Sobre Santos e Futebols

por Sergio Vinicius * (SEGUNDO COLOCADO)

– Eu estava pensando uma coisa estranha.

– Que coincidência, eu também – retrucou o mímico Fábio.

André o olhou torto. Estranhou que o mímico falasse, mas, pelo menos, achou melhor ter alguém para debater o que havia pensado do que morrer com aquele pensamento estúpido.

– Esse negócio de canonizar. A tendência é que a Igreja Católica continue a canonizar as pessoas pelos próximos, sei lá, cem ou mil anos, correto?

– Não sei dizer. Mas eu estava pensando aqui. Se, num jogo de futebol, a bola pára em cima da linha. Se o jogador estiver longe e tacar a chuteira, acertar a bola e ela entrar. Vale o gol? – pergunta Fábio, sem fazer mímica.

– Pois então. Daí ela vai ter que canonizar pessoas que nasceram hoje. Porque isso leva tempo. Nego que nasceu no começo do século retrasado, como o Frei Galvão, que é de 1700 e qualquer coisa. – emenda André.

– Eu acho, honestamente, que o Galvão Bueno não saberia explicar. Talvez o Arnaldo… – continua Fábio, sem mexer os braços.

– Pois bem, daqui muitos anos, os canonizados serão contemporâneos nossos. Dessa forma, acho que as imagens de santos mudarão. Em vez de santos com mantos ou togas, veremos imagens de santos com skate nos pés ou de terno e gravata. Tipo santo executivo ou santo skatista.

– Porque, se pensarmos friamente, é mais fácil o cidadão correr pra chutar a bola do que parar, tirar a chuteira, mirar e acertar.

– Se bem que jamais a Igreja canonizaria um skatista. A não ser que esse santo skatista só usasse o skate pra ir de um lado pro outro porque não é poluente. E só iria de um lado para o outro para fazer caridade. Seria um santo politicamente ecológico, ainda por cima.

– Mas se acontecesse do atacante cair fora da área, se enrolar com o goleiro, ter uma torção, sei lá. Isso justificaria atirar a chuteira, já que ele não poderia levantar.

– Como eu queria viver mais uns mil anos, só pra ver gente adorando santo de gravata, de minissaia ou vestido de jogador de futebol. Mas com o uniforme completo, com meião, número nas costas e tudo.

– Uniforme completo? É, o gol não deve valer mesmo. Você tá certo: pro gol valer, o jogador tem que estar com o uniforme completo. Me tirou a dúvida, obrigado. Você é um santo! – finalizou Fábio.

Santo. Ao ouvir isso, André sorriu. E levantou do monte de feno onde passara a noite. Deu um grito e correu. Correu sem parar até Fábio o perder de vista.

O mímico o fitou ao longe, deu de ombros e, por força da profissão que ecolhera, não pronunciou palavra. Pelas suas próximas 12 horas, pelo menos.

Quando pode novamente falar, fim do expediente, disse: “quem será que André acha melhor, Rivaldo ou Zidane?”.

André, fora da vista de Fábio, pensava, sem falar, em questão parecida. “Se a Igreja fosse canonizar, canonizaria Zidane ou Rivaldo?”.

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