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Relembrando a Geral do Maracanã

Anos 70. Maracanã apinhado. 150 mil pessoas entram e saem do “maior do mundo” sem tumulto. Sem morte. Uma fatia dessa galera é a geral. Aliás, “galera” é anagrama de “a geral”. Mais do que anagrama: sinônimo. 30 mil torcedores humildes, fiéis, de pé, de radinho colado na orelha, de escudo colado no coração. Os ataques aéreos, tão comuns décadas depois, ainda eram raros. O único galo na cabeça do Geraldino era o Zico, e o ruído de bomba só se ouvia quando Dinamite acertava em cheio a esférica.

Ah, dá uma nostalgia louca daquelas tardes de sol no quengo e das noites de doce sereno. Como esquecer a súplica na hora do escanteio, o palavrão para o treinador, o tira-gosto bate-e-entope, o aroma da grama, o frevo dos gols nos dias de chuva? O habitué desse espaço ficou desabrigado. Desde abril de 2005, ele vive sem o espaço onde, durante anos, investiu uma parcela de seu exíguo ordenado. A vitória do time, somente ela, podia pagar com juros as sacrificantes prestações. O despejo cruel foi, na verdade, o lance final de uma lenta agonia. Há muito, o trabalhador vidrado em futebol, freqüentador típico daqueles 13 degrauzinhos de cimento, já vinha sendo forçado a longos exílios e a incertezas desanimadoras.

Sem essa de picadeiro alternativo dos palhaços urbanos. A Geral do Maracanã sempre foi muito mais do que isso. A fantasia, a peruca e o cartaz vieram muito depois, quando as lentes da TV estimularam um folclore forjado, para burguês ver no Jornal Hoje. Essa nova faceta da Geral, fabricada pelas câmeras e pronta a satisfazer a sede de coisas grotescas que a mídia tem, vem sendo considerada a cara que o setor sempre teve, o que é um erro crasso. Na maior parte de sua existência, a Geral acolheu o povão que, separado do gramado por um fosso de 3 metros de largura e 3 de altura, gritava e esperneava pelo seu clube, sem se preocupar com possíveis closes. Bons tempos esses, nos quais a cultura da imagem ainda não havia esparramado seus pegajosos tentáculos.

A genuína cultura da Geral do Maracanã é bem diferente. Tem pouco a ver com circo, cédulas de um real ao vento e recadinho para o Galvão. É a cultura da relação visceral entre torcedor e time, da paixão que supera as adversidades (visibilidade ruim, conforto nulo etc), da interação com a partida, da cumplicidade com a emissora AM, do grito do fundo d’alma, que precisa ser ouvido. É a cultura do sujeito cuja disposição para o pesado batente de segunda-feira depende crucialmente do resultado do domingo. Está muito mais para os igualmente abolidos ‘terraces’ (ou ‘kops’) do futebol inglês – atrás das balizas, com torcedores em pé – do que para o desfile de figuras caricatas e exóticas de que a TV tanto gosta.

Nos ‘terraces’, também não havia assentos. Após o Relatório Taylor (saiba tudo sobre ele no número 8 da revista Trivela), que estipulou novas normas de estrutura e conduta para os estádios da Inglaterra, o proletariado foi desalojado das arenas futebolísticas, hoje remodeladas, providas de suntuosos camarotes executivos e voltadas para o consumo das elites. Trocando em miúdos: o hooliganismo foi o grande pretexto, a razão das mudanças, mas o dinheiro já estava mesmo esperando, sorrateiramente, a ocasião propícia para impor ao futebol britânico o seu valor. Com a Geral do Maracanã, ocorreu algo parecido: a desculpa para o seu longo abre-e-fecha, que culminou com o desaparecimento definitivo, pautou-se sempre na violência, embora a principal causa estivesse atrelada a interesses do mundo dos negócios.

O calvário

Bem antes das reformas para o Pan 2007, que rebaixaram o gramado em um metro e meio e trocaram a Geral por 18.000 cadeiras azuis, a falecida já apresentava sintomas graves. O primeiro baque foi o incidente do segundo jogo da final do Brasileiro de 1992, entre Flamengo e Botafogo. A mureta da arquibancada cedeu, provocando a queda de muitos torcedores rubro-negros. Três pessoas morreram e várias se feriram. Apesar de o desastre não ter envolvido a Geral, as conseqüências da tragédia respingaram por lá.

O campeonato carioca de 1992, disputado no segundo semestre, não teve Maracanã, interditado para obras. No mesmo ano, a FIFA decidiu que, em jogos internacionais, passariam a ser obrigatórios os assentos individuais, por questões de segurança. A deliberação da entidade (somada à triste lembrança das vítimas do Brasileiro) originou os primeiros maus augúrios em relação ao futuro da Geral. Em 1993, Romário fez dois gols, o Brasil derrotou o Uruguai e garantiu o tíquete para os EUA. No Maracanã, o público foi de 101.533 pagantes, distribuídos entre arquibancada e cadeiras. Um cenário bem distinto do de 4 anos antes, quando as duas seleções se digladiaram na final da Copa América. O gol havia sido assinalado pelo mesmo centroavante e o Brasil também tinha saído vitorioso, porém a Geral, entupida, férvida e pululante, dava outra feição ao espetáculo. O Romário de 1989 foi comemorar lá, junto com a massa em polvorosa. O de 1993 não pôde.

Em 1994, um Vasco x Flamengo, o único na vida de Dêner, foi o penúltimo clássico carioca a ter um público oficial de mais de 100.000 pagantes (o derradeiro seria o Fla-Flu do gol de barriga de Renato Gaúcho). No final do ano seguinte, a Geral seria fechada por tempo indeterminado, e por isso as platéias do Maracanã nunca mais superariam a marca. Coincidentemente ou não, 1995 foi o ano em que Kleber Leite assumiu a presidência do Flamengo. Sua empresa, a agência Klefer, do ramo de marketing esportivo, explorava as placas publicitárias do Maracanã, verdadeiras inimigas dos freqüentadores da Geral, e não apenas porque lhes prejudicava enormemente a visão. O aspecto colorido e irrequieto do setor mais popular do Maracanã representava, na visão propagandística, nada mais que um inconveniente adereço, um borrão incômodo.

Isso nunca foi confessado às claras. O próprio Kleber, quando tentava justificar o vazio da Geral nos jogos de seu clube, alegava razões econômicas – fechado um setor inteiro, reduziam-se as taxas do dispendioso Maracanã. Para tentar atenuar o desolamento do rubro-negro acostumado a pisar naquele concreto, o Flamengo adotava, nas cadeiras azuis, o preço módico da Geral. E foi assim que, durante muito tempo, a paisagem da Geral exibiu, durante as partidas, apenas uma ambulância, que também parecia estar lá muito mais para divulgar a marca de um plano de saúde do que para qualquer outro fim.

Um dos últimos jogos com Geral antes dessa interdição foi Flamengo 1×0 Independiente, volta da final da Supercopa Libertadores de 95 (o time argentino conquistou o título). Nessa ocasião, houve grande baderna na compra de ingressos e na entrada, problema infelizmente corriqueiro no Mário Filho (principalmente a partir da década de 90), e que se agrava quando o jogo tem muito apelo, como era o caso. Centenas de chinelos e sandálias, espalhados pelas rampas de acesso e pelas imediações das bilheterias, passaram aquela noite sem seus donos, delineando o retrato do que foi aquela desordem. A Geral não teve nenhuma relação direta com o caos, mas acabou pagando o pato.

No início de 1999, já com Chiquinho de Carvalho à frente da Suderj – órgão do governo estadual que dirige o estádio –, a Geral renasceu. Foi num Fla-Flu amistoso, em janeiro. Reticentes e cabreiros, os antigos proprietários do terreno o retomaram. Ou, pelo menos, alguns deles. Outros haviam migrado para a arquibancada, e talvez não tenham se adaptado. É possível que alguns, desgostosos com a expulsão, tenham deixado a religiosidade clubística esfriar, e que outros tenham morrido antes de regressar ao lar dominical. Lar que já não era o mesmo. Com tanto tempo de Geral inutilizada e tantas cabeças igualmente inutilizadas, criou-se o injustificável hábito de se jogar artefatos explosivos naquele espaço. Se, antes do degredo, o receio de ser atingido por um saco de urina já era bastante desagradável, depois, com a estupidez das bombas, o transtorno aumentou.

Para o Mundial de Clubes de 2000, foram feitas reformas nas arquibancadas: sobre os degraus de concreto, foram colocados assentos brancos, verdes e amarelos. Como se tratava de uma competição organizada pela FIFA, a Geral não tomou parte. Ficou ali, só olhando, parada, gelada, sem o alvoroço peculiar. Quem já esteve no local, no entanto, podia, forçando o ouvido, mesmo de casa, escutar uma infinidade de vozes. Uma pedindo para bater o escanteio no primeiro pau, outra xingando o juiz ladrão, mais outra perturbando o técnico, e ainda a que berrava o nome do ídolo. Eduardo Galeano já fez menção, em seus escritos, a essa mudez repleta de sons, típica dos estádios vazios.

Quase um ano depois do Mundial vencido pelo Corinthians, as grades de São Januário não suportaram a superlotação, e o segundo jogo da decisão da Copa João Havelange, entre Vasco e São Caetano, teve de ser cancelado. O que a Geral do Maracanã tinha a ver com isso? Nada. Contudo, foi novamente o Geraldino que perdeu seu sagrado território. Na época, a pressão por atitudes drásticas, capazes de resolver as mazelas dos estádios brasileiros, foi muito grande. Como a Geral do Maracanã e a outras gerais do país carregam a pecha de lugar violento e confuso, acabou sobrando para elas. O então ministro da justiça, José Gregori, mandou fechar todas. Foi para inglês ver. Em março, a Coréia do Beira-Rio (equivalente à Geral do Maraca) já havia sido reaberta. Meses depois, a Geral do Mineirão voltou a funcionar. No feriadão do início de novembro de 2001 – data, aliás, bem sugestiva –, foi a vez de a Geral do Maracanã ganhar nova chance.

Daí em diante, a Geral foi tentando, inutilmente, resistir à crueza da modernidade. Nos últimos tempos, poderia ter alterado seu nome para ‘Parcial’, já que somente determinados fragmentos de seus 500 metros de comprimento eram liberados para o torcedor – a fatia abaixo das cabines de rádio e TV, por exemplo. Como não atrapalhava as placas de publicidade e não estava próxima das torcidas organizadas, servia para ser a parte que ainda cabia ao Geraldino. Tudo indicava que aquela multidão espremida dos anos 70, que roía as unhas e coçava a testa à espera do gol redentor, nunca mais teria seu habitat natural resgatado.

E não teve mesmo. Em meados de 2005, tudo acabou. Ou melhor, nem tudo. Restou, para o acervo de memórias do futebol brasileiro, uma herança das mais nobres, deixada justamente por aquela que foi, sempre, o ‘point’ dos plebeus. Tchau, Geral.

Fenômeno mundial

Não é só a Geral do Maracanã que provoca saudades. As reformas do Beira-Rio prevêem o fim da Coréia, que também será lembrada com carinho. As ‘generales’ de La Bombonera deverão dar lugar a cadeiras, o que poderá subtrair uma parcela da efervescência do estádio e acarretará a diminuição de sua capacidade de 55 para 30 mil torcedores. Na Inglaterra, as viúvas dos ‘terraces’ reclamam do clima insosso dos campos da atualidade. Vejam o que diz Nick Hornby, no conhecido livro ‘Febre de Bola’, sobre a era romântica dos ‘terraces’: “Os torcedores temem que o fim da cultura dos ‘terraces’ signifique o fim do barulho, da atmosfera e de todas as coisas que tornam o futebol memorável”.

Em 2001, após um jogo contra o Dynamo Kiev, Roy Keane, capitão do Manchester United por anos e anos, achincalhou a torcida que comparece a Old Trafford: “Às vezes você fica pensando: eles entendem o jogo de futebol? Fora de casa nossos fãs são fantásticos, eu os chamaria de fãs ‘hardcore’. Mas em casa eles bebem alguns drinks e provavelmente comem os sanduíches de camarão, e não percebem o que está acontecendo em campo. Eu acho que algumas das pessoas que vêm a Old Trafford não sabem soletrar ‘futebol’, que dirá compreendê-lo.” Como se vê, os míticos ‘terraces’, ainda existentes nas divisões mais baixas do futebol inglês, não são cultuados à toa.

Um ótimo exemplo de que tradição e calor humano, de um lado, e sofisticação e segurança, do outro, talvez possam caminhar de braços dados é o Westfalenstadion, do Borussia Dortmund. A ‘Südtribühne” reúne 25.000 torcedores em pé a cada compromisso da Bundesliga, mas, nos jogos da UEFA ou da FIFA, o espaço se converte num conjunto de 10.500 cadeiras.

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Equipe Trivela

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