a diferença o time que somou maior quantidade de pontos fora de casa, sem deixar, claro, de fazer o seu dever de casa. Nesse aspecto, os seguidores da equipe amarilla agradecem, e muito, ao chileno Manuel Pellegrino, treinador que está há cerca de 3 anos no comando do Villarreal. Pellegrino sempre carregou a fama de armar equipes bastante ofensivas, não importando o mando de campo, nem o adversário em questão. Foi assim que, antes de assumir o Villarreal, conquistou títulos importantes com o San Lorenzo – Clausura e Mercosul – e com o River Plate – tendo o melhor ataque e a melhor defesa -, o que significa que Pellegrino não joga apenas no ataque, mas sim que há um equilíbrio entre ataque e defesa da equipe. Trabalhando com esta mentalidade que a equipe, ao fim do Espanhol, conseguiu a classificação para as eliminatórias da Liga dos Campeões, ao terminar em 3º lugar, com uma respeitosa campanha – 18 vitórias, 11 empates, 9 derrotas, 3º melhor ataque, atrás de Barcelona e Real Madrid e 3º melhor defesa, atrás dos mesmos – e com Forlán, atacante uruguaio recém contratado do Manchester United, como artilheiro do campeonato, com 25 gols; e Riquelme, que assim como um maestro rege a sua orquestra com a sua batuta, fez de sua experiência, classe e inteligência o combustível que faltava para levar esse time a frente. E assim, voltamos a 9 de agosto de 2005…

No terceiro sorteio das eliminatórias para a fase de grupo da Liga dos Campeões, enfrentamos o Everton, que há cerca de 10 anos não participava de competições européias. Uma equipe perigosa, com Beattie, Bent, Kilbane e Davies como principais jogadores, que atuou no famoso 4-4-2 inglês. Começamos bem a partida, com o trio Román – Forlán – Figueroa se mostrando entrosados. Tanto que no ínicio do primeiro tempo, após boa jogada de Marcos Senna e Román, Figueroa abre o placar: 0 x 1. No fim do primeiro tempo, um susto! O empate inglês veio com Beattie, após pequena confusão na área. Quando todos esperavam pelo término do primeiro tempo com o empate, Sorín, da intermediária, coloca a bola na área, e Josico sobe mais que a zaga: 1×2. Um segundo tempo sem emoções, e fim de jogo: vitória nossa por 2×1! Após dias e mais dias de ansiedade, chega o dia do jogo de volta. El Madrigal completamente lotado, torcedores eufóricos com a possibilidade de disputa da Liga dos Campeões. Começa o jogo, e aos 20 minutos, num chute sem perigo de Sorin, a bola desvia em Weir, zagueiro do clube inglês, e entra: 1×0. Duas faltas bem cobradas por Román, e bem defendidas por Martyn, goleiro do Everton – foi o que aconteceu até os 69 minutos, quando Arteta empatou a partida em cobrança de falta: 1×1, e silêncio no El Madrigal. O jogo foi se arrastando para o seu final, o Everton partiu todo para o ataque, desesperado, e aos 91 minutos, em um contra-ataque puxado por Sorin, Forlán, mostrando oportunismo, faz o gol da vitória: 2×1, e a classificação é nossa!

De fato, não tivemos muita sorte no sorteio dos grupos. Caímos no grupo D, juntamente com o todo poderoso Manchester United, o inconstante Benfica e a ‘zebra’ Lille. E, para piorar, pegamos logo na estréia os Diabos Vermelhos, no El Madrigal.

Até horas antes da partida, Román, o nosso maestro, era dúvida para a partida, assim como o experiente Roy Keane pelo United. Chega a hora da partida, e o pior acontece: Román não foi liberado pelo departamento médico, e substituído por Héctor Font. Começa o jogo, e nos primeiros minutos, nada além de faltas. Após os 25 minutos, a qualidade técnica do jogo melhora, e as oportunidades de gols começaram a aparecer. Primeiro, em 2 chutes de Font de longa distância, e com Cristiano Ronaldo, que ao tentar driblar o goleiro, acabou perdendo a bola para o mesmo. O principal nome do jogo, o goleiro Vieira, impediu por duas vezes que o artilheiro Ruud Van Nistelrooij abrisse o placar. Na metade do segundo tempo, Rooney demonstra sua inexperiência: ao cometer uma falta sobre Quique Alvarez, é punido com o cartão amarelo. Logo após perceber a decisão do árbitro, ele, de forma irônica, aplaude a decisão do juiz, que não titubeia e expulsa o atacante inglês. A partida, que até então estava sendo equilibrida, passa a ter o domínio do Villarreal, mas que não soube transformar as oportunidades que criou, em gol. Fim de jogo: 0x0. Nada mal para uma equipe que disputava sua primeira partida em uma Liga dos Campeões, e ainda contra o todo poderoso Manchester United.

No segundo jogo, defrontamos frente ao Lille, da França, que na primeira rodada foi derrotada pelo Benfica.Certamente, a equipe francesa não ia poupar esforços para conquistar os três pontos, jogando em casa. Do nosso lado, teríamos o retorno de Román. Contando com uma equipe bem organizada, e com avançados rápidos, não demorou muito para a equipe dos gauleses assustar a zaga forasteira, através de um chute na trave de Odemwingie. O submarino amarelo – como é conhecida a equipe espanhola – não deixou por menos, e após cruzamento de Román, Arruabarrena desperdiçou boa oportunidade, ao cabecear por cima da meta adversária. Sem mais emoção no decorrer do jogo, empate no Stade de France.

Chega a terceira partida, e com ela, uma certeza: Benfica era o nosso adversário direto na briga pelo segundo lugar, visto que o Manchester United era o favorito a se classificar em primeiro, portanto, tínhamos que vencer a qualquer custo. Infelizmente, não foi isso o que aconteceu. No primeiro tempo, a única oportunidade de gol foi uma cabeçada desprentenciosa de Simão, logo no inicio do jogo. No segundo tempo, o melancólico Román resolveu aparecer, dando uma passe milimétrico para Forlán, que não soube concluir em gol. Logo adiante, Román abriria o placar para a equipe mandante, em um penalti sofrido por Sorín. Festa em El Madrigal! Parecia que esse seria o rumo da partida, até que o português Manuel Fernandes, com um chute espetacular de fora da área, empata o jogo. Fim da partida! Ambas as equipes voltariam a se defrontar, dessa vez, no Estádio da Luz.

Após o empate na Espanha, o Benfica estava certo de que conseguiria uma vitória ecasa. Mas se enganaram. Jogando em um esquema mais conservador, sabiamente armado por Pellegrino, o Submarino Amarelo soube deter todas as investidas de ataque do time português. Jogando no contra-ataque o time espanhol desperdiçou excelente oportunidade nos pés de Forlán, pegando rebote de um violento chute de Román, defendido pelo goleiro. Querendo o resultado a qualquer custo, Koeman, técnico da equipe dos ‘encarnados’, modifica a equipe, tornando – a mais ofensiva. O balde de água fria veio aos 82 minutos, quando, em um contra-ataque, Marcos Senna acertara um disparo violento do meio da rua, fazendo um a zero para os visitantes. Placar que se manteve até o apito final. Uma vitória fora de casa era tudo que Los Amarillos precisavam, pois eram, até então, os líderes do Grupo D.

Novamente, iríamos encarar os Red Devils . Antes do encontro, o respeitado técnico da equipe inglesa, Alex Ferguson, declarava publicamente que esse era o jogo de vida ou morte para a equipe inglesa, visto que em caso de derrota em casa, a equipe estaria eliminada, precocemente, da Liga dos Campeões. Do lado espanhol, jogaríamos sem Forlán e Román. Ou seja, problemas à vista. Atuando com o mesmo esquema que jogou em Portugal, a equipe espanhola pouco perigo causou ao gol de Van der Sar. Fechando bem o meio, e anulando os principais jogadores do United, o Villarreal conseguiu levar o jogo para mais um empate sem gols entre ambas as equipes.

No último jogo da primeira fase, encerraríamos a nossa participação defrontanda a ‘zebra’ Lille. Estávamos, até então, invictos no torneio, e a uma vitória de conquistarmos a vaga para a segunda fase, algo completamente inédito na história do clube. Com o retorno de Román e Forlán a equipe titular, as coisas ficaram mais fáceis. Em um jogo com um amplo domínio da equipe espanhola, o reserva Guayre entrou para decidir a partida. Após boa jogada de Font, Guayre apenas teve o trabalho de deslocar o goleiro e abrir o placar. Até o final, o Villarreal limitou-se a controlar a partida e garantir assim a classificação para a próxima fase, em primeiro lugar, seguido por Benfica, que eliminou o todo poderoso e favorito Manchester United. Hasta la próxima, United!

Ufa, estamos classificados! Foi uma noite inteira de intensa comemoração. Não é por menos, pois em nossa primeira Liga dos Campeões, nos classificamos em primeiro, ajudamos a eliminar o todo poderoso Manchester, estamos invictos e entre os 16 melhores da Europa; o que podemos querer mais, Dios mío!? Nosso próximo adversário? Seja quem for, estamos preparados. Tivemos um pouco de sorte no sorteio, e íamos defrontar contra o Rangers FC por uma vaga nas quartas-de-final.

Novamente, a dúvida do nosso lado era Román. Não estava cem por cento fisicamente, mas é o jogador diferencial em nosso elenco, portanto, arriscar ou não? Faltando poucos minutos para o jogo, Pellegrino decide por escalar Román. E certamente, ele fez a melhor escolha. Logo no ínicio, penalti a nosso favor, convertido por Román. Pouco mais tarde, o clube escocês chegaria ao empate com Løvenkrands, finalizando da melhor forma. Pouco antes do fim da primeira etapa, o artilheiro Forlán pôs o Submarino Amarelo em vantagem novamente, após excelente cruzamento de Román. Festa dos Amarillos! No segundo tempo, limitamos a segurar o resultado favorável, e tudo ocorria bem, só não contávamos com uma falha do zagueiro Peña, jogando contra o próprio patrimônio. Saímos de campo de cabeça baixa, tristes e infelizes com o resultado – que não era nada mal por estar jogando fora de casa –, enquanto a equipe mandante comemorava o empate. No jogo de volta, estávamos confiantes na classificação. Não poderíamos desperdiçar a chance de classificar para as quartas-de-final jogando em nossa casa. Foi com esse espírito que entramos em campo. Mas não esperávamos um Rangers tão ofensivo, disciplinado e ameaçador. E foi assim que eles abriram o placar, com Løvenkrands. Estávamos eliminados, até então. O time escocês, com a vantagem, passa a jogar no contra-ataque, e não nos restou outra alternativa a não ser ir em busca do empate. Pellegrino, então, tira um zagueiro e um volante, e põe dois atacantes. Após demasiada pressão, Román cobra uma falta, e Arruabarrena cabeceia a bola para o fundo do gol. Festa, delírio no El Madrigal. Controlamos a partida até o seu final. Comemoramos, festejamos, era algo inacreditável o que estava acontecendo. No sorteio, ficou decidido que pegaríamos a Inter. Invictos, com a melhor campanha, entre os oito melhores da Europa. Que venha a Inter! – pensava eu.

Chegamos a Itália certos de que um empate já seria um excelente resultado. E não podíamos ter começado melhor. Forlán, o artilheiro uruguaio, mostrou o oportunista que é ao marcar o gol com menos de 60 segundos, após uma defesa incompleta de Toldo. Tudo estava excelente, até novamente Peña – aquele mesmo que falhou na Escócia, contra o Rangers FC – falhar bisonhamente e entregar de bandeja o empate para a equipe italiana com Adriano, artilheiro até então da competição. No inicio da segunda etapa, Martins, que entrara no intervalo do jogo, vira o jogo para a Inter, após boa jogada de Stankovic. Ao término do jogo, estavamos tristes com o resultado, mas ao mesmo tempo confiantes de que uma vitória simples nos classificaria para a semifinal do torneio. Chega o esperado dia do jogo de volta, e com ele, a sensação de que a nossa história na Liga não terminaria ali. Com a torcida fazendo a sua parte, tomando quase todos os lugares do El Madrigal, nossos jogadores sabiam que esse era o jogo de nossa vida. O jogo inicia-se nervoso, com o Villarreal pressionando a equipe italiana. E mais uma vez, Román fez a diferença.Após boa jogada, ele sofre falta de Luís Figo. Bate a falta com rara perfeição, e eis que surge Arruabarrena para cabecear com êxito. Com o passar do tempo, a Inter não causou grandes perigos ao Submarino Amarelo e não conseguiu impedir mais uma noite mágica do Villarreal em El Madrigal. Este jogo, sem dúvida, foi o melhor de Román durante toda a competição, com o ‘playmaker’ argentino comandando todas as ações ofensivas da equipe espanhola. Estamos na semi-final. Isto não é um sonho, isto não é milagre. Conseguimo-lo através de muito trabalho. Em tempo: squadra nerazzurri, Hasta! E com esse espírito, chegamos ao encontro contra o Arsenal. O Arsenal…

O primeiro jogo foi disputado em Londres, no Highbury, estádio do Arsenal. Estávamos certo de que um empate não seria um mal resultado. A zaga da equipe inglesa estava invencível há oito jogos, e certamente, não seria uma missão fácil passar por esse esquadrão. Os Gunners desde o apito inicial tomaram conta do jogo, mas sem causar perigo a nossa meta. Em um escanteio despretencioso, sai o gol do Arsenal, com Touré. Gol este que classificaria a equipe inglesa para a decisão da Liga. Jogando um segundo tempo de forma conservadora, o Arsenal controlou a partida até o seu término. Sabíamos da díficil missão que teríamos pela frente, e não pensamos em outra coisa a não ser atacar. Com uma formação um pouco mais ofensiva, começamos o jogo pressionando a equipe londrina em seu campo de defesa. O Arsenal procurava responder aos ataques do Submarino Amarelo nos contra-ataques, puxados quase sempre pelo Henry. O jogo foi encaminhando para o seu final, e o desespero começava a bater. Sentado, em frente a TV, com a camisa do Villarreal, mal conseguia escutar o narrador. Nada tirara a minha atenção da TV, nem mesmo o santinho de São Judas Tadeu que eu segurara em todo o jogo. Aos 90 minutos, um sinal de esperança: penâlti para nós! Comemorei, e muito, porque com esse gol, poderíamos levar o jogo para a prorrogação.

Quando vi Román pegando a bola para a cobrança, estava certo de que nada podia segurar aquele penâlti. Eis que o pior acontece: Román avança, cobra e… Lehmann defende. Não acreditei. Nó na garganta, olhos cheio de lágrimas, olhar fixo na TV, com a imagem de Román se lamentando. O jogo termina, e eu continuo, estático, na mesma posição após a perca do pênalti. Passou-se 5 minutos, e eu acordo do sonho, levanto e vou para o quarto, dormir. Naquele instante, não pensei em outra coisa mais interessante.

Em síntese, estamos certos de que um dia, voltaremos a disputar a Liga dos Campeões, e que este marco histórico que acaba de ser relatado servirá de estímulo para àqueles que estiverem vestindo o Manto. Em nenhum momento, passou pela nossa cabeça crucificar o maestro Román.

Foi graças ao seu toque de gênio que podemos desfrutar de uma temporada histórica, sofrida e emocionante. Devemos sempre saber reconhecer a qualidade do nosso adversário, que soube fazer o resultado em casa, e controlar a partida em nossa casa. Devemos exaltar os nossos guerreiros, que deram o que podiam dentro de campo para chegarmos aonde chegamos. Devemos exaltar o nosso técnico e estrategista Manuel Pellegrino, que soube armar um limitado time e leva-lo à semifinal da Liga, passando por cima de equipes favoritas, como Manchester United e Internazionale. Na temporada que passou, ‘voltamos à Europa’, ao conquistarmos uma vaga para disputar a Copa da UEFA. O sonho de voltar a Liga dos Campeões é real, e certamente não pouparemos esforços para voltar a ter esse prazer.

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