Remontando a trajetória

Há duas edições, esta coluna falou a respeito da queda forte – e vergonhosa, diga-se de passagem – do futebol italiano nas competições europeias. O Milan estava prestes a cair para o Tottenham, na Liga dos Campeões, e caiu; a Roma havia sido facilmente superada pelo Shakhtar Donetsk no jogo de ida, e foi despachada com ainda menos trabalho na volta; e até o Napoli, de temporada elogiável, havia caído frente ao Villarreal. Para completar, a Internazionale falhara numa hora decisiva, contra o Bayern Munique. E poderia seguir a dura sequência.

Mas não seguiu. Esteve bem perto, é verdade: se Eto'o abriu o placar tão logo a partida começou, a falha de Júlio César em chute de Robben, que permitiu a Mario Gómez empatar o jogo, resultou no início de uma pressão monumental do Bayern. Aproveitando-se da fragilidade defensiva interista, o Rekordmeister criava chances e mais chances. Fez 2 a 1. Poderia ter feito bem mais e, definitivamente, mandado a Inter para casa, de modo até humilhante para a atual campeã europeia.

Não aconteceu. Porque a equipe alemã começou a se segurar na defesa cedo demais. E a Internazionale aproveitou o espaço dado para começar a atacar, puxada pela valentia de Eto'o e pela rapidez de Sneijder, que empatou o jogo. Com uma atuação já irregular, o miolo de zaga do Bayern começou a ficar cada vez mais pressionado. Até que, a três minutos do fim, Breno não conseguiu parar Sneijder. E ele deixou a bola para Pandev fazer 3 a 2 e consolidar a classificação nerazzurra.

De equipe praticamente vencida, que tivera um fim turbulento em 2010, a Inter transformou-se novamente numa equipe que tem tudo para ir longe, novamente, na Liga dos Campeões – até porque foi favorecida pelo sorteio das quartas de final, que lhe reservou um Schalke 04 com alguns bons jogadores (e Raúl, um dos cidadãos com mais história na Liga dos Campeões), mas que terá de se acostumar às pressas com o estilo de Ralf Rangnick, o novo técnico. A “rimonta” (em italiano, reação) que a Beneamata teve lhe deu nova vida, remoçou sua campanha na LC. Como, diga-se de passagem, já aconteceu outras vezes.

Por exemplo, nas quartas de final da temporada 2003/04. O Monaco perdeu no Santiago Bernabéu para o Real Madrid (4 a 2), e teria de vencê-lo por dois gols de diferença – isso, sem ver suas redes balançarem mais de duas vezes, o que daria vantagem aos madridistas, pelo gol fora de casa. Pior: Raúl abriu o placar no Luis II. Foi aí que a equipe de Didier Deschamps se armou de força para correr atrás da virada. E a conseguiu. Pode-se dizer que aquele 3 a 1 fez com que o ASM se fortalecesse e crescesse de produção naquela LC. A ponto de ter conseguido, também, suportar forte pressão do Chelsea, nas semifinais. Sem contar os clássicos 4 a 0 que o Deportivo aplicou no Milan, que carregava uma vantagem de 4 a 1 na ida.

Salte-se, então, para 2006/07. O Real Madrid também ganhava bem o jogo de ida das oitavas de final, contra o Bayern Munique. Mas Van Bommel diminuiu para 3 a 2, aos 43 minutos do segundo tempo (e ainda fez um gesto obsceno para as arquibancadas do Santiago Bernabéu). Bastou para fazer a esperança dos bávaros crescer. E bastaram alguns segundos para que a pressão da Allianz Arena se fizesse sentir, na volta: Roberto Carlos falhou na saída de bola, e Roy Makaay marcou o gol que abriu caminho para a classificação do Bayern.

Nas quartas de final, o time de Munique enfrentou o Milan. Que ficou a perigo, com o empate por 2 a 2 na ida, em pleno San Siro. Mas que teve a coragem de dar ao Bayern um pouco do próprio veneno: soube se impor na Alemanha, fez 2 a 0 e ali se fortaleceu como um time realmente favorito para aquela Liga dos Campeões que terminaria por conquistar.

E foi exatamente uma história dessas que a Internazionale protagonizou: um time que conseguiu reverter um cenário totalmente adverso para conseguir uma classificação heróica às quartas de final. Se é nesta fase que os favoritos ao título se cristalizam, agora já se sabe, em Appiano Gentile, que a Inter tem condições para tanto.

Diferença decisiva

Real Madrid e Manchester United são duas equipes que adotam um estilo parecido de jogo. Não costumam se arriscar muito. Até vão ao ataque, mas preferem dar a iniciativa ao adversário. Que, normalmente, oferece espaços que serão aproveitados pelos Merengues ou pelos Red Devils. Assim é a lógica de pensamento dos times de José Mourinho e Alex Ferguson. Foi assim que ambos eliminaram Lyon e Olympique de Marseille, respectivamente.

Porém, a atuação dos dois times exibiu uma diferença. Sutil, mas que pode ser decisiva para o destino de ambos na Liga dos Campeões. O Real Madrid foi retraído como sempre, mas levou o jogo de volta das oitavas de final a seu belprazer. Não só era mais efetivo no ataque, como raramente sofria com as parcas tentativas lionesas de ataque. Venceu facilmente por 3 a 0 e encerrou o incômodo tabu das oitavas de final sem muita dificuldade.

Já o Manchester United, mesmo jogando também para conservar a vantagem, ofereceu espaços e errou em seu campo de defesa. Por isso, passou boa parte do jogo sendo pressionado pelo Marseille. Conseguiu marcar o segundo gol, que lhe aliviou, mas logo sofreu outro e jogou sob tensão até o final da partida. Ou seja: justamente na parte final da temporada, a imagem intransponível que o United tinha parece ter algumas rachaduras.

Talvez isso não explique nada. Talvez explique porque, quando se fala de um favorito para Real Madrid x Tottenham, o Real seja apontado sem pestanejar, enquanto, em Chelsea x Manchester United, não bastasse o equilíbrio natural do jogo, os Blues ganham mais apostas.

Único entre todos

Esta é a tradução da inscrição no escudo do Benfica (“E pluribus unum”). Mas pode ser também a descrição do desempenho de Portugal na Liga Europa. Porque, embora já se saiba que o torneio é privilegiado por centros menores do futebol europeu, fazia tempo que um país não obtinha tanto destaque nas fases eliminatórias de um torneio – desconsidere-se, aqui, centros grandes, como a Inglaterra.

E o domínio é justo. Porque o Porto não correu quase nenhum risco contra o CSKA Moscou, sendo naturalmente superior. Porque o Braga exibiu um esforço admirável, merecendo muito mais a vaga do que o opaco e apático Liverpool. E porque o Benfica soube jogar com a vantagem debaixo do braço contra o Paris Saint-Germain.

É por tudo isso que os portugueses têm um cenário único na Liga Europa. Ainda que haja ucranianos e russos, os rivais na lista de coeficientes da Uefa, com chances de se classificarem; ainda que os holandeses experimentem uma ligeira reação; o domínio é dos lusos.

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Equipe Trivela

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