Triunfo europeu, fiasco mundial

A Revista Trivela de maio traz uma ótima matéria sobre a seleção do Egito, mostrando as razões pelas quais seu sucesso nas edições da Copa Africana de Nações coexiste com sua dificuldade de se classificar para Copas do Mundo.

Na Europa, há uma maldição similar. Nesse caso, porém, ocorre um revezamento no posto de vítima, ocupado por seleções de porte médio que, esporadicamente, chegam ao título da Eurocopa.

O exemplo mais recente é o da Grécia. Surpreendente campeã continental em 2004, a equipe foi apenas a quarta colocada de seu grupo nas eliminatórias para a Copa de 2006. A Ucrânia, com 25 pontos, encabeçou a chave, seguida por Turquia (23) e Dinamarca (22). A Grécia não passou dos 21 pontos, graças, principalmente, ao desempenho fraco no início da campanha. Nas três primeiras rodadas (logo após o êxito na Eurocopa), o time treinado por Otto Rehhagel ganhou somente dois pontos. Três dos sete desperdiçados deveram-se a um tombo na Albânia, de onde Ucrânia, Turquia e Dinamarca saíram com vitórias.

A trajetória da Dinamarca, campeã da Eurocopa de 1992, na qualificação para o Mundial de 1994, mostra o mesmo tipo de derrapagem: em seus três primeiros compromissos, os dinamarqueses obtiveram três empates sem gols, contra Letônia, Lituânia e Irlanda. Nas nove partidas seguintes, o time nórdico conquistou sete vitórias, mas o começo vacilante determinou a eliminação. Empatada em número de pontos (18) e saldo de gols (13) com a segunda colocada Irlanda (que foi à Copa, ao lado da líder Espanha), a Dinamarca perdeu a vaga no critério de número de gols marcados (15, contra 19 da Irlanda) – justamente os gols que fizeram tanta falta na seqüência de resultados 0x0.

Não parece ser coincidência o fato de Grécia e Dinamarca, zebras da Eurocopa em 1992 e 2004, terem se atrapalhado nas eliminatórias das Copas do Mundo subseqüentes. Empolgadas com a inesperada glória continental, tais seleções entraram na batalha imediatamente posterior tomadas por um natural relaxamento. Tanto que seus cruciais tropeços aconteceram exatamente no princípio da disputa das eliminatórias, quando o gosto da façanha na Eurocopa ainda lhes adoçava a boca.

O fenômeno se estende à República Tcheca, vice-campeã européia em 1996. Na estrada para a Copa de 98, o time de Pavel Nedved teve um início desastroso, com três derrotas e um empate nas cinco primeiras rodadas – a única vitória foi sobre a fragílima seleção de Malta. O restante da campanha correu bem, mas já era tarde: Espanha e Iugoslávia conseguiram as vagas para a Copa, e Nedved teria de esperar até 2006.

Potências imunes

A antiga Tchecoslováquia também viveu a experiência de realizar proezas na Eurocopa e escorregar no caminho rumo ao Mundial seguinte. Depois do título europeu de 1976, a seleção do país não foi à Argentina em 1978.

Ao contrário das seleções de médio quilate, as tradicionais potências do Velho Continente não sofrem dessa espécie de desconcentração. É o que revela a história. A Alemanha, por exemplo, não teve problemas para ir à Copa de 1998 depois de erguer a taça continental em 1996. O mesmo se aplica à Alemanha Ocidental do início dos anos 80, que venceu a Eurocopa e passou ilesa pelas eliminatórias para a Copa de 1982 (oito vitórias em oito jogos). A Itália de 1970, campeã européia de 1968, e a Holanda de 1990, vencedora da Eurocopa de 1988, são outros exemplos.

O curioso é que, embora não tenham deixado de ir à Copa do Mundo seguinte, essas seleções também não conseguiram vencê-la. A única exceção é a Alemanha Ocidental de 1974, campeã européia de 1972, que não disputou eliminatórias para o Mundial porque foi sua sede.

De qualquer modo, não disputar uma Copa é mais triste do estar nela e não conquistá-la. Vem aí mais uma Eurocopa e, logo a seguir, têm início as eliminatórias européias para a Copa de 2010. Caso uma nova surpresa, como a Dinamarca de 1992 e a Grécia de 2004, desbanque os favoritos do certame continental, terá de lutar contra uma histórica tendência à queda na rota para a África do Sul.
 

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