Última parada: Istambul

Falar em Seleção Brasileira não desperta grandes emoções em Lincoln. O meia, que acaba de trocar o Schalke 04 pelo Galatasaray, se mostra resignado por ter sido ignorado pelos técnicos do Brasil durante seus melhores anos no futebol alemão. Aos 28 anos, com a cabeça voltada para o novo desafio, o jogador revelado pelo Atlético-MG se mostra impressionado com a recepção em Istambul e admite encerrar a carreira por lá.

Como foi a negociação para jogar no Galatasaray? Interesse antigo ou repentino?
Havia um interesse um ano atrás, mas na ocasião estávamos disputando a Liga dos Campeões com o Schalke e eu tinha interesse em continuar. Desta vez, conversamos e decidir aproveitar uma oportunidade que seria boa para mim.

Você já conhecia a Turquia?
Sim. Estivemos aqui com o Schalke quando jogamos contra o Fenerbahçe pela Liga dos Campeões. Deu para perceber que é um povo muito apaixonado por futebol.

E qual a sua primeira impressão do país? Sua chegada levou uma multidão ao aeroporto.
Foi uma coisa de louco. Fiquei bastante impressionado. Quando estava na Alemanha fazendo escala para vir à Turquia, perguntei ao meu empresário se haveria alguém no aeroporto para me encontrar. Ele disse: “Fica tranqüilo que vai ter alguém”. Quando cheguei lá, eram 4 mil torcedores me esperando como se estivessem no estádio, com gritos de guerra e fogos. Deu para sentir um fanatismo enorme. Eu achava que o que eu tinha visto na Alemanha era o maior fanatismo, mas aqui é realmente fora de série. Sobre a Turquia, eu procurava um lugar onde pudesse viver um pouco mais, aproveitar mais a vida, e aqui é mais parecido com o Brasil.

Você diz “aproveitar a vida” em que sentido?
Por exemplo, o clima é muito mais agradável em comparação à Alemanha. Não significa que eu esteja reclamando da Alemanha, onde passei seis anos maravilhosos. Pelo contrário, sou muito grato. Mas a cidade aqui tem 6 milhões de habitantes, tem praia… é mais parecido com o Brasil.

Você procurou se informar com brasileiros que jogam na Turquia?
Dos que estão aqui atualmente, não. Procurei conselhos com o Taffarel, que, todos sabem, é como um pai para mim. Temos uma afinidade muito grande. Ele jogou aqui no Galatasaray e foi ídolo, conquistou uma Copa Uefa. Foi com ele que me informei.

Recentemente você foi pré-convocado para a Seleção Brasileira que iria à Copa América. Acredita que poderia ter sido lembrado antes, quando teve melhores fases no Schalke?
Penso exatamente assim. O jogador tem de ir para a Seleção pelo momento que está vivendo, por merecer naquele momento. Passei momentos muito bons no Campeonato Alemão, ganhei prêmios como melhor jogador, e não tive oportunidade. De qualquer forma, sempre deixei claro que Seleção nunca foi algo que tirasse meu sono ou me entristecesse. Meu primeiro objetivo era ir bem no clube.

Quando você trocou o Atlético-MG pelo Kaiserslautern, em 2001, seu nome ficou por algum tempo sumido da mídia brasileira. Isso pode ter colaborado de alguma forma para este esquecimento?
Acredito que não. O jogador que está no Brasil, e tem a chance de ir para a Europa, vai. Mesmo que suma um pouco da mídia. Cada um tem de pensar no melhor para a própria carreira. Quando eu saí do Atlético, nem pensava em Seleção Brasileira, pensava apenas no melhor para a minha carreira. Isso nunca me atrapalhou. Sobre a pré-convocação para a Copa América, fico muito grato.

O fato de haver na Turquia outros brasileiros atuando com destaque te dá esperanças de uma nova oportunidade na Seleção?
Todo mundo aqui se pergunta porque os brasileiros de times turcos não são convocados. Como eu te disse, não é algo que me preocupa. Vou trabalhar para jogar bem pelo meu clube. Se vier uma convocação, estarei preparado. Se não vier, encaro com a maior naturalidade do mundo.

Comentou-se que você poderia jogar pela seleção da Alemanha. O que havia de concreto nisso?
Houve um interesse, a princípio, por parte deles, mas depois os dirigentes da federação.ficaram em dúvida sobre como seria colocar um jogador naturalizado, sobre como seria a aceitação no grupo. Na Alemanha, infelizmente, há um problema sério com estrangeiros. Além disso, a tentativa seria em vão, porque eu tinha defendido a Seleção Brasileira sub-20 em competição oficial.

Você sentiu no cotidiano este problema com estrangeiros?
Passei por algumas situações dentro de campo, cheguei a ser hostilizado, mas foram apenas coisas de jogo. Quero deixar claro que não tenho nada a recriminar do tempo que passei na Alemanha. Fiz muito pelo Schalke e pelo Kaiserslautern e eles fizeram muito por mim.

A reta final do último campeonato foi muito turbulenta. O Schalke deixou escapar o título nas últimas rodadas. O que aconteceu? Houve problemas internos?
Problemas internos, não. O que acontece no Schalke é o fato de ser um clube muito grande, com pressão imensa. Eu comparo ao Corinthians. Cobra-se muito. Se você está em terceiro ou segundo na tabela, não significa nada. Se está em primeiro, tem obrigação de manter. Infelizmente perdemos o título nas últimas rodadas. Nosso time era muito bom, mas na penúltima rodada perdemos um clássico contra o Borussia Dortmund. Você sabe como é clássico, tudo pode acontecer. Perdemos a liderança para o Stuttgart, e nossa vitória na última rodada não foi suficiente.

Houve um campeonato (2004/5) em que vocês chegaram a abrir seis pontos de vantagem sobre o Bayern – você marcou um gol da vitória contra eles – mas deixaram escapar. Qual o problema do Schalke em momentos decisivos.
Este time atual do Schalke começou a ser formado naquela ocasião. Aquele era um time que jogava muito em minha função. Hoje, eu considero o Schalke um time bem montado. É verdade que eu saí, também saiu o Hamit Altintop, que foi para o Bayern, mas este time é uma evolução daquele.

Não era time para ser campeão, então?
Poderia ter sido. Mas só agora o time se formou para fazer um grande campeonato. É um time que joga junto há pelo menos dois anos e meio.

Você pegou uma suspensão de cinco jogos em um momento decisivo da temporada 2006/7 (por agredir Bernd Schneider, do Bayer Leverkusen). Como isso repercutiu dentro do clube?
Fui multado, fiz questão de pagar a multa, porque naquele momento eu estava prejudicando o time, eu fazia falta. Mas não foi algo que tenha atrapalhado o time, já que eu voltei e ainda estávamos na liderança

Em entrevista à Trivela, Tinga, do Borussia Dortmund, nos disse que vocês costumam se encontrar muito. Esta socialização com um jogador do rival não tem repercussão negativa com os torcedores?
De maneira nenhuma. No Dortmund, tenho uma amizade de irmão com o Dedê, jogamos juntos nas categorias de base do Atlético, convivemos por doze anos. Temos uma afinidade muito grande. A chegada do Tinga também ajudou, ele sempre freqüentou minha casa, praticamente toda semana. A oportunidade de conviver com colegas brasileiros fora das quatro linhas sempre foi bem-vinda.

Como a rivalidade entre Schalke 04 e Dortmund se compara a outras do futebol mundial?
É de se comparar aos maiores clássicos. É Atlético x Cruzeiro, Corinthians x Palmeiras, Grêmio x Inter. Não fica devendo em nada.

Na Turquia, você vai se deparar com clássicos com Fenerbahçe e Besiktas. O que já ouviu a respeito?
Já ouvi falar cada coisa… Pelo que me disseram, o estádio realmente ferve. Cada clássico tem sua particularidade, portanto estou ansioso.

O Alex foi para o Fenerbahçe, se firmou no time e decidiu ficar. Você se vê no mesmo papel no Galatasaray, ou pensa em se transferir para uma liga de maior expressão?
Eu vivo muito o presente, mas admito que não penso em jogar por muito mais tempo. Pedi um contrato de quatro anos porque posso parar logo depois. Pretendo jogar apenas até os 32 anos. Este pode ser meu último contrato. Se as coisas derem certo, minha vontade é de encerrar a carreira por aqui.

Você pensa em jogar novamente no Brasil?
Não. Quero encerrar por aqui. Gosto de jogar na Europa, estou no futebol europeu há seis anos. Talvez eu mudasse de idéia se pudesse parar no meu time do coração, o Atlético, mas isso é algo muito incerto.

Depois de parar, vai voltar a morar no Brasil ou pensa em ficar na Europa?
Volto para o Brasil, com certeza.

Ficha

Lincoln Cássio de Souza Soares
Nascimento
: 22/janeiro/1979, em São Brás do Suaçuí-MG
Altura: 1,77m
Peso: 71 kg

Carreira:
1997 – Atlético-MG
1998 – Atlético-MG
1999 – Atlético-MG
2000 – Atlético-MG
2001 – Atlético-MG
2001/02 – Kaiserslautern – ALE
2002/03 – Kaiserslautern – ALE
2003/04 – Kaiserslautern – ALE
2004/05 – Schalke 04 – ALE
2005/06 – Schalke 04 – ALE
2006/07 – Schalke 04 – ALE
2007/08 – Galatasaray – TUR

Títulos: Copa Conmebol (1997), Campeonato Mineiro (1999 e 2000), Copa da Liga Alemã (2005). 

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Equipe Trivela

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