Toni: Da ribalta ao anonimato

A história deste futebolista é perturbadora. Há 16 anos era o promissor centroavante que causava pânico nas defesas adversárias durante o Mundial sub-20 conquistado por Portugal, dentro de seu território, em 91, levando milhares de ‘adeptos’ ao delírio com gols decisivos. Hoje, esquecido no minúsculo Luxemburgo, trabalha como servente de construção civil – ou ‘trolha’, como preferem os portugueses.

Ao invés de arrojados carros esportivos, jóias, relógios caros, e mulheres, Toni empurra carrinhos de mão com cimento, empilha lajotas e carrega baldes.

Os gritos dos torcedores no estádio da Luz lotado, o assédio do povo, as capas de jornais e revistas estampando seu rosto, já fazem parte de uma dimensão dramaticamente distante.

Nascido na costa atlântica do Guiné-Bissau, extremo-oeste da África, este guineese naturalizado luso teve sua primeira oportunidade no Porto com o técnico brasileiro Carlos Alberto Silva. Tendo escassas aparições, foi logo emprestado ao Sporting Braga, e depois ao Beira-Mar, sempre com rendimento abaixo do esperado, mergulhando assim numa crise existencial.

Em 95 o Salgueiros resolveu apostar nele, e apesar de estar em campo nas memoráveis vitórias sobre o Benfica por 4 a 2, em janeiro de 96, e 2 a 1 sobre o Porto, em fevereiro de 97, o ex-atacante da seleção júnior do país não encantou, e eclipsou-se.

Depois disso, uma curta passagem – frustrante – pelo Marítimo e mais apagada ainda pelo Badajoz, da 2ª divisão da Espanha.

Nos porões das divisões inferiores de Portugal, Toni parecia ressurgir quando em 2001/2, pelo modesto Vilanovense, da 3ª divisão, fez pela primeira vez mais de 30 jogos em uma temporada. Porém, lesionado, passou o certame seguinte em tratamento, até arrumar as malas e seguir sua errante trajetória no exótico futebol do Luxemburgo, defendendo as cores do Hamm, onde jogou sua última partida como profissional em 2005, aos 33 anos.

Daquela geração aclamada em Portugal que reuniu futuros astros da magnitude de Figo e Rui Costa, além de bons jogadores como Jorge Costa, Peixe, e João Pinto, Toni foi um dos poucos que não conseguiram construir uma carreira estável e de considerável destaque.

A vida sempre possui caminhos insondáveis e como escreveu certa vez, Terê Penhabe, na sua poesia intitulada ‘Promessa do Destino’.
“…muitas ilusões que a mim se apresentavam pareciam preciosas mas de latão não passavam”.

Choque de gerações

Segundo o jornalista português Luis Freitas Lobo, quando a seleção sub-20 de Portugal estava embarcando para o Canadá para disputar o recente Campeonato Mundial da categoria, no qual a participação lusa foi vexatória, as declarações dos jovens futebolistas foram dignas de tristeza.

Quando perguntados sobre o que sabiam da gloriosa conquista do Mundial de 91, disputado no país, as respostas foram evasivas.

“Não sei, nunca vi”, e “Acho que nem era nascido”, ou “se calhar ainda nem havia televisão…”.

Com madeixas encharcadas de gel, brincos, tiaras, e tranças afros, a atrevida geração atual ri da história com o nariz ao ar, embora no ‘relvado’ não tenha conseguido repetir a façanha da turma deste ‘trolha’, esquecido em alguma construção civil no Luxemburgo. São novos tempos…

FICHA

Nélson Antônio Soares da Gama “Toni”

Nascimento: 02/08/1972 em Bissau, Guiné Bissau

Clubes que defendeu:
1989/90: Porto
1990/1: Porto
1991/2: Porto
1992/3: Porto
1993:Sporting Braga
1994/5: Beira-Mar
1995/6: Salgueiros
1996/7: Salgueiros
1997/8: Salgueiros
1998/9: Marítimo
1999/0: Marítimo
2000: Leça
2001: Badajoz-ESP
2001/2: Vilanovense
2002/3: Vilanovense
2003/4: RM Hamm-LUX
2004/5: RM Hamm-LUX

Principais títulos:

– Campeão Mundial Júnior (1991)
– Bicampeão português (1991/2 e 1992/3)
– Supertaça de Portugal (1993)

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