RSVP

Imagino ser consenso que a atuação de Cristiano Ronaldo contra a Holanda foi a mais importante que o atleta já teve pela seleção portuguesa. E olhe que nem chegou aos pés de várias de suas exibições por Manchester United e Real Madrid, o que mostra o quanto ele ainda pode ser determinante a serviço de seu país. O desespero holandês pode atenuar, mas não invalida o desempenho individual mais notável da Euro 2012 até aqui. Cabe questionar por que ele só atingiu este nível depois de ser severamente pressionado por um jogo muito ruim. Se soubessem que o segredo para despertar seu futebol era gritar o nome de Messi, os lusitanos teriam feito isso eles mesmos, sem precisar da debochada ajuda da torcida dinamarquesa.

Está cada vez mais difícil encontrar uma discussão pública cujos argumentos não sejam afetados por exageros de parte a parte. Não só no futebol, em qualquer área da vida. Quando o assunto é Cristiano Ronaldo, um sujeito que parece não dar a menor bola para o que os outros pensam de sua postura, não poderia ser diferente. Muitos caem no ridículo de reduzi-lo a um produto de marketing, como se fosse possível forjar alguém que jogue tanta bola. E insistem que ele é pipoqueiro, ignorando os momentos em que foi decisivo pelos clubes onde atuou. Reclamam também que ele é vaidoso, mas desde que ele não abandone um lance para ajeitar o cabelo, está no direito de ter suas frescuras.

Indignados por lerem e ouvirem tantas bobagens, os que defendem o craque às vezes também derrapam na compaixão. Quando Ronaldo é criticado por alguma atitude arrogante ou chilique, já dizem logo que o jogador é vítima de perseguição, como se ele nunca desse motivos. Jogar a culpa no nível de seus companheiros por participações tão discretas com a seleção de Portugal também não cola mais. Não se trata de cobrar o mesmo desempenho que ele tem em seu clube, mas de exigir um pouco mais de vivacidade e liderança. Não precisa sair dando grito nos companheiros, basta chamar a responsabilidade com a bola nos pés, como fez em Kharkiv.

É preciso encontrar modos de motivá-lo a fazer mais partidas como a última. Não creio que ele não tenha orgulho de defender seu país ou não se sinta empolgado em disputar uma competição do porte da Euro, mas tais motivações não têm despertado o algo a mais que ele pode apresentar. Se for preciso alimentar sua obsessiva ambição em ser eleito o melhor do mundo, que assim seja. Mesmo com o Real batendo o Barcelona em solo espanhol, Messi fez sua temporada mais impressionante em termos de números, o que deve mantê-lo na frente do páreo. Porém, Cristiano Ronaldo tem a chance de levar Portugal a uma final de Euro, podendo desbancar a Espanha numa semifinal, o que certamente fortaleceria sua campanha para chegar ao trono.

Aproveitando-se dos espaços dados pela maternal defesa holandesa, o craque mostrou boa parte de seu repertório, marcando os gols que havia perdido diante dos dinamarqueses e criando lances que estiveram longe de acontecer em sua preguiçosa aparição contra os alemães. Para não depender mais de Varela para salvar a sua pele, Cristiano Ronaldo precisa colocar na cabeça que sua seleção depende, e muito, dele. Nem que seja na marra, sendo acordado no meio da madrugada por companheiros o lembrando de que ele não é melhor que Messi (como se isso fosse algum defeito). Bom saber que o convidado mais ilustre da Euro 2012 resolveu dar as caras. Ele veio. Demorou, mas chegou. E, como os tchecos são os próximos adversários, tem tudo para ficar um pouco mais.

Desfechos óbvios, desempenhos frustrantes

A Alemanha, que nunca havia obtido 100% de aproveitamento em uma fase de grupos da Euro, não fez grande partida contra a Dinamarca, apenas jogou o suficiente para batê-la, confirmar a primeira colocação da chave e alcançar a marca citada. Além do gol sofrido, só foi assustada por uma bola na trave, quando o placar era de 1×1. Muito pouco para os escandinavos, que precisavam vencer. Mas o saldo final da Dinamarca é positivo. Além de deixar o papel de saco de pancadas do grupo da morte para a decepcionante Oranje, a equipe provou não ser aquele desastre todo que se pintou na goleada em amistoso contra o Brasil.

O desempenho discreto dos tedescos poderia soar mais alarmante, se a outra grande favorita da competição não tivesse flertado com a desclassificação. Mais uma vez demonstrando falta de objetividade, a Espanha cozinhou um jogo perigoso, no qual a Croácia esteve a um golzinho de promover uma grande zebra. E não faltaram chances a Modric e sua turma. Fernando Torres não foi bem e não é de se estranhar se a Fúria atuar sem centroavante de ofício nas quartas, com Fàbregas, muito mais efetivo, brincando de falso nove. Com qualquer um dos dois, 1×0 continuará sendo goleada.

A Itália abriu o placar bem mais cedo, mas também correu riscos desnecessários contra a já eliminada Irlanda. A impressão positiva da estreia vai se desfazendo. A ironia é que a pátria do catenaccio deverá tomar toda a iniciativa no confronto contra a Inglaterra, que continua tentando imitar o Chelsea, até aqui com bons resultados. Se Prandelli realmente está comprometido com um futebol mais atraente, deveria dar uma chance a Diamanti, no lugar do burocrático Thiago Motta. Na Inglaterra, Rooney está de volta e parece motivado (nem que seja a mostrar seu frondosamente ralo semitopete). Aguarda-se a presença de Ashley Young, que ao contrário de Cristiano Ronaldo, ainda não respondeu ao RSVP que dá nome a este post.

Quem deixou muito a desejar foi a França, que fez a caridade de tirar a Suécia do zero, servindo de figurante para o gol mais bonito do torneio, no voleio exemplar de Ibrahimovic. Nasri, que começou muito bem a Euro, está em queda livre. Com as mudanças constantes no décimo primeiro jogador da equipe (Malouda começou contra a Inglaterra, Ménez encarou a Ucrânia e Ben Arfa foi o escolhido para a função na terceira partida), Blanc não demonstra estar rodando o elenco ou que monta o time de acordo com o adversário. Parece sim indeciso. Contra a Espanha, os azuis terão de entrar em campo com o foco anda faltando ao seu treinador.

O inesperado

O que poucos esperavam é que a Rússia ficasse de fora, quando lhe bastava um empate com a limitada Grécia. Na hora que em que o cerco apertou, os russos mostraram a mesma falta de personalidade (para não dizer outra coisa) da qual haviam sido vítimas nas eliminatórias para a Copa de 2010, quando foram superados pela Eslovênia. Arshavin lembrou que ainda está vinculado ao Arsenal e sumiu. Dzagoev lutou, mas mostrou que ainda precisa amadurecer. Os tinhosos gregos deram merecida alegria a um povo devastado pela crise. Resta saber se conseguirão aprontar para cima dos seus rivais econômicos, os nativos da terra da austera Angela Merkel.

Quem também congelou no momento da decisão foi a Polônia, que se especializou em só atuar bem nos primeiros trinta minutos de cada jogo. Quando o gás injetado pela torcida acabava, virava presa fácil. A pior República Tcheca de todos os tempos, mesmo sem apresentar rigorosamente nada que a credenciasse a uma vaga nas quartas, segue adiante. Quase que por W.O. de seus adversários.

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Equipe Trivela

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