Taiwan: uma seleção sem país

Se desenvolver o futebol já é difícil para muitos países estabelecidos, para um que ainda luta pelo reconhecimento de sua identidade é quase um desafio. É neste contexto que está inserido o futebol de Taiwan, ilha no sudeste asiático que, apesar de sua prosperidade econômica, ainda enfrenta dura resistência da China quanto à sua independência. E para piorar o quadro, existe até mesmo quem defenda a reunificação, aumentando a instabilidade e as incertezas – que acabam por se refletir no esporte.

Originalmente parte do Império Chinês, Taiwan foi cedido ao Japão após a derrota na guerra sino-japonesa, voltando ao comando da China após a Segunda Guerra Mundial. Em maio de 1950, com a derrota das forças nacionalistas pelos comunistas, liderados por Mao Tse-Tung, o governo deposto partiu para Taiwan, estabelecendo a “República da China” na ilha, vista até hoje pela China continental, governo instituído, como uma província rebelde.

Apesar disso, o governo chinês não se opõe à participação de Taiwan com sua identidade própria em eventos esportivos, políticos e econômicos. Exige, entretanto, que fique claro que o território ainda faz parte do país. Por isso, a comunidade internacional adotou o uso da terminologia “Taipei Chinesa” para se referir tanto às equipes esportivas quanto a outras atividades.

Fundação confusa

Curiosamente, a história da seleção nacional de futebol também faz parte dos problemas diplomáticos envolvendo China e Taiwan. Em 1924, foi fundada a Associação Chinesa de Futebol, sob o antigo regime nacionalista. Entretanto, com a guerra civil que levou os comunistas ao poder, a federação também se mudou para a ilha. O surgimento de uma nova entidade na China continental não impediu que a antiga mantivesse o nome original, afiliando-se à Fifa em 1954 como representante do país.

Um ano depois, ajudou a fundar a Confederação Asiática de Futebol, já sob o nome de Conselho de Futebol da República da China. A associação criada no continente passou a reivindicar o direito de representar o país no futebol, e começaram as brigas. Em 1973, foi expulsa da AFC e passou a jogar pela Confederação da Oceania, de onde também foi excluída. O problema só acabou (em partes) quando, em 1981, a Fifa concordou em rebatizá-la de Associação de Futebol de Taipei Chinesa.

Os melhores resultados, entretanto, vieram nas décadas de 50 e 60, quando o futebol no continente era pouco popular e Taiwan ainda se considerava a verdadeira seleção chinesa. Bicampeã dos Jogos Asiáticos de 54 e 55, disputou a Olimpíada de Roma, perdendo para o Brasil por 5 a 0. Na Copa da Ásia de 1960, realizada na Coréia do Sul, terminou em terceiro lugar, atrás dos anfitriões, e de Israel, à época ainda na AFC. A maioria dos jogadores, contudo, era de Hong Kong, que possuía boa reputação no futebol do continente. Em 68, um quarto lugar no Irã, com direito a empate com o Japão e vitória sobre a Coréia do Sul.

Declínio rápido, reestruturação lenta

Apesar de um início promissor, o futebol em Taiwan não resistiu à instabilidade política. Com a expulsão da AFC na década de 70, a federação perdeu dez anos lutando para entrar em campo. E quando conseguiu, o nível do esporte nos países vizinhos já havia evoluído muito, transformando a ilha pouco menor que o estado do Rio de Janeiro em um dos lugares mais atrasados do continente em termos esportivos.

Não à toa, desde então jamais voltou a disputar uma Copa da Ásia e possui um dos históricos mais negativos das Eliminatórias para Mundiais: 28 derrotas em 36 jogos, com 21 gols marcados e 115 sofridos – a defesa é vazada em média 3,19 vezes por jogo. Para 2010, a desclassificação aconteceu já na fase preliminar: derrotas por 9 a 0 e 2 a 0 para o Uzbequistão.

Os resultados não surpreendem quando se descobre que ainda hoje os jogadores que formam a seleção são todos amadores. Basquete e beisebol são os esportes mais populares da ilha, e até o futsal tem mais seguidores: Taiwan foi sede da última Copa do Mundo da categoria, em 2004 (os anfitriões tiveram a pior campanha). A falta de jogos num nível competitivo, além dos poucos atletas registrados, também retarda a já lenta evolução do futebol no país.

Ao menos, esforços têm sido feitos para melhorar o quadro: após a primeira participação em Eliminatórias, em 1982, o interesse popular aumentou consideravelmente e uma liga foi fundada em 1983. Até hoje, o campeonato nacional é semi-amador, mas foi reestruturado recentemente e recebeu até patrocínio: agora é chamada “Enterprise Football League”. Times de faculdades, antes participantes assíduos, foram excluídos na tentativa de dar um ar mais profissional à liga.

Os resultados, ainda que tímidos, começam a aparecer: antes saco de pancadas, Taiwan começa a vencer algumas partidas qualificatórias, como os 2 a 1 sobre Cingapura no pré-olímpico e os 3 a 0 em cima do Timor Leste na Copa da Ásia. Em um amistoso no ano passado, conseguiu sua maior vitória até hoje: 10 a 0 sobre Guam, A abertura lenta e gradual das barreiras econômicas, que transformou a ilha em um dos novos tigres asiáticos, pode atrair investimentos também para o futebol, ajudando a colocar definitivamente a rebelde província do sudeste asiático no mapa.

E se essa afirmação ajudar no reconhecimento da identidade nacional de Taiwan – ou mesmo para reduzir as tensões com a China –, o futebol novamente terá cumprido seu papel de fenômeno social e cultural de uma nação. Nação que, no caso de Taiwan, já provou ter condições de existir por si só.

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Equipe Trivela

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