Saída para o êxodo

O Globo deste domingo, 21 de setembro, bate numa tecla que de tão desgastada já está saindo do teclado tal qual o “shift” do meu primeiro computador depois de que instalamos “Pinball” lá em casa. O assunto é a saída precoce dos jogadores brasileiros e sua conseqüência naquilo que consideramos ser o jeito brasileiro – e único – de jogar futebol. Observar o fenômeno é até interessante e em um meio tão reticente à participação científica, cada um formulará sua própria tese e a defenderá com a arrogância de um doutor no assunto. Mas, será que não estamos esquecendo algumas coisas?

O assunto é tão complexo que facilmente nos perdemos nas inúmeras características do processo. Por um lado, jogadores saem cada vez mais jovens para o exterior, se desenvolvem como atletas em outra cultura, perdem contato com nossa técnica, se pasteurizam e levam consigo o nosso orgulho nacional. Por outro, o futebol deixa de ser uma brincadeira e é encarado como a chance da vida para crianças que ainda nem chegaram na adolescência, a identificação com os times já não existe mais, o desejo de atuar pela seleção brasileira morre.

O processo é natural e benéfico. Sim, benéfico aos jogadores ou meninos que ganham a oportunidade de praticar a profissão que escolheram, ganhar dinheiro com isso, viver novas e ricas experiências no exterior, receber uma educação (mesmo que não aquela formal que imaginamos, com colégios e professoras chatas) que o país não os oferece. É bem verdade que muitos, a maioria, ficam no caminho. São enganados por empresários, procurados, dirigentes e técnicos, alvo de desilusões que podem ser devastadoras, mas tudo isso faz parte de uma carreira profissional.

O importante não é evitarmos que jovens saíam do Brasil para tentar a sorte no futebol. Temos, sim, que repensar o quão adaptados estamos ao futebol que se tornou uma indústria. Antes, os negócios ainda engatinhavam e contratar estrangeiros – o que já acontecia desde os anos 30 – ainda era um risco grande para clubes de futebol. Hoje, as receitas jorram de direitos de televisão, bilheteria e patrocínios e, como conseqüência, quem tem mais cacife se arrisca mais. Isso ressalta à diferença econômica entre o Brasil e os países europeus. Os times daqui vestem a camisa de formador e até passam a bola para empresários que dominam clubes tradicionais e montam equipes de fantasia, com o exclusivo interesse de lapidar e apresentar seus produtos.

Se não podemos competir com a realidade econômica do nosso país, temos que incentivar a criatividade dos nossos dirigentes. A valorização do futebol praticado no Brasil passa por questões básicas como o cumprimento de contratos, estudo para a valorização de novos acordos financeiros e o respeito ao público (seja o que vai ao jogo, o que ouve o jogo, o que assiste ao jogo na televisão, o que clica no vídeo do jogo, …) que é o consumidor final do futebol.

Só então, aquele craque vai querer jogar no meu time. O torcedor vai querer pagar o ingresso do jogo. As emissoras de TV vão brigar para ver quem vai passar o campeonato. Aquela multinacional vai investir naquele patrocínio de camisa. Aquela marca de refrigerante vai fazer um contrato de exclusividade para vender a bebida lá no estádio, que certamente vai ser confortável e o torcedor não vai precisar passar por uma provação até conseguir chegar à arquibancada.

Só então, ir tentar a sorte tão cedo no futebol europeu talvez não seja uma aposta tão certeira.

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Equipe Trivela

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