Sobre carruagens e abóboras

por Ayres Santos

Passei muitos anos de minha vida frequentando o Fluminense. Nadei lá, joguei tênis e futebol de salão e não vou ser piegas de dizer aqui que tenho carinho pelo tricolor porque aí é exagero. Mas respeito o clube, tenho muitos amigos e familiares tricolores e acho, acima de tudo, que o futebol do Rio necessita de ter sempre os quatro grandes na primeira divisão, com bons times, disputando torneios sul-americanos e aquecendo as nossas rivalidades domésticas.

Tenho acompanhado as notícias tricolores com muito espanto e incredulidade. Os caras ganham o Brasileiro, se acham a versão tupiniquim do Chelsea com o Celso Barros Abramovich, contratam a rodo, Muricy é o bambambam e, de repente, o clube está nas páginas dos jornais entre ratos, buracos e o SUS. Enfim, que pasa muchachos?

Eu tenho um amigo (talvez meu alter ego, who knows?) que tem uma teoria a respeito. O Fluminense vive uma bolha, como foi a bolha de especulação imobiliária aqui nos EUA e como a carruagem da Cinderela. Muita gente fez piada com meu Vasco, Segundona e tal, mas o fato é que o Vasco caiu, ganhou a Segundona de ponta a ponta, encheu São Januário e até o Maraca com públicos de 75/80 mil e fez um campeonato de 2010 bastante razoável dentro das expectativas de elenco.

Enquanto isso, o Flu quando caiu, despencou, caiu a seguir pra terceira, teve públicos ridículos em vários jogos e só voltou por virada de mesa. Acho que faltou aos dirigentes que estiveram lá durante esses anos de bolha (Flunimed), o senso de perceber que esse sonho, que redundou no titulo de 2010, vai acabar a qualquer dia. E a estrutura real é um campo esburucado, um estádio caindo aos pedaços e ratos no vestiário.

Como pode um time que revelou e vendeu os gêmeos do Manchester United, Marcelo, Maicon e o Wellington Silva nos últimos 4, 5 anos e que paga R$ 700 mil pro Deco e R$ 600 mil pro Fred, não ter dinheiro pra dar o mínimo de condição a seus profissionais? Não defendo o Muricy também. Na minha opinião, não passa de um retranqueiro ranzinza (mas vencedor) que pratica futebol de resultados em detrimento da estética. Respeito quem gosta do estilo dele, mas eu detesto. O Cuca fez um trabalho muito mais brilhante (e difícil) a frente do Fluminense.

O Muricy sugou a fruta enquanto podia e quando viu que estava no bagaço, pediu o boné e vazou. Todos os problemas que ele citou eram exatamente iguais quando ele entrou. Se ele tinha problemas com a estrutura, que não tivesse aceitado o convite. Ele foi técnico do Flu por menos de um ano. O que ele queria, que problemas que existem há décadas fossem resolvidos da noite para o dia? E as contratações? Ele condordou com a esbórnia de sair contratando a rodo sem o mínimo critério? Como pode pagar um salário astronômico para o Belleti? Qualquer um que acompanhe futebol inglês sabe que ele já tinha virado baba há algum tempo.

Eu não sei se o Wellington Silva vai ser o próximo gênio do futebol, mas se o clube tem uma empresa forte bancando, será que não dá para segurar os garotos e soltar na hora certa, como São Paulo, Inter e Santos fazem? O torcedor tricolor vai dizer: “mas nosso elenco ainda é muito bom. Temos peças de reposição. Assim que um técnico engrenar, brigaremos pelo bi”. Mas isso é ilusão. Está mais que provado que a médio e longo prazo, o que dá títulos e consistência é estrutura. O resto são pequenas bolhas intercaladas por grandes períodos de sufoco.

Inter, São Paulo, Cruzeiro e, ultimamente, Santos e Grêmio estão aí para provar. O Corinthians foi campeão e depois caiu, o Flamengo foi campeão um ano e passou sufoco no seguinte, porque não tem a menor estrutura. É tudo feito em cima da perna, na emoção. Acho até que a bolha tricolor vai durar mais um tempo, mas o fato é que ninguém sabe o que sustenta o esquema/patrocínio Unimed. Se o Celso Barros sair, o que será do tricolor?Todas as estrelas do time são pagas por ele, quem vai sobrar?

Vi uma entrevista do Peter Siemsen, que eu conheço desde criança (nossas mães eram melhores amigas) e fiquei estupefato com a inocência dele para quem preside um clube de futebol. Primeiro, jamais o Muricy poderia sair dando essas declarações. Ele, como excelente advogado que é, deveria ter feito um adendo que fosse na rescisão de contrato com uma cláusula de confidencialidade que limitasse o número de baboseiras que o Muricy pudesse falar, como a situação de ratos.

Isso foi altamente danoso pra instituição Fluminense e demonstra o despreparo de todas as partes envolvidas. Na entrevista do Peter, vi um cara cheio de boas intenções, mas completamente perdido, sem saber que caminho tomar. E o que vejo nos últimos dias só confirma isso: duplicidade de comando, desespero de querer contratar um técnico de qualquer maneira, aliciamento a profissionais contratados por outros clubes – o que alias é uma característica do Celso Barros, um sujeito extremamente instável e impulsivo, o que transforma a situação do Fluminense basicamente uma bomba relógio prestes a explodir.

E o day after, como será? Os outros times que caíram, como Vasco, Atlético, Grêmio, Corinthians e Palmeiras, tiveram torcida e/ou estádio para se reorganizar e voltar. O Fluminense não, e isso ficou claro quando o time caiu para Segundona e depois Terceirona. Dê uma analisada nos seus amigos tricolores e pense quantos irão assistir Flu e Icasa sexta à noite no Engenhao, no caso de um rebaixamento?

Em momento algum desejo a queda do Fluminense e estou escrevendo isso enquanto o time ainda está em cima da onda, pode até se classificar na Libertadores. Mas acho que os torcedores do Fluminense deveriam se preocupar menos em que será o novo técnico, ou quem será o novo contratado do Celso Barros, mas, sim, em cobrar da nova diretoria uma estrutura no futebol, CT, reforma de Xerém, núcleos de base e que se use essa lavagem de roupa suja para mover pra frente e estruturar, como o Vasco vem fazendo. O trabalho do Rodrigo Caetano é impecável, alguns erros aconteceram e isso é normal, mas acho que ele acertou 80% das vezes.

Hoje existe uma base, contratos longos com profissionais e quando tivermos um centro de treinamento adequado, a estrutura vascaína não ficará nada a dever as melhores do Brasil. Por incrível que pareça, o ano que o Vasco passou na segunda divisão foi fundamental pra virada vascaína, para exorcizar o Eurico e todo o desastre que tinham sido os últimos anos dele a frente do Vasco. Acho que na eleição desse ano, não tem como voltar atrás. Ainda que os resultados de campo não sejam fenomenais, qualquer vascaíno com um mínimo de senso, não pode querer a volta aos tempos de Tetis, Abedis, Valdirans e do grande Valdir Papel. Eurico nunca mais, por favor.

Com relação aos outros cariocas, vejo o Flamengo vivendo de loucura e ilusão, o Botafogo com problemas momentâneos de elenco (graves – não sou fã do Joel, mas até que com essa galera, ele faz milagre, não tem como não jogar retrancado, Zobaran). O Flamengo tem torcida que gera receitas, diretas e indiretas, e maqueiam a zona que é a administração do clube e o Botafogo acertou na loteria com o Engenhão, que será o estádio dos clássicos e dos três grandes do Rio pelos próximos dois anos. Vai gerar muita receita e é sempre uma garantia para o clube. Que se use essa “bolha” também para gerar também uma estrutura paralela, CT e estrutura de base.

Os anos de “compra que a torcida paga” e insensatez estão acabando. Futebol, como todo o resto que nos cerca é um negocio e achar que você pode confiar tudo num mecenas, seja ele quem for, é uma ilusão que termina sempre em desastre, vide Vasco/Nations Bank/Eurico, Palmeiras/Parmalat, Corinthians/ISL/Kia/Dualib, Gremio/ISL, enfim os exemplos estão todos por aí. Acho que parcerias são normais, empresários vão colocar jogadores aqui e ali, posso até não gostar dos Carlos Leites, Traffics e grupos Sonda, mas esse modelo mais moderno e pulverizado de parceria é menos perigoso e instável do que os Flunimeds e Atletico/BMG/Kalil da vida, onde uma canetada pode siginificar o rebaixamento do clube.

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Equipe Trivela

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