Um ano sem Bindi

Havia um e-mail que circulava na internet (naquela época em que recebíamos 900 piadas todo dia, ríamos um pouco e encaminhávamos para todo mundo; mas hoje não aguentamos mais) que dizia que amigo de verdade era aquele que entrava na sua casa, abria a geladeira, pegava a cerveja e te xingava de alguma coisa qualquer. E é assim mesmo. Aproximar-se de gente que só quer de bajular é fácil. Difícil é ter amigos de verdade, que não tenham cerimônia para falar umas verdades quando você precisa. Ou, como diz o goleiro Marcos, “meus amigos são todos corneteiros” (fiz questão de incluir o goleiro do Palmeiras no texto porque esse é um assunto, acima de tudo, com um tom alviverde e um toque grená).

A Trivela sempre teve esse amigo “entrão”. Um sujeito que não tinha pudor em reclamar das matérias ruins, de sugerir mudanças que ele mesmo sabia que eram inviáveis e de apontar erros na revista ou no site (nem que fosse só para encher o saco). E, mesmo assim, quando nos visitava na redação, agia como se fosse a casa dele. E ainda ousava pedir aos trivelistas para escrever a orelha de seu livro. Era Luiz Fernando Bindi.

Como bom italiano, o Bindi não sabia amar as coisas de forma comedida. Tratava de suas pesquisas futebolísticas como um napolitano ou pugliese que espera o tempo que precisar para ter a muçarela (sim, essa é a forma aportuguesada correta) de búfala perfeita, resistente por fora e cremosa por dentro. Tinha apreço por tradições como um toscano que ainda participa de atividades medievais como o calcio fiorentino ou o Palio de Siena. Sabia identificar algo de qualidade como um vêneto que conhece o valor de um Prosecco artesanal. Era otimista como um ferrarista que acreditava que a equipe ia sair do buraco com Jean Alesi e Ivan Capelli ao volante. Exaltava as pequenas coisas de sua pequena comunidade como um valtellinese que não passa a semana sem comer um pizzocheri. E, como bom palmeirense-juventino, cornetava tudo o que gostava. Mas sempre com a melhor das intenções.

Há exato um ano, a Trivela perdeu esse amigo. Não dá para dizer que “parece que foi ontem”, porque o amigo e todas as suas cornetadas fizeram falta a todos os trivelistas em cada um desses 365 dias. Ainda tenho o endereço do blog dele nos meus favoritos, porque admito que cheguei a acessá-lo algumas vezes para ver se ele reaparecia dizendo que só tinha dado uma sumida para descansar a cabeça. Nunca tive sucesso. Mas continuo torcendo, porque lutar pelo que quer, mesmo que pareça impossível ou ilógico, era o que o Bindi fazia de melhor.

PS.: Vejam também as homenagens de Mauro Beting e Victor Birner. Vejam também (créditos pela indicação a André Rocha) Dassler Marques (outro trivelista de coração) e da Federação Paulista de Futebol. Se eu vir alguma outra, acrescento aqui.

PPS.: O Bindi cornetava a Trivela, mas ele próprio era um trivelista. Ele foi o responsável pela criação da seção “Conheça a Seleção” e escreveu dois textos para a revista. Clique nos links abaixos para conferir:

Revista
Lema nos escudos” e “Cadeira Cativa da Javari

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